Pedro Pereira

Pedro Pereira

Só ando de moto em 2 locais: na estrada e fora dela!

OPINIÃO

Que fazer para aliciar os jovens a andar de moto?

Assistimos a algum desinteresse pelas duas rodas por parte das gerações mais jovens e gostava de ter a vossa opinião para perceber este fenómeno e qual a melhor forma de inverter esta tendência, se é que existe alguma. Aceitam-se sugestões!

andardemoto.pt @ 22-9-2020 07:31:00 - Pedro Pereira

No meu tempo…

Podem ficar descansadas/os! Não vou escrever algo como dantes é que era ou esta juventude está perdida! Nada disso! São tempos distintos, mas a juventude continua a ser irreverente, diferente da geração que a precedeu e sujeita a novos desafios, pressões e oportunidades que nunca os menos jovens chegaram a experimentar…

Recordo-me perfeitamente, tal como provavelmente muitos de vós, de ansiar por ter 16 anos e poder, finalmente, ir à minha autarquia para obter a licença de condução de ciclomotores! Parece que foi ontem! Estudei sumariamente o Código da Estrada e, já na Câmara Municipal, colocaram-me oralmente algumas questões, incluindo identificar alguns sinais de trânsito.

Depois foi só ir para a via pública, capacete na cabeça, colocar a “cinquentinha” a trabalhar, dar uma volta à rotunda do pelourinho e estava apto para um mundo novo: conduzir legalmente!

Foi assim uma espécie de “Grito do Ipiranga”, mas na minha terra natal e não no Brasil, que fez com que a minha liberdade aumentasse exponencialmente, tal como a minha capacidade de sedução junto do sexo oposto!

Pouco me interessava se (ainda) não tinha “motorizada” própria e mesmo depois quando tive, pouco me importava se não era “da moda”, que é como quem diz uma Yamaha DT que então representava o topo da hierarquia! 


No meu caso comecei por uma bem mais modesta Casal de duas velocidades, a que se sucedeu uma Sachs TC50, mas o mais importante era saber que tinha uma forma de deixar de ser dependente dos outros. 

No mesmo barco estavam também os outros/as da minha geração e mesmo o número de miúdas que andava de cinquentinha era elevado, com uma especial apetência por veículos sem caixa, em que apenas era necessário acelerar… e travar!!!

Os controlos das autoridades eram escassos e costumavam ser benevolentes. Na medida do possível, tentávamos “kitar” ao máximo as pobres motorizadas (ou será martirizadas) que ao fim de algum tempo já pouco tinham de original: escapes, outros carburadores, aumentos de cilindrada, remoção de peças que apenas faziam peso, outros pneus e jantes… valia tudo, nem que fosse para conseguir um avanço de meio metro num qualquer despique!

Saudades desses tempos, de algumas loucuras cometidas, dos namoros mais atrevidos, dos olhares de reprovação de algumas pessoas mais velhas, das esfoladelas no alcatrão e até talvez de alguns ossos partidos, com direito a estreia de viagem em ambulância! Muitos de vós sabem perfeitamente do que estou a falar! 

Muitos de nós nem sequer pensávamos em ter carro! Seja por não termos capacidade económica para tal (o meu caso), seja porque as duas rodas eram uma forma de estar, de mostrar o nosso espírito de liberdade e rebeldia, além de que a maioria das famílias ainda nem tinha carro, basta pensar na década de 70 e início de 80 em que as motorizadas ainda transportavam meio Portugal…

Depois muita coisa foi mudando e a realidade como a conhecemos é muito díspar daquela que existia na geração daqueles que hoje têm 40, 50 ou 60 anos… não é melhor ou pior, é apenas outra!



Como é hoje?

A juventude atual nasceu num ambiente muito diverso daquele em que foram criados os seus pais e avós. Já são de uma geração em que as novas tecnologias fazem parte do quotidiano, muitos não se recordam da nossa moeda ser o Escudo e causa-lhes uma certa estranheza, perfeitamente compreensível, pensar como seria viver sem telemóvel ou internet!

Com o êxodo rural e a vinda para as cidades, a necessidade de ter um transporte próprio, além de uma eventual bicicleta, deixou de fazer tanto sentido e por isso é comum os jovens dizerem simplesmente que não têm carta de condução, nem planos para a vir a ter, por estranho que isso nos possa parecer!

Hoje até já é possível, legalmente, conduzir ciclomotores a partir dos 14 anos, ainda que com várias restrições, mas são os próprios pais e encarregados de educação que, muitas vezes, desincentivam esta prática com argumentos mais ou menos duvidosos sobre os riscos envolvidos…

É comum vermos jovens com 16 anos a frequentar aulas de condução de veículos de 4 rodas, os jocosamente conhecidos “papa-reformas”, “mata-velhos” e agora denominados também “papa-mesadas”.

Nada tenho contra esta prática e até a incentivo, mas afasta os jovens das duas rodas, além de que os custos são muito mais elevados e aumentam a pressão sobre o tráfego, em comparação com as duas rodas…


Além de todos estes fatores, o aumento exponencial da oferta direciona as crianças e jovens para outras direções: para se encontrarem, bastam muitas vezes as redes sociais! Se quiserem jogar uns com os outros… acabam por o fazer simplesmente em rede! Para se deslocarem… pode ser que haja transportes públicos, um Uber ou o papá e a mamã que tratam de tudo, incluindo de os ir levar e buscar à escola ou a uma saída noturna!

Talvez esteja a exagerar um bocadinho, mas este desligar gradual das duas rodas tem por detrás argumentos relativos à (in)segurança natural destes veículos, a questões ambientais, ao protecionismo dos pais… mas também de existirem muitas outras alternativas igualmente aliciantes e que talvez se aplicam melhor num mundo cada vez mais globalizado e virtual em que até o próprio conceito de posse está a mudar radicalmente.

Resumindo, a situação atual no que às motos diz respeito, é praticamente oposta à do milénio passado, em especial para os mais jovens, e não sabemos até que ponto as novas tecnologias, a generalização das motos elétricas ou o motosharing, virão a alterar este quadro.



Sinais de esperança…

Porém, o cenário não é assim tão negro como possa parecer. Basta pensar na conhecida “Lei das 125 cc”. Aproveito e deixo um obrigado especial a quem conseguiu a transposição da legislação comunitária, nomeadamente ao ex-deputado Miguel Tiago que recentemente entrevistámos no segundo episódio das “Conversas à Beira da Estrada”.

Vieram para a estrada novos milhares de motociclistas! Alguns jovens, outros nem tanto, muitas mulheres e pessoas que, de um momento para o outro, descobriram o mundo admirável das duas rodas, sendo que muitas não resistiram ao chamamento e acabaram por arrastar mais pessoas (filhos incluídos), ou subir de cilindrada, e sobretudo deixar de andar de carro…

Também a onda de revivacionalismo que continuamos a viver, em que o clássico e retro está na moda, veio trazer um boom enorme às duas rodas, nomeadamente às de fabrico nacional! Brotam por todo o lado (agora menos com a Covid) os passeios de clássicas, de chapa amarela…

O mercado floresce, muitas velhas glórias ressuscitaram e há um mercado muito apetecível de peças, preparações e transações em que os valores atingidos são inacreditáveis!Muitas destas máquinas eram dos pais, dos avós, configurando sonhos de juventude que não puderam então ser concretizados, e é delicioso ver três gerações diferentes a partilhar o mesmo gosto por estas relíquias há muito esquecidas e até votadas ao abandono.

Também a Federação Motociclismo Portugal (FMP) tem desempenhado o seu papel, inclusive junto do governo, e a competição tem ajudado muito a despertar um maior interesse pelo mundo das duas rodas. Aqui o nosso grande Miguel Oliveira tem sido um fantástico embaixador das duas rodas!

O MotoGP de regresso a Portugal, as Superbikes, o enduro, o motocross, as clássicas e até as “piratadas” estão a ajudar a chamar mais pessoas às motos, incluindo os mais novos…

Também o aumento da segurança é de destacar: as motos estão mais seguras do que nunca e as tecnologias (quase) fazem milagres. Os próprios equipamentos de proteção atingiram um grau de sofisticação impensável há bem pouco tempo e até mesmo um maior civismo, por parte de quem anda noutros veículos e dos peões, é de louvar…

Resumindo, os sinais positivos também estão aí e são muitos! Quero continuar a acreditar que as motos têm um grande futuro pela frente. Se é mais ou menos risonho, já depende de cada um de nós, em especial dos jovens. Eu farei o possível para que assim seja e conto com a vossa ajuda!


andardemoto.pt @ 22-9-2020 07:31:00 - Pedro Pereira


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