Pedro Pereira

Pedro Pereira

Só ando de moto em 2 locais: na estrada e fora dela!

OPINIÃO

Motociclistas fazem guarda de honra à Senhora do Cabo

A cultura motociclística associada à cultura do povo

andardemoto.pt @ 25-10-2021 10:29:00 - Pedro Pereira

Todos sabemos que as/os motards, independentemente da idade, sexo, condição económica, credo religioso ou mesmo da moto em si, são pessoas de causas e não apenas das suas!Tanto participaram em massa na recente manifestação contra as Inspeções Periódicas Obrigatórias (IPO) nos motociclos, como organizam dádivas de sangue, recolhem e distribuem brinquedos ou fazem de guarda de honra.

Assim, aceitando um repto que foi feito via redes sociais pela Paróquia de Santo Antão do Tojal (concelho de Loures), também fiz parte do cortejo que acompanhou a despedida da imagem da Senhora do Cabo. O desafio era simples e dizia mais ou menos isto: 

Ainda que domingo dia 17, pelas 9:30h, fosse dia e hora de Cabo da Roca, desta vez o destino é apoiar-nos neste cortejo, honrando e pedindo proteção pelas curvas da vida a Nossa Senhora do Cabo, que está de despedida nesta paróquia, onde só voltará daqui a 25 anos. É uma honra poder integrar este cortejo, que não está assegurado por nenhum motoclube, mas sim por todos os amigos e conhecidos que queiram estar presentes. Uma volta entre as 9:30 e as 11:15h, entre Santo Antão do Tojal/Pinteus/Manjoeira/À-das-Lebres/Santo Antão do Tojal.

Quem é a Senhora do Cabo?

Não se trata da Nossa Senhora do “Cabo dos Trabalhos” e nem mesmo do Cabo da Roca, ponto mais ocidental da Europa Continental e “poiso” habitual de muitos motards, sobretudo ao fim de semana!

É a Senhora do Cabo Espichel! Lugar emblemático e cheio de história que bem merece uma visita. Pode não ter as curvas do Cabo da Roca, mas tem outros encantos, incluindo estar mesmo ao lado da sublime Serra da Arrábida ou ter uma vista quase infinita para Sul ou para Norte, incluindo parte de Lisboa e da Serra de Sintra. Ou seja, de Cabo a Cabo!

A primeira referência conhecida a Nossa Senhora do Cabo (ou da Pedra Mua) data do Reinado de D. Pedro I. Este Rei nasceu em 1320 e faleceu em 1367, ficando conhecido pelo cognome de Pedro O Cruel ou O Justiceiro por causa do célebre e trágico episódio de Inês de Castro. Loucuras de amor…

O documento em causa é uma Carta Régia, datada de 1366, que constitui uma magnífica manifestação da religiosidade popular em Portugal e um documento histórico para melhor conhecer as tradições e costumes da época.


Ao que consta, ocorreu um miraculoso achado da imagem de Nossa Senhora nas rochas do Cabo Espichel e a sua devoção e culto rapidamente se expandiu, sobretudo na região a Norte de Lisboa, ou seja, junto dos saloios, sendo também conhecida por "círio saloio" ou "círio do bodo”.

Para quem não sabe, o círio designa uma vela ou archote de grandes dimensões em cera, usado nomeadamente nas peregrinações e festividades religiosas.

Nessa altura já existia uma pequena ermida no Cabo Espichel (Ermida da Memória), bem antes da construção do Santuário, que no presente se encontra quase em ruínas, a aguardar por melhores dias, tal como tantos outros monumentos e edificações históricas de Portugal.

As peregrinações e visitas eram mais que frequentes, surgiram várias confrarias, há milagres que lhe são atribuídos e até uma série de mitos e lendas lhe estão associadas, inclusive sobre a origem da imagem, mas continuemos a nossa história para não maçar o Leitor/a.

Como a devoção se foi mostrando cada vez mais intensa na região saloia, em especial nos concelhos de Sintra, Cascais, Mafra, Loures, Odivelas, Arruda dos Vinhos e Oeiras, ficou decidido que a imagem ia fazer um périplo pelas várias paróquias, algo que ainda se mantém na atualidade e que congrega muita gente, misturando de forma mais ou menos harmoniosa o lado cristão e o pagão.

Sobre a escultura propriamente dita, imagino que a maior parte de vós, se a chegar a ver, é capaz de ficar desiludido/a com a primeira impressão. Algo similar que acontece a muitos de nós ao ver pela primeira vez a Gioconda de Leonardo da Vinci, no Museu do Louvre. É uma peça de pequena dimensão, com Nossa Senhora tendo ao colo o Menino Jesus, quase sempre ornamentada com um manto, geralmente oferecido por devotos.

Como decorreu o cortejo?

O ponto de partida (e de chegada) foi a Igreja Matriz de Santo Antão do Tojal, ali mesmo ao lado do popular Palácio da Mitra, vulgarmente conhecido como Palácio dos Arcebispos, uma vez que foi durante séculos a residência de verão de arcebispos e patriarcas.

É um lugar muito conhecido e usado para fotografar motos, nomeadamente tendo como pano de fundo a Fonte Monumental.

Mais ou menos à hora marcada (pontualidade teima em não ser o nosso forte, mas neste caso também não havia grande pressa, nem risco de autuação por excesso de velocidade) o cortejo arrancou lentamente e de forma mais ou menos solene para percorrer várias localidades que compõem a Paróquia, com direito a um convidado inesperado: o S. Pedro que marcou presença com uma chuva miudinha a que geralmente chamamos de “molha parvos”. 

Os motards seguiam à frente a um ritmo impressionante (talvez uns 15 ou 20 km/h, no máximo) e atrás vinha a Senhora do Cabo em cima de uma carrinha de caixa aberta. Ao passar pelas várias localidades ocorria sempre uma breve paragem e o respetivo Santo Padroeiro juntava-se também ao cortejo. Ou seja, ia aumentando o número de santidades…

Ruas engalanadas, casas decoradas a azul e branco e muita gente. Para algumas dessas pessoas foi uma verdadeira surpresa o aparecimento de tantas motos a servir de guarda de honra. Para mim assumo que foi um momento especial e que mostrou que os motociclistas são parte integrante da comunidade, nas suas várias dimensões.

Foi uma excelente oportunidade para melhorar, ainda mais, a imagem que fazemos chegar à sociedade em geral.


Todo o trajeto decorreu com normalidade, o que não invalida que tenham ocorrido alguns pequenos percalços: uma moto que entrega a bateria ao criador, uma outra que, simplesmente, se recusa a arrancar se não for de empurrão e até uma que libertou fumo do motor… e não mais trabalhou, simplesmente! Já as várias cinquentinhas que participaram deram boa conta de si, como era de prever. Com alguma manutenção são quase eternas!

O José Carvalho, a quem faço um agradecimento especial, serviu como fotógrafo de serviço, montado na sua hiper fiável CB 500 e guardou vários registos para a posteridade, incluindo as fotos que aqui partilho. Ele é um apaixonado pelo Circuito Saloio que acompanha há alguns anos e confidenciou que vai continuar a seguir a Senhora do Cabo!

Agora a imagem vai partir para outra paróquia, mas vai continuar por perto! Entre 2019/2020 esteve na Paróquia da Lousa (também concelho de Loures), em 2020/2021 esteve em Santo Antão do Tojal e o seu próximo destino é Bucelas, aqui mesmo ao lado, capital do Arinto. Um vinho a (re)descobrir, com moderação. Aprecio particularmente a sua acidez aveludada, bastante distinta da do tradicional Vinho Verde Minhoto, onde o Arinto também existe em abundância.

Mantendo-se o atual sistema de rotatividade da imagem, teremos que esperar mais 25 anos para que regresse de novo a Santo Antão do Tojal! É quase uma eternidade! Temo que alguns de nós, nessa altura, já nem façam parte do mundo dos vivos!

Será que ainda vão existir motos a combustão nessa altura ou vão ser apenas clássicas para sair à rua em ocasiões especiais? Vão coexistir com motos elétricas ou uma qualquer forma de propulsão ainda desconhecida?

Quando tal ocorrer, serei já um septuagenário, mas se tiver saúde para tal e existir convite, espero voltar a marcar presença, naturalmente de moto!

Obviamente que não invalida que outros motards e eu próprio, vamos continuar a participar em mais romarias e guardas de honra a esta nova protetora da família motociclística nacional! Basta sermos convidados/as!

andardemoto.pt @ 25-10-2021 10:29:00 - Pedro Pereira


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