Márcia Monteiro

Márcia Monteiro

Marketeer, “Mulher do Norte” e motociclista em estrada e fora dela (Off Road).

OPINIÃO

Desejava fazer a N2... mas apaixonei-me pela N327

Sempre ambicionei percorrer a mítica N2. Dizem que é uma das estradas mais incríveis do nosso país porque permite-nos conhecer Portugal de norte a sul, vislumbrando paisagens, cidades, aldeias e pessoas que tão bem caracterizam este maravilhoso país à beira-mar plantado. Sem dúvida que é algo que todos nós, pelo menos uma vez na vida, deveríamos fazer. Esse desejo está em mim há anos e a cada dia que passa ganho mais vontade de o fazer.

andardemoto.pt @ 7-1-2020 15:24:17 - Márcia Monteiro

Mas depois surgem os obstáculos... precisamos de mais de 3 dias para viver esta experiência na sua totalidade, as condições meteorológicas devem ser agradáveis, a moto deve ser suficientemente confortável... portanto, tudo aquilo que eu não tenho neste momento: não disponho de dias livres para gozar, o inverno tem-se manifestado com temperaturas baixas e a moto... bem a minha moto é e continua a ser a “menina dos meus olhos” mas enquanto super desportiva, não é o veiculo mais confortável para passar horas infinitas em cima dela durante vários dias seguidos.

Mas eu sempre ouvi dizer “se a vida te oferecer um limão, mistura açúcar e faz uma limonada”.

Tendo em mente esta premissa, recentemente, numa fria manhã onde já estava combinado fazer o passeio em grupo, eis que o São Pedro nos trocou as voltas e nos presenteou com chuva intensa. Passeio cancelado. A minha vontade de rolar era tanta que mantive sempre a esperança. Pelas 10h da manhã a chuva parou. Ninguém quis tirar a moto da garagem para me acompanhar pois as nuvens e o vento ameaçavam com mais chuva. Fui firme e saí de moto.

Sabia que não podia percorrer uma grande distância e estava longe de poder fazer a N2, tinha de manter as minhas condições de segurança e regressar a casa rapidamente caso fosse preciso. Ainda sem destino e apenas sabendo que não poderia ir muito além de um raio de 150km, segui a minha jornada com cautela. Quando dou por mim, estava na N327 em direção a São Jacinto, uma estrada que não é nova para mim, mas naquela manhã estava a ser vivida com uma intensidade especial. À medida que ia avançando, o céu foi clareando. Fui obrigada a parar... que paisagem incrível era aquela que eu nunca tinha reparado antes? A Ria de Aveiro estava surpreendentemente calma e nada indicava que umas horas antes tinha chovido torrencialmente. O céu mais parecia feito de algodão doce com formas densas, mas extremamente criativas, desenhando figuras abstratas que se espelhavam na água. Os primeiros raios de sol começaram a surgir e tornaram aquele momento numa manhã luminosa e agradável com as temperaturas a chegarem perto dos 17 graus.

Enquanto caminhava com o capacete no braço, mas sempre com a minha moto debaixo de olho estacionada do outro lado da estrada, peguei na máquina e fotografei, tomei café, sentei-me na relva e fiz “fotossíntese”. Tive a certeza que tomei a decisão certa em não me render às circunstâncias. Quando regressei a casa partilhei as fotografias com os meus amigos e quase nenhum deles conseguia identificar o sítio onde eu tinha estado. Alguns deles ficaram, inclusive, arrependidos de não terem tirado a moto da garagem naquela manhã. Quando lhes disse que aquele sítio era a N327 onde já quase todos eles tinham passado, quase não conseguiram acreditar. O arrependimento deles foi ainda maior.


Moral da história... A N2 vai ter de esperar, mas até lá existem infinitas N’s por este Portugal fora que cada um de nós pode explorar e transformar em algo realmente memorável. Tudo depende dos olhos com que vemos e da intensidade com que sentimos. Boas curvas!


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andardemoto.pt @ 7-1-2020 15:24:17 - Márcia Monteiro


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