Teste Harley-Davidson Pan America - Lés-a-Lés à Americana!

Ninguém imaginava que Milwaukee pudesse fazer uma moto de aventura, muito menos capaz de fazer frente às tantas e tão variadas propostas existentes no mercado. Mas a verdade é que a Pan America vai deixar muita gente impressionada!

andardemoto.pt @ 17-8-2021 07:28:00 - Texto: Rogério Carmo | Fotos: Luis Duarte

Esqueça tudo o que sabe sobre as Harley-Davidson. A marca americana está empenhada em dar um salto em frente na sua estratégia comercial e, na falta de novos clientes para os seus modelos mais icónicos, decidiu passar ao ataque e empenhar-se a sério em catapultar a sua fama e prestígio para um novo futuro, granjeando uma nova clientela.

Depois da LiveWire, que por diversas razões não chegou ao nosso mercado, provavelmente por estar demasiado avançada para os nostálgicos, brandos e velhos costumes dos portugueses, a Harley-Davidson atirou-se ao filão do segmento de aventura e, sem qualquer tipo de preconceitos, enfrenta o segmento trail de alta cilindrada com a novíssima Pan America.

Desenhada em torno da nova unidade motriz denominada Revolution, um inevitável motor bicilíndrico em V,  a que os americanos por força da tradição chamam de Big Twin, mas completamente diferente daquilo a que todos os fãs da marca estão habituados, seja pela performance, seja pelas sensações que promove, a Pan America pouco tem em comum com as antigas motos da casa de Milwaukee.

Dessas, esta nova Harley-Davidson apenas foi buscar inspiração a um dos modelos míticos da gama clássica na carenagem frontal, que homenageia a icónica Road Glide com uma versão estilizada do seu carismático “shark nose” ou nariz de tubarão.

Mas tudo isto já foi dito pelo meu colega jornalista Bruno Gomes que foi um dos poucos que teve oportunidade de estar presente na apresentação à comunicação social europeia realizada recentemente, e cuja primeira impressão pode ler se clicar aqui.

Por isso, o que aqui lhe vou resumir é a minha experiência aos seus comandos, durante a minha participação no Lés-a-Lés de 2021, depois de ter aceite o desafio proposto pela Harley-Davidson Portugal.

O meu primeiro contacto com a Pan America começou em Chaves, no dia do prólogo do grande evento. Escusado será dizer que estava extremamente curioso, ansioso até. Com hotel marcado em Valpaços, contive a excitação, amarrei a bagagem e fiz-me às fantásticas curvas da N213.  Cheguei frustrado à capital nacional da castanha! 

Foi a primeira vez que não consegui raspar no asfalto com os poisa-pés de uma Harley! 

Mas ainda assim, o sorriso nos meus lábios foi suficiente para arrancar comentários na recepção do Hotel, onde alguns motociclistas, que também lá estavam instalados, não resistiram a ir ver de perto a nova Harley Pan America!

Sinceramente, a minha vontade era voltar imediatamente a Chaves e repetir a experiência, mas tinha que esperar pelo meu companheiro de viagem, pelo que depois do check-in e de um duche rápido, me limitei a ir ali perto atestar o depósito, a descobrir a melhor maneira de amarrar a bagagem para não ter nenhum sobressalto, a instalar o suporte para o smartphone e a tentar entender-me com a multiplicidade de regulações que o completo pacote electrónico disponibiliza.

No entanto, no fim de tudo regulado, o botão Mode permite, com apenas um toque, selecionar as configurações mais adequadas a cada tipo de piso ou estado de espírito.

Ainda pude aceder aos menus de configuração da suspensão, para perceber como funcionava o sistema de rebaixamento automático da suspensão traseira, não que este fizesse grande falta ao meu metro e oitenta, mas por mera curiosidade. O sistema pode ser desligado, ou configurado para baixar a traseira da moto instantaneamente, mal paramos, ou para esperar uns segundos antes de comprimir a suspensão, permitindo desfrutar da altura livre ao solo a baixa velocidade,  quando se pretende ultrapassar um obstáculo, sobretudo em condução offroad.

A admirar as suas linhas inquestionavelmente diferentes, sem "bicos de pato" nem depósito de combustível exagerado, não pude deixar de notar que a unidade que me foi confiada já estava com bastantes quilómetros acumulados, sobretudo para uma moto de parque de imprensa, e que estava bastante mal tratada, com muitas marcas de quedas e maus tratos que, apesar de esteticamente desagradáveis, felizmente em nada comprometiam o seu bom funcionamento.

Depois de um jantar reconfortante e uma noite bem dormida, o dia seguinte chegou com sol brilhante e a promessa de muitos quilómetros com variados tipos de estrada e piso, mesmo aquilo que eu precisava para combater o tédio de tantos meses de confinamento e teclado.

Cumprido o protocolo da partida, o destino era S. Pedro do Sul, e a diversidade dos caminhos a seguir seria um verdadeiro tira-teimas para as aptidões da Pan America. Estradas de curvas, caminhos de acesso a aldeias empoleiradas nas montanhas e transito engarrafado que obrigavam a frequentes mudanças de ritmo e níveis de atenção, traduziram-se em mais de 7 horas de condução, sem qualquer tipo de desconforto.

O ecrã pára brisas cumpre muito bem a sua função, sem causar turbulência excessiva no capacete, permitindo regulação em altura para um ajuste ao gosto de cada condutor, complementando a boa proteção aerodinâmica. A posição de condução é bastante confortável, o assento é firme, proporcionando um bom apoio e os comandos são de acionamento leve. 


Ao longo do dia fui-me apercebendo do verdadeiro potencial da Pan America. Não vou dizer que será melhor ou pior que esta ou aquela concorrente, mas é sem dúvida diferente e uma opção a encarar por quem busca uma moto de turismo de aventura com potencial para grandes tiradas e condução desportiva.

Comparativamente com as demais, a Pan America começa por ser diferente pela sensação que o seu motor transmite, com uma nota de escape que, a alta rotação, mais parece o silvo de um jacto, com uma aceleração quase a condizer.

A elevada elasticidade do bicilíndrico, que prescinde de frequentes trocas de relação de caixa, não justifica a inexistência de quickshifter e, apesar da pouca necessidade de trocar de mudanças, pelo menos em andamentos normais de viagem, é uma ausência notada ao enfrentar estradas de curvas em ritmo rápido, pois iria tornar a condução muito mais entusiasmante.

A Pan América mantém velocidades de cruzeiro a regimes entre as 3 e as 5000rpm, mas acima disso transforma-se, porque o Revolution Max gosta de subir de rotação e fá-lo de forma bastante rápida, quase como uma provocação aos pergaminhos da marca.

E sim, digo entusiasmante porque, em termos de ciclística, a Pan America revela-se extremamente ágil, com um manuseamento leve, sendo muito fácil de colocar e manter na trajetória pretendida e muito estável em curva. A unidade de medição de inércia permite travagens no limite até ao apex da curva, e enrolar o punho direito a fundo, mal se vislumbra a saída da curva, com a suspensão eletrónica a manter a moto quase perfeitamente nivelada com o piso, sem qualquer tipo de ondulação, garantindo a máxima aderência dos pneus, mesmo em pisos degradados ou irregulares.

A travagem é potente, muito doseável, com a da roda traseira a ser uma preciosa ferramenta a ritmos mais elevados, e as ajudas electrónicas, nomeadamente o ABS e o Controlo de Tração, não se mostraram intrusivas.

Ao final do dia tive que procurar um spray para lubrificar a corrente, já que se estava a tornar difícil conseguir selecionar o ponto morto, e queria ter a certeza que não era um problema da caixa, mas antes da transmissão final. Efectivamente, com a corrente já lubrificada, no dia seguinte esse problema desapareceu.

À falta de hotel disponível em S. Pedro do Sul, fui dormir a Viseu, onde novamente, à porta do hotel, a Pan América não conseguiu passar despercebida.

A melhor parte foi apreciar a discussão gerada entre um grupo de motociclistas que se juntaram ao seu redor, e cujas opiniões se dividiam entre os que achavam a Pan America mais bonita ao vivo do que antecipavam as fotos, e os que mantinham a opinião e se mostravam quase chocados com o seu design pouco convencional.

Por mim, o desenho do motor, só por si, já merece nota 10! E o formato “Shark Nose” da carenagem frontal, faz-me recordar bons momentos que já tive oportunidade de viver aos comandos de algumas Road Glide, tanto por cá, como por essa Europa fora.

No segundo dia do evento havia a promessa de mais caminhos para descobrir, mais curvas, e muitos mais quilómetros para cumprir. A meteorologia continuava favorável, com as temperaturas a rondarem os 30 graus, e tenho que confessar que, depois de ter ouvido alguns colegas da comunicação social, que a tinham testado antes de mim, a comentarem o calor excessivo emanado pelo escape, fiquei surpreendido por não o ter notado.

É certo que fiz todo o percurso com um fato técnico de alta qualidade e com botas de cano alto a condizer, mas mesmo já depois do evento terminado, no dia em que a fui entregar ao concessionário em Lisboa, e que vestia apenas umas jeans e calçava botas de cano curto, nem sob forte aceleração nem parado no meio do trânsito da capital, senti que o calor fosse um problema, até porque a sua concorrência, não germânica, é toda ela significativamente mais problemática nesse aspecto.

À chegada a Abrantes estava realmente convencido do potencial turístico e de aventura da nova Harley. Pelo segundo dia consecutivo a acumular quilómetros, mesmo quando era obrigado a ritmos mais lentos, ou a enfrentar pisos mais degradados, o prazer de condução mantinha-se elevado.

Os trajetos sem alcatrão foram poucos, e para os enfrentar nem sequer me dei ao trabalho de mudar os modos de motor, mantendo-me fiel à poderosa configuração Sport. 

Claro que os pequenos percursos de terra não foram suficientes para me poder pronunciar sobre as aptidões offroad, mas indiscutivelmente a relativamente pouca altura do assento e a excelente distribuição de peso, com o centro de gravidade bastante baixo, conferem uma grande confiança.

Além disso a electrónica tem trunfos que muitos irão apreciar. Mesmo quando se encontram pisos menos firmes, como pude comprovar no cimo da serra de Montemuro cujo acesso, em pedra solta, pouco me intimidou. O elevado binário a baixa rotação e a boa altura livre ao solo também ajudam a passar alguns obstáculos significativos sem qualquer dificuldade.

Pessoalmente continuo a achar que martirizar tanta tecnologia fora de estrada é um verdadeiro atentado à ciência e à tecnologia, pelo que para mim é no asfalto que estas “big trails” devem ser avaliadas!

Em termos de consumos, e sem medições exactas, apenas posso adiantar que, comparativamente com a Suzuki V-Strom 650 do meu companheiro de viagem, a cada abastecimento, a Pan América apenas consumia mais um ou dois litros de combustível ao fim de mais de 250 quilómetros, apesar de regularmente e quando a estrada permitia, ser fustigada com andamentos verdadeiramente inspirados, que a V-Strom não conseguia sequer imaginar, muito menos acompanhar.



À chegada a Abrantes, depois de passar pelo palanque e alguns momentos de hidratação, foi hora de partir para Ponte-de-Sôr, para um merecido jantar e uma noite de descanso, porque o terceiro e último dia deste teste / evento / passeio ia ser longo.

Foi acordar cedo, rumo a Faro, mas com um pequeno desvio para uma sessão de fotos e compensar a ausência de curvas da N2 no Alentejo. Chegado à capital do Algarve, foi tempo para atestar depósitos e rumar a casa.

Ao fim do dia somava perto de 800 quilómetros, com quase 10 horas de condução (além de duas horas de sessão de fotos sob o abrasador sol do Barrocal Algarvio) e em nenhum momento senti cansaço ou qualquer tipo de desconforto.

A excelente ergonomia, a boa proteção aerodinâmica, o conforto proporcionado pela suspensão, a iluminação de referência e a banda sonora emitida pelo escape da Pan America foram os responsáveis por ficar com vontade de pegar novamente nela e partir para uma daquelas viagens sem destino…


Muito fica por dizer desta nova Harley-Davidson mas, antes de finalizar, quero referir que apesar de as vendas deste novo modelo já serem animadoras, a casa de Milwaukee ainda tem alguns pormenores para resolver.

Algumas partes da cablagem precisam de um novo arranjo para as tornarem menos atraentes a percalços, o descanso lateral, algo afastado do condutor, apesar de estável não inspira muita confiança nas primeiras vezes que é utilizado, e além disso interfere com o cavalete central.

Também o tamanho da fonte do painel de instrumentos é demasiado pequeno para ser legível em andamento. Sobretudo em maus piso. O sistema sem chave não se estende ao depósito de combustível nem à tranca da direção e os botões do interface carecem de retorno, ou seja, quando os clicamos, eles não providenciam nenhum feedback, pelo que nunca sabemos se as instruções dadas foram ou não validadas pelo sistema.

Pequenos pormenores que, para já, desculpo com a excelência do desempenho do motor e da ciclística.

Equipamento:

Neste teste usámos o seguinte equipamento de proteção e segurança:

Capacete Nolan N100-5  Plus

Luvas REV’IT Arch

Fato Rev’It! Poseidon 2 GTX

Botas TCX Clima Surround GTX


andardemoto.pt @ 17-8-2021 07:28:00 - Texto: Rogério Carmo | Fotos: Luis Duarte


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