Comparativo Big Trail 2021 - Alta Cavalagem

BMW R1250GS Rallye, Ducati Multistrada V4S e Harley-Davidson Pan America 1250S  Três das motos mais recentes e mais apetecíveis do mercado, em confronto direto.

andardemoto.pt @ 4-10-2021 20:34:06 - Texto: Rogério Carmo | Fotos: Luis Duarte

Não foi fácil juntar estas 3 motos para conseguirmos fazer este comparativo. As importações têm sido turbulentas devido à pandemia e a chegada das motos ao mercado foi, pela mesma razão, bastante atrasada devido às dificuldades da indústria em conseguir que os respectivos fornecedores, maioritariamente asiáticos de países em vias de desenvolvimento e a braços com as consequências da pandemia, cumprissem os prazos de entrega definidos.

Impossível foi mesmo conseguir uma KTM 1290 Super Adventure S, que seria, eventualmente, a única moto capaz de fazer frente a este trio de máquinas impressionantes! Infelizmente o importador não tem (tinha ou ia ter em tempo útil) nenhuma unidade disponível em parque de imprensa. Sinais dos tempos!

As 3 motos que aqui lhe trago, apesar de muito diferentes entre si, possuem níveis de equipamento muito semelhantes. Acelerador electrónico com diversos modos de condução. Unidade de medição de inércia para controlar o ABS, o controlo de tração e a iluminação em curva, assim como o funcionamento da suspensão.

Painel de instrumentos em TFT a cores, integrando sistema de infotainment completo com ligação ao smartphone e ao intercomunicador, e todas elas com interfaces relativamente simplificados apesar de permitirem regulações personalizadas.

Na ciclística também todas seguem o mesmo padrão: jante de 19 polegadas na frente, travões extremamente eficazes, suspensões inabaláveis e facilmente reguláveis, assistidas electronicamente, proporcionando um elevado conforto e um excelente comportamento dinâmico.

Antes de mais devo fazer uma declaração de intenções. Nada do que vou dizer de seguida tem como base uma experiência fora de estrada. Entendo que estas são motos para andar em estrada asfaltada e que, na eventualidade de encontrarmos um caminho sem alcatrão ou um trilho relativamente acessível, nos conseguem levar ao nosso destino sem grande dificuldade, mas não são motos dedicadas a uma utilização intensiva fora de estrada. 

Estas são motos com níveis de potência muito superiores ao que seria indicado para o offroad. Posso estar errado, mas além de achar que é um desperdício de potência e tecnologia (alguma bastante sensível a impactos e à humidade) acho também que, depois de um uso intensivo em pisos arenosos, esburacados, pedregosos ou enlameados, o material vai sofrer uma degradação significativa que pode comprometer o desempenho (senão a segurança) quando se regressa ao asfalto.

Sobretudo quando se pretende explorar toda a potência disponível em andamentos rápidos numa boa estrada. Por isso a minha perspectiva recai básica e precisamente sobre uma utilização asfáltica.

Estas motos representam o que de melhor a indústria motociclística tem para oferecer e não estão, definitivamente, ao alcance de qualquer um. Mas quem puder, vai ter sérias dificuldades em escolher uma delas, já que todas têm argumentos de peso e nenhuma deixa ninguém envergonhado num picanço de esplanada. 

Como gostos não se discutem, a estética não faz parte desta minha análise, mas não posso deixar de admitir que a Ducati é um verdadeiro prazer para os olhos, que a Harley-Davidson se destaca pela novidade das suas linhas e que a BMW mantém o seu impressionante estilo tecno germânico de inspiração marcadamente industrial.

Em duas delas, a BMW R1250GS e a Harley-Davidson Pan America 1200S, já tinha tido oportunidade de fazer bastantes quilómetros e pode ver os testes completos se clicar nos respectivos links acima.

A Ducati Multistrada V4S foi aquela com que tive menos contacto. Por isso a recente experiência foi ainda mais intensa. Primeiro porque, erradamente, pensava que ia ser apenas uma evolução do modelo anterior. Depois porque este modelo se revelou completamente diferente em termos de comportamento dinâmico, para melhor!

Como neste texto não vou poder entrar em grandes detalhes sobre todas as suas características, pode clicar aqui e ler o teste completo à Ducati Multistrada V4S, assinado pelo nosso jornalista Bruno Gomes que esteve presente na apresentação deste modelo à imprensa, em Valência.

BMW R1250GS Rallye

A BMW GS tem sido, desde sempre, a pedra de toque deste segmento. Qualquer concorrência tem que inevitavelmente ser comparada com ela, mas até à data, e pelo menos consensualmente, nenhuma a consegue destronar. Sobretudo em termos de polivalência. 

Não quer isto dizer que é perfeita, mas significa que, tendo em conta tudo o que oferece, seja em termos de prestações dinâmicas, de facilidade de condução e manobra e de resistência a maus tratos, sobretudo em caso de queda, a BMW ainda continua a ser uma opção muito interessante. 

Mais importante ainda, sobretudo para quem desfruta do clima mediterrâneo, é o facto de a configuração do motor evitar que o calor gerado pela cavalagem seja irradiado para perto do condutor. Nos dias de maior canícula, sair das concorrentes e sentarmo-nos na GS é literalmente uma lufada de ar fresco!


A sua condução é divertida, com o boxer a subir alegremente de rotação e uma nota de escape muito bem conseguida, além duma elasticidade que permite ser-se muito tolerante com a relação de velocidade engrenada, já que reage vigorosamente desde baixa rotação e, graças ao sistema “Shift Cam” que alterna entre dois perfis da cames diferentes, mantém o fôlego até bem perto do limitador de regime. 

Também a ciclística contribui para elevados níveis de prazer de condução e confiança. Fácil de inserir na trajetória pretendida, a suspensão eletrónica faz com que o conjunto se mantenha estável durante todo o traçado da curva, sem perder a compostura, mesmo quando se acelera forte para a saída ou quando se trava forte até bem depois da entrada em curva.

A travagem potente e incansável, proporcionada pelas pinças Hayes, apenas podia ser um pouco mais doseável, isto em comparação com as Brembo que equipam as motos concorrentes deste comparativo.

A caixa de velocidades é extremamente suave, o ponto morto é fácil de engrenar e o quickshifter tem um funcionamento muito bom a qualquer velocidade e regime do motor.

Em ritmo de viagem, mesmo com passageiro e carga, conseguem-se consumos muito interessantes, a rondarem os 5,5 litros aos 100 quilómetros, pelo que a autonomia prática conferida pelo depósito de 20 litros é facilmente superior a 300 quilómetros. Mesmo quando é necessário manter ritmos mais vigorosos.

Os mais poupados, ou os mais preocupados com o ambiente, podem valer-se do modo “Eco” para conseguirem valores de consumo realmente baixos, se bem que, nesse caso e sob todos os aspectos, mais valia conduzirem uma moto de 125cc.

Tal como o condutor, o passageiro beneficia de um conforto elevado, uma proteção aerodinâmica muito boa e uma suspensão que lhe permite rolar durante muitos quilómetros sem fadiga.

A grande vantagem que a BMW R1250GS apresenta face à concorrência é a transmissão por veio e cardã, que facilita a vida em viagem (e não só), descartando a necessidade de lubrificar a corrente, sobretudo em tempo de chuva ou depois de uma utilização em estradas de terra, com pó ou lama. 

O painel de instrumentos muito completo beneficia dum interface extremamente simplificado, ajudado pelo multicontrolador, o anel exclusivo da BMW que, encostado ao punho direito, permite percorrer facilmente os diversos menus e selecionar as configurações pretendidas.

O sistema sem chave é o melhor das motos aqui comparadas já que permite, além de desligar a ignição e bloquear a direção, também abrir o depósito de combustível, sem ser necessário usar a chave.

BMW R1250GS Rallye

Ducati Multistrada V4S

A Ducati Multistrada V4 S foi uma grande surpresa. Mal arranquei com ela fiquei sem a menor dúvida de que esta Multistrada não foi apenas uma evolução do modelo anterior com o motor bicilíndrico. O motor V4 revela-se muito mais suave, mais elástico, mais cheio a baixa rotação e mais excitante à medida que as rotações sobem. É mais fácil de conduzir apesar de ser quase alucinante.

O pacote eletrónico é mais eficaz no controlo da roda traseira e da suspensão, que agora apresenta um comportamento mais firme, mas sem descurar o conforto a bordo.

Trata-se de uma moto completamente nova, que foi apelidada por muitos colegas jornalistas estrangeiros como a melhor Ducati alguma vez fabricada.

Claro que é fácil um apaixonado por motos deslumbrar-se com os números da sua ficha técnica, nomeadamente com os 170 cavalos de potência declarada, mas a verdade é que ao ser bastante mais compacto que o V2 da geração anterior, este motor permite uma recolocação do centro de gravidade que faz toda a diferença, tanto em termos de agilidade como em termos de comportamento da suspensão. 

Claro que este novo desenho implicou o abandono da engenharia desmodrómica das válvulas, o que gerou alguma polémica entre os tifosi da marca de Borgo Panigale. 

A principal vantagem é um incrível aumento dos intervalos de manutenção, mas o motor também ficou mais leve, o que junto com o emagrecimento do quadro, que também abandonou a tradicional estrutura em treliça de tubos de aço e que agora é um elemento monocoque em alumínio fundido, tornam o conjunto substancialmente mais leve.

Além disso, a menor dimensão do motor também permitiu a instalação de um braço oscilante mais longo, com as vantagens que daí advêm.

Basta enrolar o punho com convicção em modo Sport para se perceber que valeu a pena renegar a tradição, já que o novo motor V4 além de responder de forma quase alucinante, permite que a suspensão tenha mais capacidade de digerir o movimento de massas e manter as trajectórias mais perfeitas, demonstrando uma agilidade impressionante que se nota sobretudo nas mudanças de direção.

É difícil de descrever a compostura que esta nova Multistrada V4 apresenta em curva, mesmo nas estradas com piso mais irregular, que mais parece magia do que tecnologia. Sobretudo tendo em conta a resposta contundente do acelerador, que é perfeitamente controlada pela eletrónica sem que se note qualquer tipo de intrusão do sistema ou instabilidade no equilíbrio.

Era fácil continuar a falar do desempenho dinâmico e das sensações que proporciona, mas esta nova Multistrada V4 é mais do que o motor. Em muitos aspetos, nomeadamente o nível de conforto, potenciado pela fantástica suspensão, pela excelente ergonomia, pela boa proteção aerodinâmica e pelo intuitivo interface do completíssimo painel de instrumentos.

O pacote eletrónico inclui o cruise control adaptativo, gerido por um radar instalado na frente da carenagem que permite ir atrás de outro veículo e manter a velocidade dele automaticamente, podendo-se inclusivamente trocar de relação de caixa, sem ser necessário ir a ligar e desligar o cruise control, facto que permite poupar imensa energia e proporcionar um grande conforto durante as viagens longas, sobretudo em auto-estrada.

O sistema permite ainda ter avisadores de ângulo morto, sob a forma de luzes laranja, bem visíveis, que se acendem no canto dos retrovisores, sempre que algum veículo entra na zona cega dos espelhos.



Ducati Multistrada V4S

Harley-Davidson Pan America 1250S

Nunca pensei que um dia ia fazer um comparativo de motos deste segmento que incluísse uma Harley-Davidson. Mas os tempos mudam e cá estou eu a falar da nova Pan America 1250S, com a qual tive recentemente a oportunidade de fazer uma significativa quantidade de horas de condução, durante o Lés-a-Lés e posteriormente numa ida e volta de Lisboa a Góis, também apenas por estradas nacionais, por ocasião do Motor Village 2021, totalizando mais de 3.000 quilómetros.

Mas nem sequer foi preciso tanto para me deixar convencer pelos predicados da nova Harley-Davidson. Antes de mais, não posso deixar de referir que a versão aqui testada é a mais acessorizada, a “S”, e por isso a mais cara, mas ainda assim, é muito mais barata que as duas concorrentes aqui apresentadas.

Por isso terá que se desculpar a ausência do quickshifter, que será o único item que ela tem em desvantagem com as duas outras motos. No entanto, para compensar, tem em exclusivo o sistema de rebaixamento automático da suspensão traseira que a torna muito mais acessível aos menos afortunados em termos de estatura física.

Além dessa funcionalidade, a suspensão eletrónica demonstra um comportamento ao mesmo nível da concorrência. Mas não apenas a suspensão. A travagem é muito boa, tanto em termos de potência como em dosagem, o painel de instrumentos e o respectivo pacote electrónico são do mesmo nível, com as mesmas funcionalidades e suportados por um interface também bastante intuitivo e fácil de usar.

O motor Revolution Max proporciona o mesmo nível de performance, sendo suficiente elástico para, numa condução descontraída, ir “até ao fim do mundo” em sexta velocidade.Além do mais, a caixa de velocidades é extremamente suave e precisa. Ao mesmo tempo, o motor destaca-se pelo sistema hidráulico de afinação de válvulas e pelo som que emite, que a alta rotação se revela extremamente excitante.

A ciclística surpreende pelo desempenho em curva e pelo poder de travagem, além da agilidade e da facilidade de manobra potenciada por uma excelente brecagem e baixa altura do assento. Mesmo com passageiro e muita carga, e por maus caminhos, o conforto está sempre presente, assim como a facilidade de entrar em curva e manter uma trajetória perfeita, ainda que seja necessário dar algum toque nos travões.

A proteção aerodinâmica é excelente, a suspensão é muito confortável e a posição de condução, pelo menos para o meu tamanho, é perfeita, podendo mesmo ser uma das motos mais confortáveis que tenho conduzido nos últimos tempos. O mesmo é válido para o passageiro.

Mas talvez o melhor argumento da Pan America seja o seu design. Controverso mas definitivamente exclusivo, é uma moto que se destaca no meio das demais aventureiras. 

O depósito esguio e longo traça-lhe uma linha mais baixa que a faz parecer menos intimidante, enquanto a carenagem frontal, inspirada nas Harley-Davidson da “velha guarda”, confere-lhe um aspecto mais requintado, menos vulgar que o generalizado bico de pato típico do segmento.

Como em todas as motos, há pormenores que não me agradam, nomeadamente o descanso lateral, inspirado também no das Harleys da “velha guarda” e herdeiro da sua instabilidade típica que, apesar de apenas aparente, não deixa de ser uma fonte de preocupação devido à sua posição muito avançada.

O painel de instrumentos tátil também poderia ser mais legível, bastava terem usado uma fonte de tamanho maior, já que espaço e legibilidade não lhe faltam.

Harley-Davidson Pan America 1250S

Conclusão:


Apesar da inferior cavalagem, a BMW conta com um binário mais elevado cujo valor máximo revela-se a uma rotação mais baixa, que coloca o seu desempenho dinâmico praticamente a par com o da mais potente Pan America. No entanto, nenhuma delas consegue igualar o desempenho do motor V4 da Ducati.

Em termos de autonomia, a BMW é a que consegue maiores intervalos entre abastecimentos. No lado oposto está a Ducati que apesar de ter a maior capacidade, é aquela que se revela a mais gulosa de todas.

Em termos de conforto, todas estão muito niveladas. Sobretudo ao nível das suspensões e das ajudas eletrónicas à condução. No que respeita à proteção aerodinâmica, a Harley-Davidson, pela posição de condução mais encaixada que promove, é aquela que oferece um maior isolamento dos elementos.

No que ao calor irradiado pelo motor diz respeito, a BMW é, sem dúvida, a que mais protege o condutor, enquanto no extremo oposto está a Ducati, que em certas circunstâncias pode ser mesmo a mais incómoda, compensando por ser a única a disponibilizar o cruise control adaptativo e o sistema de aviso de ocupação de angulo morto.

Em termos de prazer de condução a escolha também não é fácil. Todas elas são extremamente fáceis de manobrar, todas têm uma nota de escape cativante, todas são extremamente ágeis e todas inspiram uma elevada sensação de segurança que promove muita confiança. Em qualquer delas a iluminação adaptativa é excelente.

A Ducati destaca-se pela forma como recompensa uma condução desportiva, capaz de cativar os mais exigentes, enquanto a Harley-Davidson é a menos intimidante para condutores menos experientes e, provavelmente, uma das melhores para longas viagens com passageiro e carga.

Escolher entre qualquer uma destas Big Trails, se não houver uma preferência pela marca ou a influência de amigos, não vai ser uma tarefa fácil, porque qualquer uma delas cumpre na perfeição o propósito de enfrentar grandes aventuras!

andardemoto.pt @ 4-10-2021 20:34:06 - Texto: Rogério Carmo | Fotos: Luis Duarte


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