Teste Moto Guzzi V7 Special - Bradar aos céus

Na sua última evolução, a Moto Guzzi V7 ganhou potência e melhorou as suas características ciclísticas. Esta é a sua versão mais purista, a Special. Fomos descobrir se merece o epíteto.

andardemoto.pt @ 6-12-2022 07:24:00 - Texto: Pedro Alpiarça | Fotos: Luis Duarte

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Moto Guzzi V7 Special | Moto | V7

Quando algo se destaca dos seus pares, damos-lhe um nome. Enaltecemos a diferença com o gosto de quem aprecia a peça. Esta moto que vos apresentamos hoje, começou a sua história nos anos 70 e actualmente faz parte da família de máquinas mais vendidas da marca.

A Moto Guzzi V7 merece ter Special  na sua definição, porque toda ela assume um compromisso com a sua ligação ao passado. Esteticamente, tem uma presença tão característica e única, que ficamos na dúvida se a sua condução também pertence a outros tempos.

Num dia frio de inverno, em Sintra, a floresta densa não deixa que o Sol toque no chão.
A humidade e o vento irrequieto trazem-nos o desconforto típico desta altura do ano, e Andar de Moto torna-se numa missão.

No meio deste cenário místico, está uma máquina que se mistura com o ambiente que a rodeia, esta V7 Special tem uma intemporalidade orgulhosa, conhece o seu legado e honra-o nas suas formas.

Das protuberantes cabeças de cilindro saem os colectores de escape cromados que imitam as linhas brancas pintadas no bonito depósito azul. A esta fluidez clássica juntam-se as jantes raiadas, o assento em pele e os redondos manómetros analógicos, numa sintonia contextual com a época que representa.

A escolha do farol dianteiro em halogéneo mantém esta pureza estética, e apenas o farolim traseiro mostra uma traição no espírito, apresentando tecnologia LED. Esta versão Special não faz questão de enganar alguém, o honrar da sua história é mais importante do qualquer tentativa de jovialidade imberbe. Torna-se difícil não dedicar tempo a admirar-lhe os pormenores e ganha-se respeito pela sua presença.

Rodando a chave, vemos a dança ritual dos ponteiros e, quando o motor ganha vida, toda a floresta acorda. 

Nos primeiros metros percebemos que estamos perante uma moto que não tem filtros, argumenta com a atitude típica de quem tem muito passado em cada elemento mecânico. A baixas velocidades sentimos a manobrabilidade facilitada pela simpática ergonomia e pelo bom acesso ao solo (a altura do assento queda-se nos 780mm), e uma embraiagem dócil e com bom tacto.

Nestas condições de piso húmido agradecemos o bom feeling dos pneus (monta uns Dunlop Arrowmax StreetSmart nas medidas 100/90 R18 na roda dianteira, e 150/70 R17 na roda traseira, um aumento de dimensão face à geração anterior) e os dois níveis do controle de tracção dão-nos a garantia de que a brusquidão do bicilíndrico está acautelada por uma moderna almofada de segurança.

A transmissão por veio e a caixa de velocidades bem precisa, trabalham em uníssono com um acelerador directo e intuitivo. A V7 Special avança determinada sempre que se alimenta de combustível (depósito de 21 L, com consumos na ordem dos 5 L/100km), ela prefere um punho direito com carga e é assim que gosta de ser conduzida.

Definitivamente, não há lugar para rodeios nem hesitações, a sua condução é viril e requer compromisso e empenho, sendo mais um traço de personalidade do que propriamente um defeito.

Depois de ter ganho o motor da aventureira V 85 TT, os seus valores de potência  aumentaram cerca de 25% e a ciclística foi aprimorada (reforço na coluna de direcção, e novas suspensões) para não deixar cair a evolução de um modelo com mais de 50 anos de história. 


O icónico bicilíndrico em V com 853 cc montado longitudinalmente (debitando 65 cv às 6800 rpm e 73 Nm às 5000 rpm) está mais adulto. O Euro 5 aumentou-lhe a cilindrada, e deu-lhe o humor típico de quem acorda mal disposto. A frio, quando a ligamos, se falasse brindava-nos com um chorrilho de palavrões, mas rapidamente lhe passa.

Tem personalidade forte, sem dúvida. Em andamento, sente-se vibrante e cheio de vontade de ganhar momento, sobretudo entre as 3 mil e as 5 mil rotações, e a partir daí abre o pulmão até ao corte, pouco antes das 7 mil. É um motor que exala carácter, contorce-se e embala-nos com a sua voz rouca, e os escapes Mistral que esta unidade monta, patrocinam uma banda sonora absolutamente fabulosa. 

O contexto onde esta máquina se sente mais feliz, é sem dúvida a estrada aberta. Não que a cidade e as suas vicissitudes não lhe pintem a personagem, pelo contrário, a Moto Guzzi V7 Special ficará impecavelmente emoldurada numa esplanada mais concorrida, e o sucesso da sua imagem fará certamente virar cabeças. 

Mas as suas suspensões (contemplando uma forquilha telescópica KYB com 40mm de curso no eixo dianteiro, e um duplo amortecedor ajustável na pré-carga na secção traseira, também Kayaba) e quadro, não vão amar as tampas de esgotos proeminentes nem os buracos profundos, e rapidamente desistem de tentar ser politicamente correctas.

O seu registo é de parcimónia nos movimentos, uma certa frequência de utilização que amplifica as transferências de massa (são 223 Kg a cheio) do conjunto, ideal para uma condução fluida, a roçar o desportivo.

Com uma posição de condução ligeiramente dedicada ao eixo dianteiro, estamos em primeiro plano sobre a acção e esta premissa faz com que tenhamos vontade de andar um pouco mais rápido. Aproveitando a desenvoltura do motor, ganhamos velocidade cavalgando o binário sempre disponível, sem necessidade de passagens de caixa frenéticas ou reduções bruscas.

A travagem conta com um disco flutuante com 320 mm de diâmetro e maxila de 4 pistons Brembo, na roda dianteira, e um Disco de 260 mm de diâmetro com maxila de piston duplo no eixo traseiro, e é potente, com uma mordida decidida.

A ausência de uma embraiagem deslizante revela-nos uma latente susceptibilidade na hora das reduções. Favorecer o embalo, confiar no bom grip mecânico em ângulo e acertar no timing de saída com punho cheio, é um modus operandi que se torna altamente gratificante. Sem exageros na postura, e a esbanjar estilo, até porque com estes escapes (a unidade testada vinha equipada com ponteiras de escape Mistral), ninguém vai ficar indiferente.

Mas em qualquer altura, conseguimos rolar tranquilamente e deixar que as suaves vibrações do motor nos aconcheguem a alma, que o movimento dos ponteiros nos recorde os tempos áureos dos motores a combustão e que o conforto emocional de toda a experiência nos faça sorrir.

Esta é uma moto com muito mais coração que razão, e não o consegue - nem quer!!! - disfarçá-lo…  Disponível em dois esquemas cromáticos de nomes sugestivos (Blu Formale e Grigio Casual), esta versão da V7 terá um preço de 9900 €.

A Moto Guzzi V7 Special faz juz ao seu nome. As jantes raiadas, a pintura clássica, os manómetros analógicos, até o farol dianteiro sem recorrer aos típicos LEDs, dão-lhe uma aura muito especial. O seu legado é inegável e está tão vincado na sua silhueta que quase a desculpávamos se não conseguisse ser tão performante. Mas tal não é o caso. 


O gozo que retiramos da sua pilotagem depende sobretudo de uma aptidão ciclística capaz de aproveitar a experiência sensorial que é fazer cantar este motor. Claro que os Mistral fazem uma descarada batota, mas eu sou daqueles que acham que o som tem de fazer parte da equação.

Viver o passado nesta gloriosa forma de estar na estrada é um verdadeiro privilégio.Reafirmo “estrada”, aproveitando a sua condução tão genuína, até porque a tentação de a parar à vista de todos é… enorme.

Equipamento

Neste teste usámos o seguinte equipamento de proteção e segurança:

Capacete Nexx G.100R Gallon

Blusão Macna Oryon

Calças Macna Takar

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