Pedro Pereira

Pedro Pereira

Só ando de moto em 2 locais: na estrada e fora dela!

OPINIÃO

We buy hp, but we ride torque!

Espero que me desculpem por escolher um anglicismo para título desta crónica, mas certamente que muitos já ouviram esta expressão que se pode traduzir por: Compramos cavalos mas conduzimos binário. sendo esse o ponto de partida para a reflexão que gostava de fazer convosco, tendo sempre presente que a minha opinião não tem que ser coincidente com a vossa e vice-versa… e ainda bem!

andardemoto.pt @ 18-5-2021 07:11:00 - Pedro Pereira




Alguns conceitos chave:


Para ajudar um pouco a clarificar as ideias, não ambiciono apresentar um corpus científico, mas antes algumas definições, muito básicas, que podem ajudar a sistematizar a informação e a evitar equívocos na terminologia adotada:

Arquitetura do motor: diz respeito ao número de cilindros (monocilíndrico, bicilíndrico, tricilíndrico, tetracilíndrico…), mas também à disposição dos referidos cilindros: em linha, em V, opostos, do tipo boxer, e ao respetivo grau de inclinação ou sentido de instalação (longitudinal ou transversal) do bloco. As várias opções permitem obter resultados muito diferentes em termos de potência, binário, resposta, vibração, faixa de utilização, etc…

Cilindrada (cc): também conhecida por cubicagem do motor, a capacidade mede-se em centímetros cúbicos (ou litros) e diz respeito à soma do volume interno máximo de todas as câmaras de combustão do motor e que influencia a quantidade de mistura de ar e combustível que um propulsor é capaz de queimar a cada ciclo. É também uma medida chave para cálculo de impostos;

Binário (Nm): nada tem a ver com o sistema binário usado pelos computadores, mas antes com a força rotacional (ou torque) que o motor gera para que o veículo comece a mover-se. Corresponde à medida de trabalho feita pelo motor, geralmente registada em newtons metro (obrigado Sr. Isaac Newton). Há quem lhe chame simplesmente força do motor;

Cavalos vapor (cv): é a medida de grandeza usada há mais de 200 anos para “comparar” a potência gerada pelas máquinas (então a vapor) relativamente aos cavalos, em termos de produtividade. Sem entrar em fórmulas ou cálculos complexos basta saber que ficou estabelecido que um cavalo de potência equivale a 735,5 watts (obrigado Sr. James Watt);

Rotações por minuto (rpm): de uma forma simplista pode dizer-se que corresponde ao número de voltas que a cambota efetua num determinado período de tempo, neste caso num minuto. O intervalo entre o seu regime mínimo e máximo condiciona todo o desempenho do motor. Acima do limite máximo (vulgo redline) podem produzir-se danos no motor e abaixo do regime minimo, ou ralenti , o motor pode desligar-se.

Mistura ar/combustível: ou mistura estequiométrica, corresponde à percentagem de ar e oxigénio que é admitida pelo motor para posterior combustão. Os valores de referência são aproximadamente de 14,7 unidades de massa de ar para uma de combustível. Mistura pobre aplica-se geralmente a uma maior quantidade de ar e mistura rica a um aumento da percentagem de combustível.


Cavalos ou binário?

Faça um exercício muito simples respondendo à questão: quantos cavalos tem a sua moto?

Provavelmente saberá a resposta “na ponta da língua” e responderá sem hesitar e talvez até acrescente a que regime do motor essa potência é obtida. Se a mesma questão for colocada relativamente ao binário já é bem provável que o mesmo não se verifique, sendo que muitas pessoas não fazem sequer a menor ideia de qual será o seu valor, nem a que regime é atingido.

Ou seja, existe uma tendência, mais ou menos generalizada, para valorizarmos mais a “cavalagem” do motor do que o “torque” propriamente dito!

No entanto, usando mais uma expressão importada do mundo anglófono: there is no replacement for displacement, ou seja, nada substitui a cilindrada!

Porém, aumentar a cilindrada (e consequentemente também o binário do motor) implica custos, peso adicional e mais impostos, como é o caso do famigerado IUC em que, por exemplo, um motor de 751 cc paga quase o dobro de outro com 749cc, mesmo que este último seja mais poluidor e tenha valores superiores de binário e/ou potência!

E é aqui que entra outro elemento na equação binário/potência cada vez mais determinante para os fabricantes e para todos nós: as emissões de gases poluentes! 

Todos sabemos que estamos a levar o planeta para um futuro perigoso e que a queima de combustíveis fósseis tem uma parte relevante da culpa e, por isso, importa reduzir ainda mais as emissões, sendo válidas todas as estratégias para o conseguir!

Pode ser o recurso a catalisadores (e, em breve, filtros de partículas como já acontece com os automóveis novos, mesmo os a gasolina), mistura mais pobre na combustão, compressores volumétricos, desativação de cilindros em determinadas condições ou qualquer outra estratégia, incluindo a mais que previsível substituição dos motores de combustão interna por motores elétricos.

Num cenário alternativo, poderemos vir a ter motos híbridas, com motores mais pequenos (menos cilindrada, impostos e peso), ajudados por um motor elétrico, que proporcionam o melhor de dois mundos: mais binário em baixas rotações sem abdicar de potência a regimes mais elevados!

Porém, este tipo de opção esbarra ainda em outros obstáculos que são os custos de desenvolvimento e de produção em série, inevitavelmente a suportar pelo consumidor final!

O que escolher?

Dado que muitos de nós têm dificuldades (€€€) em poder ter diferentes motos para distintas utilizações e que a opção de aluguer nem sempre é a mais vantajosa, importa percebermos a moto que melhor nos pode servir. Por isso a importância da potência e do binário são determinantes, até porque não vivem um sem o outro!

Não podemos ignorar que, para além do crescente controlo das emissões e do elevado preço dos combustíveis, também os limites de velocidade são mais rigorosos e mesmo nas autoestradas o limite legal é de 120 km/h, velocidade a que muitos motores ainda mal “acordaram”.

Por outro lado as motos elétricas são (ainda) um mundo aparte e merecem uma crónica futura só para si, até porque muitos dos conceitos apresentados neste artigo deixam de fazer sentido, mas há pelo menos uma certeza: com um binário instantâneo logo a partir do momento do arranque, elas transmitem sensações muito diferentes!

Pessoalmente ainda continuo fã dos vetustos motores de combustão interna, da melodia emanada pelo(s) escape(s), do comportamento do motor, da forma como a agulha (digital ou analógica) dança pelo taquímetro, mas reconheço que a força das circunstâncias me poderá fazer mudar!

Em caso de dúvida sobre a diferença entre potência e binário, deixo com uma derradeira expressão em Inglês: Horsepower is how fast you hit the wall. Torque is how far you take the wall with you! Que é como quem afirma: potência é a velocidade a que atinges o muro! Binário é a distância a que empurras o muro depois do embate!

Até lá, entre potência e binário, sempre que possível a minha escolha é: ambos!

andardemoto.pt @ 18-5-2021 07:11:00 - Pedro Pereira


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