Teste Triplo Honda CRF1000L Africa Twin / KTM 1050 Adventure / Triumph Tiger 800 XCx - Por maus caminhos

Com o advento da nova Honda Africa Twin, não resistimos a imbuir-nos de espírito aventureiro e partir à descoberta da mítica Serra dos Candeeiros.

andardemoto.pt @ 14-2-2016 20:36:58

Texto: Rogério Carmo          Foto: ToZé Canaveira


Para termos uma noção mais aprofundada dos predicados desta tão esperada Honda CRF1000L Africa Twin, fizemo-nos acompanhar de outras duas máquinas que reivindicam apetência de viajantes, capazes de nos levar a todo o lado seja qual for o tipo de caminhos, e fomos literalmente “curtir” a Zona Oeste.

Fica já esclarecido que neste trabalho deveria ter estado presente outra moto, também ela cheia de pergaminhos no que à aventura diz respeito: a popular BMW F800GS. No entanto, por falta de disponibilidade de um modelo para teste, e porque assim temos pretexto para mais um trabalho, guardamos para mais tarde esse confronto, já com a versão renovada da moto da marca bávara que deve estar prestes a chegar ao nosso mercado, dotada de novo ABS, novo ASC (sistema de controlo de estabilidade) e ainda de novo ESA (sistema de suspensão electrónica). Mas, adiante!

Convém também deixar já esclarecido que a versão base da KTM aqui testada não apresenta roda de 21” no eixo dianteiro (de origem é de 19”) e que as jantes não são raiadas (são de alumínio). Efectivamente esta versão estava dotada de um kit cujas especificações pode encontrar se seguir esta ligação.

A KTM também foi fotografada com pneus cardados, mas apenas por questões de logística, sendo que, apesar de a diferença apenas se notar em piso de terra ou a alta velocidade, nesta avaliação esse facto não influenciou a nossa opinião.

Partimos pois para o que realmente interessa, ou para o que todos querem saber: se a nova Africa Twin é moto para fazer peito à Triumph Tiger 800 e à KTM 1050. Comecemos então pelo princípio: logo no meio do trânsito citadino, imediatamente após a recolha destas motos. 

Primeiras impressões

A nova Honda CRF1000L Africa Twin está perfeitamente à vontade até no meio do maior caos rodoviário: esguia, com boa brecagem, posição de condução elevada, confortável e com bons travões, guiador relativamente mais estreito e dona de um motor que responde muito bem logo desde baixa rotação. A caixa de velocidades é muito suave, tal como a manete da embraiagem (a versão aqui testada foi a intermédia, sem DCT mas com controlo de tracção e ABS).

Os comandos são acessíveis (excepção feita ao facto de a buzina estar colocada no lugar onde habitualmente está colocado o interruptor dos piscas e que nos faz apitar feitos parvos quando queremos é indicar que vamos mudar de direcção, ou que, por vice versa, nos faz caír o coração aos pés quando queremos avisar alguma daquelas andorinhas que anda ao telefone dentro da sua gaiola e, em vez disso, apenas conseguimos premir o mudo botão dos piscas, mas enfim, com o tempo, o proprietário habitua-se e não vou considerar isso um defeito, antes um traço de carácter). Os travões são de accionamento suave e bastante doseáveis.

Por outro lado, a KTM 1050 Adventure encontra no trânsito urbano o seu pior cenário. Apesar de o motor desta versão 1050 derivar da mesma base do das 1190 e 1290, e de a sua menor cilindrada e a electrónica ajustada fazerem milagres no que diz respeito ao funcionamento a baixos regimes, a configuração em “V” é praticamente impossível de esconder, proporcionando um desempenho menos elástico a baixa rotação, sendo necessário dar mais uso à caixa de velocidades, tanto pela rapidez de resposta como pelo medo que, num menos apurado controlo da embraiagem, o motor se nos cale sem qualquer pré-aviso. Já para não falar nas típicas e deselegantes batidas dos pistões.

Mas lá está, também é uma questão de hábito a que um proprietário rapidamente se habitua. E depois o LC8 compensa esse facto largamente em estrada aberta. Para além disso, em termos de conforto, a suspensão é aquela que se pode considerar mais rija, e qualquer passageiro vai precisamente reclamar desse facto. Mas a posição de condução elevada, a grande brecagem (a maior de todas deste conjunto) e os magníficos travões, potentes e doseáveis, também compensam esse facto.


A Triumph Tiger 800, nesta renovada versão XCx, enfrenta a cidade com grande naturalidade. A posição de condução ergonómica e elevada, a suspensão confortável, a caixa de velocidades muito suave, os travões bastante doseáveis e o motor tricilindrico a dar cartas em termos de elasticidade e suavidade permitem-lhe evoluír sem problema no maior dos engarrafamentos.

O seu maior problema é a brecagem pouco generosa e o calor emitido pelo tricilíndrico, sobretudo no verão e a circular a baixa velocidade. Mas a protecção aerodinâmica é boa, mesmo com o ecrã de origem, sendo excelente com o ecrã alto opcional que esta unidade tinha instalado.

A caminho...

Mal entramos em estrada aberta, começa a dificuldade em comparar estas três máquinas. Todas muito equilibradas, literalmente, apresentam-se muito fáceis de inserir em curva, muito estáveis a alta velocidade e com muito espaço para o passageiro. 

A Honda, mesmo sem modos de motor, responde bem às solicitações do punho direito, num compromisso muito bem calculado entre a resposta em baixos e as retomas em médios regimes. No entanto, em alta rotação, a Africa Twin perde ligeiramente para Triumph, e um pouco mais ainda para a KTM.
A travagem é, em todas elas, de muito bom nível, com alguma vantagem para a KTM que oferece uma maior sensibilidade das manetes e uma mordida dos discos mais assertiva.

O comportamento das suspensões, em andamentos moderados, é muito semelhante em todas elas. Mas em andamentos mais rápidos, em estradas sinuosas, será a KTM a levar vantagem, já que é a que se apresenta mais firme e a que sofre de menos afundamento em travagem. Também as WP da Triumph apresentam um comportamento muito bom, oferecendo um desempenho melhor que as da Honda, sobretudo em asfalto. 

Em andamentos mais rápidos será a Triumph aquela que mais vai ter que suar as estopinhas para conseguir manter-se ao ritmo das outras, já que a sua cilindrada inferior lhe confere um binário mais fraco, obrigando a usar a caixa e os altos regimes, sobretudo na saída das curvas ou nas ultrapassagens. Mas isso só se nota em ritmos de picanço, sendo a diferença desprezível em andamento normal, mesmo em andamentos bem "alegres".

Em autoestrada (mas quem é que anda por autoestrada com motos destas?) são todas basicamente iguais. A KTM, neste ambiente, apenas peca por ser a que tem a protecção aerodinâmica mais escassa. A Triumph é a que oferece uma maior protecção contra os elementos, sendo também a que melhor protege o passageiro, além de oferecer um cómodo “cruise control”.

E quando saímos do alcatrão?

Todas estas motos são muito competentes em qualquer ambiente, e todas elas foram concebidas para enfrentar as maiores adversidades. Todas nos conseguem levar a qualquer lado e sem problemas, proporcionando grande confiança em qualquer tipo de piso.

Numa condução normal, em trilhos ou estradões, tanto a Honda como a Triumph mantêm o conforto e proporcionam confiança, mesmo aos condutores menos experientes. A KTM, por outro lado, gosta mesmo é que a libertem, e a deixem ir, fazendo as delícias dos condutores com mais experiência, sobretudo em ritmos mais rápidos e em pisos mais difíceis.

Honda CRF1000L Africa Twin

A Honda CRF1000L Africa Twin é, destas três motos, a que mais facilmente se leva por qualquer caminho. Muito intuitiva, fácil de conduzir e sobretudo muito equilibrada, consegue proporcionar um grande conforto em qualquer tipo de piso. O motor tem uma sonoridade muito agradável, sobretudo na metade superior do regime de rotação, e é praticamente isento de vibrações ao longo de toda a faixa de regime.

A ciclística apurada proporciona uma grande confiança mesmo nas estradas mais reviradas, e quando sai do asfalto igualmente encanta pela segurança que transmite ao desenhar as trajectórias de forma bastante precisa.

Ao forçar o ritmo, facilmente nos apercebemos que a suspensão dianteira é demasiado branda para certo tipo de pisos, consumindo todo o curso da forquilha. O guiador, ligeiramente mais estreito e baixo que as outras duas motos deste conjunto, também pode ser desconfortável para os condutores de estatura mais elevada.

Pode ficar a saber mais sobre a Honda CRF1000L Africa Twin se ler o teste que já publicámos sobre ela (clique aqui).


KTM 1050 Adventure

A KTM 1050 Adventure, sendo a menos confortável, sobretudo para o passageiro, é a que garante um maior prazer de condução em terrenos difíceis. A sua roda dianteira tem uma precisão cirúrgica, e o seu motor está sempre pronto para responder e ajudar a colocar o conjunto na trajectória pretendida. Mas mesmo no asfalto a moto austríaca não se deixa intimidar, proporcionando momentos de condução muito interessantes, devido à maior potência do motor, e ao melhor apuramento da ciclística.

A sua ergonomia também é a que proporciona uma posição mais agressiva e as diversas regulações conseguem que se ponham todos os comandos ao nosso gosto e jeito.

A forquilha dificilmente encontra o seu limite, tal como o amortecedor traseiro, mesmo quando nitidamente sob abuso. E apesar de ter praticamente o mesmo peso da Honda e da Triumph, parece efectivamente muito mais leve tanto a manobrar como a inserir na trajectória.

E aparenta ser muito mais robusta, isenta de ruídos, chocalhos e de pancadas, mesmo em andamentos muito rápidos em muito maus pisos.

Pode ficar a saber mais sobre a KTM 1050 Adventure se ler o teste que já publicámos sobre ela (clique aqui).

Triumph Tiger 800 XCx

A Triumph Tiger 800 XCx é a que melhor se adapta a grandes viagens. Mais confortável, com um motor muito elástico e suave, dotada de “cruise control” e de um assento muito confortável para o passageiro, a estrada aberta é o seu ambiente de eleição, negociando as curvas sem necessidade de recorrer em demasia nem aos travões nem à caixa de velocidades. Os maus pisos são bem filtrados pela suspensão e a posição de condução bastante ergonómica favorece as grandes tiradas.

A travagem é muito boa e muito doseável, mostrando-se incansável mesmo quando abusada. Fora de estrada, em terrenos mais exigentes, a Tiger acusa o excesso de rigidez do quadro, que a torna mais difícil de colocar na trajectória quando submetida a andamentos mais rápidos.

Pode ficar a saber mais sobre a Triumph Tiger 800 XCx  se ler o teste que já publicámos sobre ela (clique aqui).

Para resumir...

  • Se quer uma moto polivalente, para andar diariamente e em qualquer tipo de utilização, a Honda CRF1000L Africa Twin é a moto que deve escolher.

  • Se quer uma moto que lhe proporcione sensações fortes, lhe permita andamentos muito rápidos seja em que tipo de piso for, então a KTM 1050 Adventure é a moto que deve comprar.

  • Se quer uma moto para viajar, para ir longe e fazer grandes tiradas com passageiro e sob qualquer meteorologia, então não deve hesitar e a Triumph Tiger 800 XCx é a moto que tem que ter.

andardemoto.pt @ 14-2-2016 20:36:58