O resumo do Lés-a-Lés 2020

Um evento bem diferente de todos os anteriores, com limitações e cuidados redobrados, cautelas e respeito absoluto pelas normas em tempo de pandemia. Resumindo, um sucesso!

andardemoto.pt @ 7-10-2020 00:58:33

Basta perguntar a quem participou. Um pouco mais de mil motociclistas, cerca de metade dos registados nos anos anteriores, mas o prazer foi redobrado. E nem a chuva, o vento, o nevoeiro ou todas as incertezas,  minimizaram o prazer, há tanto adiado, de passear de moto.

Da Lacóbriga a Aquae Flaviae, passando por Ebora Cerealis e Lancia Oppidana do tempo dos romanos, os bravos lusitanos (e alguns estrangeiros) resistiram e lutaram contra os elementos ao longo dos 1.111 quilómetros da aventura.

Adiado de Junho para o início de Outubro 2020, o Lés-a-Lés de 2020 descobriu um Algarve bem diferente, com um tempo menos convidativo para uns banhos de mar, é certo, mas nem por isso menos interessante. 

A prova foi dada durante os 79 quilómetros do Passeio de Abertura, com passagem pelas históricas ruas de Lagos antes de um saltinho à costa lacobrigense, com tempo para desfrutar da imensidão atlântica a partir do novo passadiço da Ponta da Piedade, ou do miradouro da Atalaia, de onde foi possível ver boa parte da costa finamente recortada, desde a praia da Luz até à ponta de Sagres. 

Uma relaxante passeata pedonal até ao cimo da Rocha Negra e uma visita à aldeia do Barão de São João, onde os hippies dão um colorido especial e onde nem falta um Cristo de traços pós-modernos a tentar fugir da Cruz, antecederam a subida à Serra de Espinhaço de Cão, seguindo em direção à Barragem da Bravura.

Depois, já no regresso à beira-mar, um momento de história para apreciar tradições bem expressas no moinho de Odiáxere - propositadamente aberto para os participantes do Lés-a-Lés.

O passeio seguiu aproveitando uma fantástica localização entre a Reserva Natural da Ria de Alvor e a Meia Praia, com vistas fantásticas sobre o mar e toda a alvura de Lagos, cidade que tão bem acolheu a caravana, oferecendo possibilidade de muitas descobertas.

Sem tremores de terra ou temporais bíblicos, mas com chuva que haveria de acompanhar a caravana durante boa parte do dia, a primeira e curta etapa, resumia-se a apenas 286 km, mas foi bem variada: começou com uma rápida passagem pelo Autódromo Internacional do Algarve antes das curvas da Serra de Monchique, com subida ao alto da Fóia, onde se juntou o nevoeiro e, logo à frente, o vento forte.

Passada a intrincada e por vezes labiríntica serra de Monchique, onde o prazer de condução é oferecido em estradas como a N266 que haveria de levar os motociclistas até à Barragem de Santa Clara, e depois a N123, rumo a outra represa artificial, a do Monte da Rocha, que segura a escassa água do rio Sado que nasce por ali perto, seguiu-se o Alentejo.

As Minas de Aljustrel, a surpreendente Capela do Calvário, em Ferreira do Alentejo e a ponte romana de Alfundão foram para muitos descobertas para guardar na memória durante a paragem na bonita vila de Alvito, em mais um Oásis onde água e sumos acompanham mais uma sandes ou outro petisco regional.

Seguiu-se a passagem por Viana do Alentejo e pelo imponente Santuário de Nossa Senhora de Aires, um dos mais importantes no Alentejo. E, finalmente, Évora.

Para a 2.ª etapa cresciam as exigências. Por força do superior número de quilómetros, mas também das estradas cada vez mais recurvadas à medida que a caravana ia subindo no mapa nacional.

Na saída de Évora as temperaturas eram bem amenas, próprias da época do ano, mas pouco usuais num Lés-a-Lés, que jamais fora realizado em Outubro.

As temperaturas podiam ser diferentes mas as estradas, essas não enganavam, com as longas retas ligando aldeias pontilhadas de casas brancas, com rodapés e molduras de portas e janelas pintadas em cores vivas, como é o caso de Igrejinha, mesmo antes da chegada a Casa Branca.


Mas era preciso arrepiar caminho até Aviz, onde o pequeno almoço podia ser saboreado nas margens da albufeira do Maranhão, para recuperar forças para depois poder ir apreciar a Ribeira de Sume, fenómeno geológico situado pouco depois de Vale de Açor, onde uma das maiores grutas graníticas da Península Ibérica faz com que as águas da Ribeira de Sôr desapareçam (ou sumam) durante 250 metros, debaixo daquilo que parece o leito seco de um rio.
Gavião e Belver antecederam as espetaculares descidas para o rio Tejo, rumo à Ribeira de Eiras.

Estradas quase desertas levaram os participantes a Tinalhas e a um dos mais impressionantes Oásis do ano, montado pelo Moto Clube d’Atestar, que fez questão de mostrar ao mundo uma indelével homenagem à FMP e ao Lés-a-Lés, gravada no granito, juntamente com a majestosa estátua do Arcanjo S. Rafael, designado em 2003, pelo Papa João Paulo II, como padroeiro dos motociclistas. 

Depois de um dia particularmente solarengo na travessia do Alentejo, a aproximação à Estrela fez reaparecer o temor da chuva, com as nuvens a cobrirem a serra mais alta de Portugal Continental, antes ainda da chegada a Unhais da Serra onde o Moto Clube da Covilhã - Lobos da Neve preparou uma excelente receção.

Aconchego ao estômago antes de atacar os quilómetros finais, rumo à Guarda, com uma promissora passagem pela Serra da Estrela. 

E se muito prometia, assim cumpriu com uma espetacular passagem pelo vale glaciar da Ribeira de Altorfa, com direito a um pouco de off-road, subindo ao ponto mais alto deste Lés-a-Lés, a cerca de 1600 metros de altitude, antes de iniciar a descida para a Guarda.

A caminho pela Nave de Santo António, passagem em Manteigas e continuação pelas estradas N232, ao longo do rio Zêzere, e N18-1. A chegada à cidade mais alta de Portugal faz jus a um dos cinco F’s que a caraterizam, com muito Frio, para, ao jantar, nos mais diversos restaurantes, recordar outro dos F’s, o de Farta.

A 3.ª etapa partia cedo a antiga Oppidana, mas ainda a tempo de confirmar outro F, o de Formosa.

Era tempo de vestir os fatos de chuva para rumar a Pinhel, sempre com temperaturas bem baixas. Uma passagem em Guilhafonso onde segundo dizem, o maior exemplar da Castanea sativa existente na Europa tem mais de 400 anos de vida, foi um dos primeiros atrativos de uma etapa muito fotogénica, que continuou com a anta da Pêra do Moço, um monumento funerário do Período Neo-Calcolítico. 

Em Pinhel, após a passagem pelo castelo, houve direito a reforço alimentar bem no centro da cidade Falcão, com um pequeno-almoço e momentos de descanso, antes de voltar à estrada, pela fantástica N221 em direção ao rio Côa, quando o sol já secava o asfalto e levava muitos participantes a despir os fatos de chuva. 

Imagens bem diferentes dos dias anteriores na chegada a Castelo Rodrigo, uma das 7 Maravilhas de Portugal no que às aldeias históricas diz respeito. Do castelo à sede de concelho, Figueira de Castelo Rodrigo, a entrada no Parque Natural do Douro Internacional reforçou a mudança paisagística, bem apreciada no miradouro da Sapinha, com vistas desanuviadas sobre o rio Águeda, no preciso local onde alimenta o caudal do Douro.


Foi uma etapa altamente fotogénica, começando nas imponentes escarpas que ladeiam o Ribeiro de Mosteiro, formação geológica de quartzitos com 450 milhões de anos, e continuando pelas marcas deixadas pelos romanos na região, como a pequena ponte e a Calçada de Alpajares ou Calçada do Diabo.

Para digerir tamanha imponência geológica e histórica, nada como umas curvas deliciosas, rumo a Freixo-de-Espada-à-Cinta, no regresso à rápida e bonita N221 que haveria de acompanhar a caravana até Mogadouro. 

Pelo meio, duas escapadas de ‘luxo’ através de algumas estradinhas municipais, mais lentas e contemplativas: a primeira para ver o Cavalo de Mazouco, por muitos apontada como a primeira gravura rupestre ao ar livre em toda a Europa; a segunda para vislumbrar o vale do Douro numa das suas vistas mais imponentes a partir do Miradouro do Carrascalinho.

Sempre com a N221 como linha orientadora, Mogadouro foi paragem para retemperar muitos estômagos mais carentes antes da descida ao Rio Sabor, com algumas nuvens ameaçadoras no horizonte, mas que, felizmente, haveriam de dar em nada.

Já dentro do concelho de Macedo de Cavaleiros, nova paragem na albufeira do Azibo onde o moto clube local deu as boas-vindas ao Nordeste Transmontano, seguindo-se, poucos quilómetros adiante, a visita mais carnavalesca de todas: Podence, cujos famosos caretos com que festejam o Entrudo são, desde fevereiro, Património Imaterial da Humanidade. 

De Macedo a Torre de Dona Chama, sempre por estradas secundárias bem interessantes, houve oportunidade para apreciar nova mudança de paisagem, com os grandes vinhedos do Côa a darem lugar a olivais e vinhas bem mais pequenas, dos produtores locais e destinadas, sobretudo, a consumo próprio.

Com o sol a brincar as escondidas, ora aparecendo em força, ora dissimulando-se atrás de ameaçadoras nuvens negras, lá seguiu o pelotão para apreciar a famosa Berroa ou Porca (ou será uma ursa?) e o Pelourinho da vila do concelho de Mirandela cuja lenda aponta a origem do nome para a fundação por uma nobre senhora, Dona Châmoa Rodrigues.

Inabalados pelas ameaças de chuva e animados por ter Chaves cada vez mais perto, algo que à partida muitos colocavam em dúvida, os maratonistas viveram um final espetacular, sempre junto à fronteira com Espanha, de beleza condizente com a excelente jornada mototurística que foi o 22.º Portugal de Lés-a-Lés. 

Na cascata de Segirei, apreciando o território de nuestros hermanos, tentando mover a famosa Pedra Bolideira ou fotografando o célebre marco zero da cada vez mais concorrida N2, os participantes iam dizendo adeus a este evento único.

A organização, que encontrou imensas dificuldades para levar o evento a ‘bom porto’ mas que, finalmente, nas margens do Tâmega depois da passagem exclusiva pela ponte romana de Trajano, mereceu aplausos de todos.

O adiamento desde Junho para esta altura do ano, por força da pandemia que parou o Mundo, criou muitas dores de cabeça, é certo, mas deixou uma boa notícia: É que só já faltam 9 meses para a próxima edição.

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andardemoto.pt @ 7-10-2020 00:58:33


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