Pedro Pereira

Pedro Pereira

Só ando de moto em 2 locais: na estrada e fora dela!

OPINIÃO

O Motociclista, a Moto e o Seguro

Esta trilogia, aparenta ter tudo para dar certo: está lá o condutor/a, a moto e a seguradora. Porém, não é assim tão simples! Aliás, em caso de necessidade de recorrer à terceira parte é comum ser tudo bastante complexo!

andardemoto.pt @ 14-12-2019 13:05:58 - Pedro Pereira

Em primeiro lugar, deixem-me fazer uma nova prévia. Se quiserem, também lhe podem chamar um disclaimer, que sempre dá um ar mais erudito, mas o efeito é igual. Não tenho qualquer relação direta com o mundo dos seguros. Não sou, nem nunca fui, mediador ou o quer que seja. Sou apenas um consumidor/segurado que paga as suas apólices (é giro chamar-lhes prémios) e espera necessitar dos seguros o mínimo possível.

Sei, por experiência própria, que mesmo as reclamações (junto da Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões (ASF), no Portal da Queixa, no CIMPAS…) nem sempre correm da melhor forma e se arrastam no tempo, algo similar com a justiça em Portugal que costuma andar à velocidade do caracol.

Como tudo começou…

A ideia subjacente aos seguros é excelente: o consumidor/segurado paga um valor (prémio) e, em troca, o risco de perda, acidente, destruição, roubo, vandalismo, morte… é suportado no todo ou em parte pela seguradora. Na prática, é um simples contrato entre duas partes: o tomador de seguro e a seguradora.

Segundo consta, tudo começou com os antigos povos da Mesopotâmia (cerca de 2000 anos AC) que sentiram necessidade de encontrar forma de reduzir o risco de perdas nas suas trocas comerciais que tinham lugar em condições bastante adversas: iam desde o roubo, à pilhagem, morte dos camelos, fuga dos próprios comerciantes… e assim criou-se uma espécie de “mutualista” exatamente para minorar os riscos e evitar perdas tão avultadas…

Claro que a evolução foi gradual, mas a necessidade foi cada vez mais sentida por outros povos como os Fenícios, os Gregos ou os Romanos… Porém, o conceito de seguro que temos hoje é bem mais recente e só mesmo no final da Idade Média é que se começou a generalizar mais e a aproximar-se do conceito atual…


Focando-nos na nossa realidade, no que aos veículos automóveis diz respeito, os seguros automóveis, de motociclos, apenas se tornaram obrigatórios na segunda metade do século passado e ainda hoje há quem se arrisque a conduzir sem seguro, nem que seja apenas o vulgarmente designado “seguro contra terceiros” que tem o mínimo de coberturas possível, tendo presente o conceito de Seguro Obrigatório de Responsabilidade Civil Automóvel.

Lembro apenas que a ausência de seguro válido representa uma contraordenação grave e numa coima que varia entre 500 euros a 2.500 euros.

Numa voltinha dominical um dos “enduristas de fim de semana”, como eu, teve um encontro imediato de primeiro grau com uma ovelha. Só depois viemos a saber que andava com aquela moto sem seguro! Acabou por ter que a pagar a ovelha ao pastor e não se livrou de uma reprimenda conjunta dos restantes colegas! Imagine-se que o embate tivesse sido, por exemplo, numa pessoa ou noutro veículo!

No caso específico dos motociclos, quadriciclos, ciclomotores… dado o maior risco associado (pelo menos em teoria) de situações de acidente, furto, vandalismo… a situação é bastante mais complexa e as próprias seguradoras, muitas vezes, olham para este tipo de clientes como o diabo olha para a cruz! Como diz um conhecido meu, mediador de profissão: “são o tipo de seguros que não interessam grandemente! Só os aceito porque são obrigatórios e me permitem ganhar outras apólices!

Já agora, todos podemos saber se um dado veículo tem seguro ou não. Basta fazer uma consulta no site da ASF. Digita-se a matrícula e já está! Ter ainda em atenção que a informação pode não estar atualizada ao momento, mas é bastante fiável.

Nós, Motociclistas, que seguros temos?

Imagino que grande parte das/os Leitoras/es que tem um motociclo detém apenas um comum seguro “contra terceiros”. Eu próprio assumo que sou um desses! Apenas acrescentei as coberturas de Assistência em Viagem a 0 km’s (porque as motos também avariam e pode ser à porta de casa) e Proteção Jurídica.

Há algum tempo, a “minha” Companhia deixou de aceitar a condição especial para os Ocupantes, nem mesmo para o condutor, o que é bastante negativo e me vai fazer pensar numa alternativa, dentro da oferta existente! Claro que poderia contratar mais uma série de coberturas, mas implicava ir para uma apólice de danos próprios (que nem todas as seguradoras aceitam) e assim ficar protegido para situações como choque, colisão e capotamento, incêndio, raio e explosão, furto ou roubo e o prémio a pagar cresceria em consonância!

Optei por não o fazer e tenho, em alternativa, um Seguro de Acidentes Pessoais para situações de acidente de que possa resultar, por exemplo, a morte ou invalidez permanente, sem ter que deixar quem me está mais próximo desprotegido. Sendo que verifiquei, explicitamente, que abrange acidentes de veículos de duas rodas, algo que nem todos os seguros de acidentes pessoais contemplam…



Acresce ainda que, em situações em que o risco é maior, por exemplo condutores com menos de 25 anos ou com carta recente, as seguradoras cobram valores elevadíssimos para danos próprios ou evitam-no de todo, tal como acontece com motociclos mais antigos. Não é o caso do nosso mercado, mas há países em que até é tido em linha de conta, para o cálculo do prémio, se a moto a segurar é muito cobiçada pelos amigos do alheio (caso do Brasil) ou o historial de acidentes do modelo em causa (caso da Inglaterra)…

Fica o alerta e o aviso para que se informarem do que têm contratado e das respetivas cláusulas de exclusão. Partilho agora duas situações concretas relativas ao mundo dos seguros. Sugiro que leiam com atenção os parágrafos abaixo.

Suponho que muitos de nós estão, neste momento, ainda a pagar a sua habitação. Ou seja, recorrem ao crédito à habitação que tem associado um ou mais seguros, em especial de vida, que permite o pagamento integral da hipoteca em caso de morte ou invalidez permanente…

A outra situação que também não pode ser relativizada é a condução sob efeito do álcool e de drogas e de como as seguradoras usam essa irresponsabilidade da nossa parte para assim evitarem assumir o pagamento do quer que seja. São as chamadas exclusões que permitem “desresponsabilizar” as seguradoras do pagamento das indemnizações contratadas nestes casos específicos.

Dois casos reais… para reflexão

Há algum tempo ponderei mudar de banco o meu crédito à habitação. Havia propostas mais ou menos tentadoras na concorrência e, a médio e longo prazo, a poupança era relevante. Depois de vários contatos começei a analisar as duas propostas que me pareciam mais interessantes, mas prometi a mim mesmo que ia ler tudo com calma antes de assinar o quer que fosse, apesar da pressão de ambos os bancos para assinar o contrato. Mas a pressa é inimiga da perfeição:

1. No banco x, ao nível do seguro de vida, estava bem claro no contrato que não estavam contempladas as situações de morte ou invalidez resultantes de acidentes na condução de motociclos e ciclomotores. Confirmei que era mesmo assim e foi imediatamente riscada do meu leque de escolhas a possibilidade de mudar o crédito à habitação para este banco.Como é bom haver escolha!

2. No banco y, a seguradora “associada” ao banco só assumia responsabilidade se o motociclo não tivesse cilindrada superior a 500 cc! Levantei a questão e disseram que iam analisar. Depois ligaram a dizer que tinham revisto a proposta de contrato e o limite da cilindrada já era 750 cc, mas o seguro mais caro! Ai de mim se conduzisse um motociclo com 751 cc! Saltaram fora também, como é lógico! Nem quero pensar como seria se conduzisse uma Triumph Rocket 3 com 2500 cc!

Desconfio que ficaria mais caro o seguro que a prestação do imóvel!!!

Acabei por ficar com a hipoteca no mesmo banco e aproveitei para ler atentamente o contrato em vigor da seguradora (as tais letras miudinhas) e fiquei a saber que os motociclos estão contemplados, exceto se for em competição (seja lá isso o que for) em que a seguradora se descarta também!

Portanto, descobri que tenho que ter muito cuidado também se for fazer uma qualquer prova, nem que seja uma “piratada” ou um singelo track-day. Melhor haver seguro específico para esse evento… ou talvez seja melhor não participar no mesmo, por via das dúvidas!


A segunda situação não me envolve diretamente, mas é trágica. Um grupo de amigos foi fazer um passeio de moto. Depois de um belo almoço (com alguma bebida à mistura), durante o regresso fizeram ainda uma paragem de reabastecimento, com algumas “loiras fresquinhas” e numa situação inesperada um dos motociclistas teve um despiste e acabou por falecer pouco depois.

Procedimento habitual com autoridades, o INEM faz os habituais exames toxicológicos post mortem e o resultado caiu como uma bomba atómica: o condutor circulava com uma taxa de álcool superior ao limite legal!

O debilitado mundo daquela família desabou como um castelo de cartas! Ficou a mãe com 2 filhos menores e a seguradora não assumiu a liquidação da hipoteca da habitação por causa do álcool, independentemente de a ingestão ter estado ou não na origem do acidente que levou à morte. Tinha ainda seguro de ocupantes do motociclo, que também se desvinculou do quer que fosse, usando o mesmo argumento… previsto no contrato de seguro! Penso que a situação ainda está em tribunal, mas não é relevante para este artigo saber o que sucedeu a seguir...

Esta minha chamada de atenção vai no sentido de vos lançar 2 desafios:

1. Vejam todos/as que tipo de seguros têm, quais as exclusões e os limites e, sempre que possível, façam também seguros adicionais, sejam de ocupantes, acidentes pessoais, mas façam, andando ou não de moto! Não facilitem nada porque depois pode ser tarde demais e a ignorância não serve de desculpa, nem que a vossa literacia na matéria seja reduzida, tal como a minha, e as cláusulas bastante obscuras! Está aqui uma boa desculpa para atualizarem os vossos conhecimentos ou conversarem com o vosso mediador!

2. Volto a “chatear” para os riscos do consumo de drogas e bebidas alcoólicas, pois as estatísticas continuam a dar-me razão e nem os “trotinetistas”, ciclistas ou peões escapam! Andar de moto, por natureza, já comporta riscos, mas combinados com este tipo de substâncias aumenta exponencialmente… e as seguradoras sabem disso!

Continuação de boas voltinhas de moto, mas com segurança… e sempre com seguro!



andardemoto.pt @ 14-12-2019 13:05:58 - Pedro Pereira


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