Ana Amorim Dias
Escritora, advogada, empresária e motociclista
OPINIÃO
Sentir e expressar em três momentos
Passava das duas da manhã quando o percebi com cristalina clareza. Foi quando estava a regressar a casa, fundida com ela. É que os carros guiam-se só com os pés e as mãos, mas as motas... as motas conduzem-se com o corpo todo e a alma inteira!
andardemoto.pt @ 31-8-2017 17:30:00 - Ana Amorim Dias
Talvez a confiança entre duas pessoas se expanda, sobre uma mota, como não é capaz de se expandir em nenhum outro local ou situação.
Talvez haja um qualquer superior entendimento, feito de equilibrios, silêncios contemplativos e entrega aos elementos, que só nos casais motociclistas se sublima e completa.
Talvez.
O que tenho por mesmo certo é que seguir atrás dele, agarrada ao dorso forte do homem a quem sempre confiarei a vida, é quase tão maravilhoso como guiá-la eu.
2ª parte - A fórmula...
Por aqueles dias o cansaço já se tinha convertido em exaustão. Ao ponto de quase ter esquecido a minha condição de "tanque de guerra" e me ter rendido a um ameaçador desespero. "Aguenta: já só faltam 14 horas para poderes descansar um pouco!"
Ao pensar nisso decidi que, para conseguir aguentar, era imperativo tomar a "fórmula". Por isso montei-me na mota e arranquei. "Não vai fazer mal; vou só dar uma voltinha
rápida e regresso antes que dêem sequer pela minha falta..."
Tentei meter uma acima mas já não havia mais. O peito do pé esquerdo esbarrou contra um metal que não podia ir mais para cima. Nunca antes a sexta mudança da mota me fizera tanta falta. Conformei-me e saboreei as curvas, como só quem nelas se deita sabe. Deixei que a máquina e a estrada me levassem as dores nos pés e nas pernas. Senti a formatação das costas, o esvaziamento da mente, a sensação de levitar.
E foi precisamente aí, ao iniciar o pronto retorno (antes que a ausência comprometesse o trabalho), que o poder me regressou. Aguentar mais catorze horas de trabalho, depois de todas as outras, era um detalhe menor.
Quem se recupera no asfalto, sobre duas rodas apenas, sabe que pode aguentar muito mais do que é normal, sabe que é mais resistente… e conhece bem o segredo com que se regenera depois.
3ª parte - Equilíbrio
Qualquer motociclista saberá bem do que falo...
Podemos estar tristes, com dores na alma ou no corpo; podemos estar cansados, abatidos, até a sentir-nos vencidos... mas quando arrancamos sobre elas, tudo desaparece. À medida que o pé esquerdo vai dando toques para cima, arrebita-se-nos o ânimo.
À mesma velocidade a que nos vamos deslocando, vão-se desfazendo os problemas, levados pelo vento que nos acaricia inteiros. E quanto mais balançamos nas curvas, nesse bailado sentido, mais nos sentimos a fintar qualquer réstia de mal-estar que tenha persistido em ficar.
Equilíbrio. No fundo é só isso que temos a mais do que os outros. Um sábio equilíbrio que sabe sempre manter-nos a rolar pelo lado mais positivo da vida.
Em um outro dia e outro sentimento
Passava das duas da manhã quando o percebi com cristalina clareza. Foi quando estava a regressar a casa, fundida com ela.
É que os carros guiam-se só com os pés e as mãos, mas as motas... as motas conduzem-se com o corpo todo e a alma inteira!
andardemoto.pt @ 31-8-2017 17:30:00 - Ana Amorim Dias
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