Triumph T100: quase DE CORRIDAS!
Vamos agora até à Grã-Bretanha para irmos conhecer de mais perto a fantástica Triumph T100!
andardemoto.pt @ 20-8-2026 21:30:00 - Texto: Pedro Pereira Fotos: Luís Duarte
Esta clássica, do mais puro estilo e charme britânico, é uma moto que nos consegue arrebatar o coração e mesmo nos dias de hoje o fabricante de Hinckley continua a lançar modelos de perfil mais clássico, as suas modern classics, que vão beber muita inspiração a modelos históricos, como esta Tiger 100 ou, simplesmente, T100.
Já agora, uma curiosidade: a designação 100, que a marca já usava há alguns anos, não foi escolhida à toa! Dizia respeito à sua performance, ou seja, a capacidade de alcançar as 100 milhas por hora! A mítica Ton! Algo como 160 km/h! Uma marca incrível à época e que fazia da T100 uma moto de corridas sem necessidade de grandes alterações.
UM POUCO DE HISTÓRIA
Por detrás deste modelo estão os nomes de duas pessoas geniais, Val Page e Edward Turner. O primeiro era chefe de design da Ariel e Turner fora contratado para desenhar novos motores. Esta junção de talentos, ainda no final da década de 1920, deu muitos e bons frutos, incluindo motores como o Ariel Square Four e o Twin Cylinder Paralelo que esteve na génese desta T100.
Tal como aconteceu com tantas outras marcas e modelos, também para a Triumph a Segunda Guerra Mundial foi um conflito que veio mudar praticamente tudo e não necessariamente pelas melhores razões.
Quando chegou ao mercado em 1939 deixou muita gente de boca aberta! Elevadas performances, uma estética singular e um caráter dual very british que lhe permitia, ao mesmo tempo, ser usada no dia-a-dia de forma descontraída, mas também participar e vencer competições, tal como fez logo nesse ano.
Porém, em 1940, tudo mudou. Numa altura em que a Inglaterra sofria pesadamente com os bombardeamentos alemães, a fábrica Triumph Engineering Co. Ltd, à data em Coventry, foi arrasada no dia 14 de novembro de 1940. A produção apenas pode ser retomada em pleno depois do conflito terminar, embora em 1942 a marca recuperasse a produção em Meriden, com motos destinadas sobretudo às forças armadas.
Ainda o mundo lambia as feridas da guerra e já a marca inglesa voltava à mó de cima, sendo que a exportação para os Estados Unidos deu uma grande ajuda. Surgiram novos modelos, caso da icónica Thunderbird, equipada com um motor de 650 cc e que conhecemos, por exemplo, do filme de 1953 The Wild One (O Selvagem), com Marlon Brando, que muito ajudou a promover a marca.
PURO CHARME
Este magnífico exemplar nacional de 1955, já completou a bonita idade de 70 anos. Está num estado de coleção, mas para chegar aqui foi necessário um longo caminho. O seu proprietário adquiriu-a desmontada e demorou vários anos a conseguir que voltasse à vida numa forma muito aproximada ao original, ainda que aqui ou acolá possam haver pequenas melhorias, até ao nível mecânico. Quadro, suspensões, sistema de travagem e carburação, têm atualizações face ao modelo original de 1939, mas continua a ser-lhe tão fiel que nos faz perceber porque a marca britânica ainda hoje continua a lançar modelos com um visual clássico e intemporal.
A T100 estava disponível em várias cores, mas esta, em cinzento e preto, assenta-lhe particularmente bem, até porque os extensos cromados fazem um contraste muito interessante que agrada de sobremaneira aos mais puristas.
Como se não bastasse, a harmonia estende-se por toda a moto. O enorme farol dianteiro em negro, com os manómetros instalados na sua base, o depósito longo e estilizado, com as tradicionais borrachas laterais (neste caso com uma grelha metálica por cima), o longo assento de uma só peça, os aros e raios cromados… tudo faz sentido!
Naturalmente que o maior destaque tem que ir para o motor, em particular para os cilindros (aqui em alumínio), com os seus vistosos coletores de escape que terminam com peculiares silenciadores que ainda hoje são uma imagem de marca e associamos imediatamente à Triumph! Era difícil fazer melhor!
IMPRESSÕES DE CONDUÇÃO
Admito que tinha muita curiosidade em conduzir este modelo. Conheço a Thunderbird da mesma época, mas a T100 não. Queria perceber a real capacidade do conjunto, nomeadamente do “pequeno” twin vertical de 498 cc, com uns declarados 32 cv às 6500 rpm.
Ainda antes de a conduzir fui informado que existiam alguns “pozinhos de perlimpimpim” que poderiam tornar a experiência de condução ainda mais interessante, uma vez que no restauro mecânico, feito por um dos poucos profissionais que ainda faz magia em Portugal com estas máquinas, foram implementadas algumas melhorias.
Aliás, a construção em alumínio já permite fazer mais algumas coisas, mas se a isso associarmos uns pistões forjados, árvores de cames com um comportamento mais agressivo, melhorias na instalação elétrica e o carburador Amal devidamente trabalhado… tem tudo para dar certo… e dá mesmo!
Sento-me em cima da moto e, para minha surpresa, a posição de condução não é demasiado desportiva, carregando apenas o peso suficiente nos pulsos, ainda que depois, em andamento, haja uma natural tendência para nos apoiarmos na dianteira da moto, numa postura mais desportiva.
Já numa toada mais calma o conforto é acima do esperado. A tal dualidade de que falei antes e que se sente perfeitamente. Coloca-se facilmente a trabalhar (o pedal de arranque não é rebatível) e temos de “mudar o chip” antes de iniciar a marcha. Ainda que sendo um modelo de exportação (até o conta km, original ou não, está em km e não milhas), tem a função dos pés trocadas! Ou seja, o pé esquerdo comanda o travão traseiro e o direito as quatro mudanças!
Curiosamente, a ordem na caixa de velocidades é a comum e não a usada em competição, ou seja, engrenamos a primeira para baixo e as outras para cima. A embraiagem é progressiva, mesmo que muito pesada, mas o melhor é a caixa de velocidades que está ao nível de uma moto moderna e mostra que a Triumph sabia bem o que andava a fazer. Não existem falsos pontos mortos ou dificuldade em engrenar nenhuma das quatro velocidades e mesmo a reduzir não há hesitações. Depois dos primeiros quilómetros, percebemos que o motor se expressa particularmente bem nos médios regimes e fazemos-lhe a vontade, mas como a moto curva bem, trava o suficiente e as suspensões cumprem… a vontade é acelerar um pouco mais! Damos por nós a adotar uma forma de condução mais radical e atrevida, atrasando as passagens de caixa e deixando os escapes gritarem a plenos pulmões!
É diversão em estado puro e nem mesmo os pneus na medida 3.25" X 19" na frente e 3.50" X 19" na traseira nos intimidam e fazem abrandar o ritmo, até porque o conjunto é ágil e o peso a seco a rondar os 170 kg não nos dificulta a tarefa. Para ajudar, o depósito carrega mais de 13 litros de combustível, o que nos garante uma autonomia para várias horas de diversão.
Se esta T100 fosse minha não me atrevia a fazer dela uma companheira diária, mas assumo que lhe iria dar uso com bastante frequência. É quase como se fosse uma moto bipolar: dependendo do nosso estado de alma, assim é o seu comportamento.
Apenas o seu cavalete central, necessita de alguma atenção na sua colocação (não tem descanso lateral). Não queremos que esta joia tombe ao chão e nos obrigue a entrar em despesas, já para não mencionar a dificuldade que é encontrar, pelo menos em Portugal, profissionais qualificados neste modelo!
NOTAS FINAIS
O histórico construtor, objetivamente falando o único que sobreviveu e está ainda hoje em mãos britânicas, tem nesta T100 um modelo verdadeiramente especial e que a marca continua a reinterpretar por ser tão intemporal.
Com mínimas alterações, esta Triumph estava perfeita para umas corridas, por exemplo no Circuito Internacional de Vila Real… e para usar durante a semana no caminho casa-trabalho-casa.
Não é à toa que a sua produção, com diferentes variantes, se manteve até 1973, numa altura em que o mercado estava a mudar profundamente, nomeadamente com a chegada das motos japonesas, na competição e fora dela, mas essa história vai ficar para outra vez, não se dê o risco de a T100 ficar ressentida connosco, algo que queremos evitar a todo o custo!
andardemoto.pt @ 20-8-2026 21:30:00 - Texto: Pedro Pereira Fotos: Luís Duarte
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