Casal Boss: o que é nacional é (muito) bom!

Eis que desta vez partilhamos consigo uma produção nacional. E não será um modelo qualquer! É a sempre muito querida Casal Boss, nome de código K168, que nunca saiu verdadeiramente de moda e continua a seduzir pessoas de diferentes gerações.

andardemoto.pt @ 25-8-2026 11:00:00 - Texto: Pedro Pereira Fotos: Luís Duarte

Facebook Twitter Pinterest LinkedIn WhatsApp

Aproveitamos a oportunidade para fazermos uma viagem no tempo que, em termos mais técnicos, se chama analepse. Vamos juntos até aos anos mais gloriosos da indústria nacional das duas rodas.

A II Guerra Mundial ficou para trás e, ainda que “orgulhosamente só”, Portugal começa a sentir os ventos de mudança, as melhorias da economia, a importância de ter um veículo pessoal e/ou familiar para as deslocações… e a indústria das duas rodas em Portugal vai dar um importante contributo, nomeadamente a Metalurgia Casal, ali para as bandas de Aveiro.

Criada em 1961 pelo genial João Casal (falecido em 2021, pouco antes de completar 99 anos), numa primeira fase a jovem empresa lançava as suas motorizadas com motores alemães Zündapp, mas o objetivo era ir mais longe. Após alguns reveses iniciais, mas também sucessos, a Metalurgia Casal, ou simplesmente Casal, começou em meados da década de 60 a produzir os seus próprios motores, vindo-se a tornar num verdadeiro colosso industrial, até quase ao final do milénio, incluindo uma importante componente exportadora para vários países europeus ou as ex-colónias.

De entre os seus modelos mais icónicos há a destacar, por exemplo, a scooter Casal Carina, a 125 estradista (K260), a 125 trail (K276) a naked com inegáveis semelhanças com a Yamaha RZ (até no nome) Casal RZ e a popular Casal Boss, que é a estrela deste mês. É sobre ela que nos vamos debruçar agora.


Um pouco de contextualização

O termo inglês Boss pode ser traduzido por Patrão, Chefe, Comandante, Líder… e a Casal Boss ficou gravada na memória coletiva de todos nós que vivemos profundamente, em particular as décadas de 70, 80 e 90. Mas mesmo neste novo milénio a sua mística e carisma não morreram.

Aliás, para sermos verdadeiros, até tem vindo a crescer nos últimos anos!

Consta que a casal Boss foi lançada quase fruto do acaso: as vendas da Casal Carina (S170), réplica da Zündapp R50, não estavam a correr como o desejado (os consumidores continuavam a preferir uma Vespa ou uma Lambretta) e por isso existiam muitos tubos redondos, que serviam como quadro da Carina, armazenados à espera de uso.

Ao mesmo tempo, a Casal procurava uma forma de conseguir fazer frente ao “best-seller” SiS Sachs Minor, que então vendia como pãezinhos quentes no nosso mercado. Aproveitando os tubos de aço de 62×3 mm, destinados à construção dos quadros da Carina, ali parados sem qualquer utilidade, a Casal lançou a primeira Boss, nos meados da década de 70. O sucesso foi tremendo!

A versão inicial (muito rara na atualidade) aproveitava esses tubos de aço para o quadro e até para o depósito de combustível, que também chegou a estar colocado por debaixo do selim.


Tinha capacidade apenas para uma pessoa e vinha equipada com um motor Casal de duas velocidades (o popular M147), coexistindo modelos acionados à mão e outros pelo pé.

Apesar de debitar apenas cerca de 3 cv às 5.500 rpm a Boss tinha tudo para dar certo. Era muito leve, ágil, fácil de conduzir, mesmo para quem não tinha qualquer prática anterior, e rapidamente se popularizou, nomeadamente entre os mais jovens e menos endinheirados que viam na Boss os ventos de liberdade pelos quais tanto ansiavam!

A procura era de tal forma elevada que a Casal chegou a ter dificuldade em dar resposta ao mercado e milhares delas foram construídas pela “afiliada” Fundador (em Sangalhos) ou pela Forvel (acrónimo de Força e Velocidade) que também a chegou a produzir, ainda que com algumas diferenças estéticas, mas na essência quase a mesma motorizada.

Na década de 80 a Boss vendeu ainda muito bem, mas o fim avizinhava-se, fosse pela concorrência interna (caso da Famel Z2 e Z3), pela externa, nomeadamente japonesa ou italiana, ou pelo uso mais generalizado do automóvel. A marca ainda reagiu lançando a Super Boss (equipada com o motor M 109 de 4 velocidades e quase o dobro da potência) ou a Bossini, equipada com motor de arranque elétrico, mas era tarde.

A marca conseguiu ainda grandes resultados no campo desportivo. No início da década de 80, mais precisamente em 1981, um protótipo Casal de 50 cc atingiu a velocidade de 224 km/h, record mundial durante muitas décadas. Este exemplo mostrava bem o que se vivia na Casal e o espírito visionário e inovador da equipa liderada por João Casal, que até chegou a ter planos para construir um automóvel, algo que infelizmente nunca veio a acontecer!


Senhora de grande popularidade

A Boss que vos trazemos nesta crónica é um exemplar já da fase derradeira, quando a Casal começava a agonizar, tendo sido construída em 1990 e exibindo uma decoração particularmente feliz, que combinava o preto com alguns autocolantes dourados e umas bonitas jantes de 5 raios, também douradas. Consta que a inspiração foi a equipa da Formula 1 da Lotus, patrocinada pela John Player Special e em que corria Ayrton Senna e que teve a sua primeira vitória no Estoril, em 1985. Seja ou não verdade, o resultado é convincente e a pequena Boss continua a ser um espetáculo.

Ao longo da sua extensa carreira, de mais de duas décadas e com várias evoluções nomeadamente estéticas, conheceu uma enorme diversidade de cores que iam do verde ao azul, passando pelo branco, o bege ou o vermelho. Mas esta decoração negro e ouro é a mais marcante e a que costumamos encontrar mais facilmente, sobretudo nos modelos mais recentes. Aliás, é comum ver modelos da Boss em que a cor original não era esta e foram depois pintadas e decoradas assim.

Em 1990 esta Boss custava próximo de 130 contos (a rondar dos 650 Euros) e a marca comercializava-a com várias designações: Boss K 168M, K 168S, K 168H e K 168P, havendo variações ao nível da decoração, das jantes e do preço final, mas não deixava de ser acessível. Para termo de comparação, em 1990 o ordenado mínimo era de cerca de 35 contos (algo como 175 euros).


Na prática, 4 meses de trabalho chegavam para comprar uma nova e ainda sobrava alguma coisa! A sua popularidade era tão elevada que se viam às dezenas à porta de uma Escola Secundária ou de uma fábrica. Chegou a ser amplamente usada pela polícia e pelos carteiros dos CTT ou para a entrega de comida, nomeadamente pizzas, que no início da década de 90 era um conceito ainda relativamente jovem e pouco difundido, bem diferente da atualidade.

Para esta fama contribuiu também o facto de ser muito pequena, leve e ter um quadro “aberto”, com túnel central, que permitia muito facilmente ser conduzida pelo sexo feminino, usando uma saia ou vestido. Aliás, na atualidade, é comum de encontrar um ou mais exemplares nos encontros de “chapa amarela”, sendo muitas vezes conduzida por pessoas do sexo feminino, que a adoram.

Sensações ao guiador

Algures nos idos anos 80 foi exatamente numa Boss que me dirigi à minha autarquia para a obtenção da Licença Camarária que me iria dar mais autonomia, a partir dos 16 anos. O teste foi responder a alguns sinais de trânsito, depois pegar na Boss, dar uma voltinha rápida ao pelourinho e ali estava eu encartado! Belos tempos!

Naquele tempo não pesava 50 kg e os cerca de 3 cv da máquina eram para mim um valor estupendo! Como tantos de vós, também fui muito feliz a andar numa Boss! O importante era não ficar apeado! Ainda por cima o motor era fiável e poupadinho, mas dava-se mal com a chuva e com a gasolina de má qualidade, sobretudo quando a percentagem do óleo da mistura era uma incógnita! Tantas vezes que se tinha que desmontar e limpar o carburador!

Todas estas décadas depois a minha simpatia e carinho pela Boss permaneceu e quando agora lhe peguei (obrigado, Hugo, pelo empréstimo) senti uma nostalgia tremenda a bater cá dentro de mim! Já não me recordo da última vez que tinha conduzido uma, mas certamente que já foi há alguns decénios!

A Boss afigurou-se igual a si própria: ligeira, fácil de conduzir, mas com toda uma série de limitações de que não nos podemos esquecer: anda pouco e trava da mesma forma, a iluminação é má demais para ser real, o espaço de engrenagem entre a primeira velocidade e a segunda implica alguma ginástica, a embraiagem é algo pesada, as suspensões de pouco servem, mas tudo isso pouco importa, se entramos no jogo da sedução!

Notas finais

A Casal Boss é um daqueles modelos que tem o futuro assegurado! Há ainda uma relativa abundância de peças, novas ou usadas, e a sua fama está em alta o que nos leva a poder considerar que o futuro é risonho, embora no caso dos primeiros modelos a situação seja um pouco mais delicada, dada a sua escassez.

Se, na atualidade, alguém decidisse relançar a Boss, provavelmente como ciclomotor /motociclo elétrico, um pouco na lógica da E-Famel, é bem provável que viesse a ter sucesso!

Da minha parte assumo que era um potencial interessado em adquirir uma, fosse equipada com motor a combustão ou elétrico!

andardemoto.pt @ 25-8-2026 11:00:00 - Texto: Pedro Pereira Fotos: Luís Duarte


Clique aqui para ver mais sobre: MotoNews


Facebook Twitter Pinterest LinkedIn WhatsApp