Honda XR 650 R: a XR do novo milénio
Esta moto representou o pináculo da família XR e uma sua “derivada” (a XR 650L) ainda é comercializada em alguns mercados. Eis a ainda hoje muito popular Honda XR 650 R.
andardemoto.pt @ 9-8-2026 20:41:38 - Texto: Pedro Pereira Fotos: Luís Duarte
Quando surgiu no mercado, exatamente no início do novo milénio, a Honda XR 650 R rapidamente se mostrou como uma digna herdeira de uma extensa linhagem de motos da família XR, sendo que o seu fantástico motor com refrigeração por líquido e o seu quadro de alumínio eram dois dos seus principais pontos de destaque.
Mantendo sempre a imagem muito próxima das suas irmãs de menor cilindrada, com especial destaque para a 250 R, a 450 R e a 600 R, a nova 650 representava um grande passo em frente e o seu mercado primordial, os Estados Unidos, recebeu-a com elevado entusiasmo, sendo que rapidamente se tornou numa campeã de bajas.
Um pouco de história
Durante muitos anos praticamente não existiam motos que fossem verdadeiras máquinas de enduro que tivessem capacidades para viajar. Regra geral, eram adaptações mais ou menos conseguidas de motos de estrada, eventualmente com suspensões de maior curso e alguns extras de proteção.
No universo das motos a quatro tempos com um caráter mais dual, como é do conhecimento geral, coube à Yamaha com a fantástica XT 500, que apresentámos recentemente, a primazia nesse importante mercado, mas a concorrência não ficou parada e começaram a chegar concorrentes de todo o lado, incluindo do Japão.
Ainda no final da década de 70 a Honda lançou a XR 500, enquanto comercializava também a sua versão mais civilizada, a XL 500. Na prática eram duas versões da mesma moto, mas com especificações e públicos-alvo distintos.
A XR, desde o seu início da sua comercialização, veio a afirmar-se como uma pura moto de enduro, preparada para vencer corridas, com uma fiabilidade elevada e também capaz de acompanhar os aventureiros de fim de semana um pouco por todo mundo.
Aliás, a aposta do fabricante era de tal forma elevada que foi uma Honda XR 550 que venceu o Rali Dakar em 1982 pelas mãos de Cyril Neveau, aumentando ainda mais a fama da moto e a sua aceitação pelo grande público.
Ao longo dos anos seguintes a marca diversificou as cilindradas, mas focando-nos apenas nos motores de um cilindro, não há como negar que todas tinham um denominador comum: motos fáceis de conduzir, muito robustas e capazes de suportar maus-tratos como quase nenhuma outra moto! Ainda hoje assim é.
No virar do milénio, numa derradeira aposta e numa fase em que a concorrência já tinha ofertas mais modernas e ágeis, a Honda lança a derradeira evolução da família XR “pura e dura”. A XR 650 R, uma moto feita à medida das bajas americanas, pronta para vencer corridas praticamente sem alterações, exceto talvez um depósito de maior capacidade. Afinal de contas, o original comporta menos de 10 litros e numa condução atrevida esvazia-se rapidamente.
Parada no tempo ou opção estratégica?
No final do milénio passado as motos de enduro e off-road no geral começaram a ser mais especializadas e os europeus, em especial a KTM com a sua RFS (Race Four Strokes), mudaram o panorama das motos de enduro. Ainda assim, a grande revolução deve-se à Yamaha com a sua YZ 400 que mudou por completo a ordem conhecida no que dizia respeito à performance dos motores a quatro tempos no enduro e motocross.
Quase indiferente a tudo isso a aposta da Honda foi numa direção distinta: mais fiabilidade, menor manutenção, ainda que com performances inferiores, que eram compensadas por um motor de maior capacidade e com um binário impressionante.
Se compararmos, por exemplo, uma XR 650R de 2000, como a desta crónica, com uma KTM EXC 520 do mesmo ano, a KTM tem valores mais modestos de potência e sobretudo de binário: 57 cv vs 61 cv ou 50 Nm vs 64 Nm, mas tem também várias vantagens: caixa de 6 velocidades, motor de arranque e peso muito inferior são as mais relevantes!
Ou seja, a Honda XR 650 evoluiu imenso face às suas antecessoras, mas foi também uma oportunidade perdida de a dotar mais alguns elementos que a tornariam ainda mais universal. Bastava uma caixa de 6 velocidades e um motor de arranque!
Sensações de condução
Há algum tempo que não tinha oportunidade de conduzir uma XR, sendo que eu próprio, há muitos anos, tive uma XR 400 que me deixou boas referências, sobretudo pela elevada fiabilidade, sendo que foi depois trocada por uma KTM EXC 400, mais leve, ágil, potente… e com motor de arranque!
A presença desta magnífica XR 650 R impressiona-nos positivamente, mesmo sendo um modelo com 25 anos e que, pasmem-se, tem menos de 1000 km rodados, ou seja, ainda nem terminou a rodagem e está como nova, literalmente falando! Quase senti problemas de consciência por um ou outro exagero da minha parte e pedi desculpas ao Luís, seu orgulhoso proprietário.
A moto é alta (assento a 940 mm do solo), mas o longo curso das suspensões (285 mm de curso à frente e 307 mm atrás) ajuda e depois o assento continua a ser tão confortável que até causa estranheza, mesmo para quem anda quase sempre de pé em motos de off-froad!
Tudo é minimalista, mas está lá o essencial para a diversão e colocar o motor em funcionamento, ao contrário do que muita gente pensa, é muito fácil, desde que estejam reunidos alguns requisitos: gasolina nova, carburação correta e válvulas afinadas são os principais.
Procurar o ponto morto superior (PMS), atuar ligeiramente o descompressor (manete situada do lado esquerdo), baixar ligeiramente a bota, voltar a subir e depois dar uma “kikada” decidida! Durante o test ride pegou sempre à primeira, mesmo encharcada de água!
Claro que se o motor estiver muito quente ou tiver “afogado” por causa de uma pequena queda ou estivermos no meio de uma trialeira… vamos sentir a falta do motor de arranque, mas quando o objetivo é andar para a frente… esquecemos tudo isso e só queremos desfrutar! Já agora, não é nada conveniente colocar a moto em funcionamento apoiado no descanso lateral. Mais cedo ou mais tarde este vai ceder.
A posição de condução é excelente seja de pé ou sentado, os travões chegam para as encomendas embora o dianteiro pudesse ser mais contundente e as suspensões absorvem praticamente tudo o que possam imaginar, mesmo sendo a Kayaba dianteira de 46 mm do tipo convencional. O próprio quadro de alumínio tem uma rigidez impressionante e melhora as sensações na condução.
No meio de tudo isso, é o motor que mais se destaca, mesmo que a caixa tenha apenas 5 velocidades. Quase nem se sente a falta de uma sexta, tirando talvez num estradão alentejano, a velocidades proibitivas e com a nossa integridade física a correr perigo e o escape a emitir um ruidoso cantar, mais audível ainda se não tiver o redutor de ruído.
O motor responde sempre prontamente e sem hesitações e um rodar mais agressivo do acelerador causa, mesmo em mudanças mais altas, a inevitável tendência para levantar a roda da frente ou a derrapagem da roda traseira, sendo que um pneu de medida de 140/80/18 é mais recomendável que o estreito 110/100-18. Aliás, em condução empenhada, esta XR tinha tendência para destroçar pneus num ápice e em ambas as rodas.
Nesta moto que aqui lhe apresentamos tudo parece e está novo, embora as tampas do radiador não sejam as originais por mero gosto pessoal. A proteção de cárter não tem marcas de uso, tal como as tampas do motor ou as laterais do quadro. Até tem montados os piscas que ninguém usa (lembramos que a moto não tem bateria) o que faz dela um exemplar ainda mais raro e valioso.
Notas finais
Para uma máquina com 25 anos, que custava nova no ano 2000 cerca de 1290 contos (6450 Euros), continua a ser um portento de moto, bem capaz de ombrear com modelos bem mais modernos. Mesmo na configuração de supermotard, bastante comum, as suas performances são alucinantes, embora aí se note mais que a travagem comece a ser mais limitada e seja recomendável melhorar as suspensões, o que também deve ser feito numa utilização off-road mais severa.
Trata-se de uma daquelas motos que tem e vai continuar a ter admiradores no futuro por ser fácil de conduzir, fiável e divertida, tendo ainda o bónus de não ser muito apreciada tirando pelos conhecedores do modelo, uma vez que a ausência do motor de arranque acaba por afastar muitos dos seus potenciais interessados…
Diga-se, em abono da verdade, que nem sabem o que perdem!
andardemoto.pt @ 9-8-2026 20:41:38 - Texto: Pedro Pereira Fotos: Luís Duarte
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