Ana Amorim Dias
Escritora, advogada, empresária e motociclista
OPINIÃO
Generosos decotes
O generoso decote que emoldurava aqueles roliços e firmes seios plantou-se ali, mesmo à minha frente, entre mim e a minha interlocutora, impedindo-me de raciocinar em condições e dificultando-me a habitual fluidez coerente da conversa. Segurei no capacete com firmeza e tentei concentrar-me mas o raio do generoso (generosíssimo!) decote teimava, à falsa fé, em roubar-me o olhar para si como se alguma espécie de macabro sortilégio dele se desprendesse...
andardemoto.pt @ 11-6-2018 18:08:08 - Ana Amorim Dias
Ando há demasiado tempo a protelar esta crónica mas aquele decote mostrou-me que estava na hora... aquele decote foi a gota de água que me fez agarrar às teclas com a mesma vontade que me agarro à mota e me faço à estrada: era imperativo partilhar algumas conclusões! Em primeiro lugar, caríssimos homens, quero que saibam que há mulheres (mesmo que não motociclistas) que vos entendem certas aflições. Mas deixem-me explicar melhor: não é nova para mim a constatação deste fascínio por reveladores decotes de opíparos seios; luto, desde que me lembro, por manter uma atitude discreta, por manter o olhar afastado e por refrear o embasbacamento que tais presenças me causam... mas é mais forte que eu! E o curioso é que se estiver alguém ao meu lado na praia a fazer topless, tal quadro se me afigura banal e desprovido de qualquer interesse estético.
Mas quando, em plenas concentrações (esta foi numa Biketoberfest em Daytona), os opulentos seios se passeiam, em avassaladores decotes, ante o meu rendido olhar, o sorriso e a voz que sempre uso com firmeza, convertem-se-me num qualquer disparate balbuciado que oiço ao longe enquanto a mente se concentra no “não olhes, Ana, não fiques especada a olhar, caramba!”, e isto é chato porque o domínio que gosto de ter sobre mim é igual ao que gosto de ter sobre a minha mota: é muito mais seguro assim! Nas poucas vezes em que já pensei a sério no tema ponderei que tal fascínio talvez me tivesse nascido do facto de ter sido criada a biberon, ou então, quem sabe, por ser dona de modestas proeminências frontais (não trocaria por nenhuma outra opção pois creio que não há nada mais confortável do que seios modestos!) Mas agora que me decidi a pensar no caso de maneira mais isenta, percebo que, tal como os generosos decotes recheados de abundantes seios são quadros de divina beleza, também o fascínio que não me envergonho de partilhar com a maioria dos homens se me afigura, afinal, absolutamente legítimo! E isto por uma simples razão: a nossa qualidade humana imprime-nos fortes tendências à busca do prazer e da estética, só isso. No entanto creio que optarei por continuar a tentar ser discreta, ainda para mais agora que me escrutinarão o olhar de cada vez que se plantarem diante de mim com generosos decotes a emoldurar fartos seios...
andardemoto.pt @ 11-6-2018 18:08:08 - Ana Amorim Dias
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