Susana Esteves

Susana Esteves

Jornalista e motociclista

OPINIÃO

Sexo, motores e pecado

A fronteira entre sensualidade, sexualidade, flirt, assédio, boa educação, objetificação da mulher e trabalho está cada vez mais ténue. Nos últimos tempos temos assistido a uma revolução que pretende acabar com as desigualdades, o sexismo, a descriminação, os abusos de poder e toda uma série de comportamentos negativos em relação às mulheres. O que é que isto tem a ver com motas?Há algumas semanas os organizadores do Mundial de F1 informaram que iriam prescindir das chamadas Grid Girls, as promotoras que há anos “adornam” os Grandes Prémios, alegando ser “uma prática que não se enquadra nos valores defendidos pela marca”. Quanto tempo teremos que esperar até que esta decisão seja adotada pelo motociclismo e por outros desportos? Pouco tempo.    

andardemoto.pt @ 24-2-2018 17:19:36 - Susana Esteves

O peso da tradição não tem a capacidade de suportar decisões desenquadradas do que é hoje em dia “socialmente aceite”, e qualquer marca ou empresa passa de “bestial a besta” em alguns segundos se apoiar o lado errado neste campo de batalha. A decisão é clara: mantemos a tradição que agrada a milhões e arriscamos ser alvo de uma condenação em hasta pública, ou seguimos os “bons princípios” e aproveitamos as críticas positivas e o rótulo de modelo exemplar?

Como seria de esperar, esta decisão gerou uma onda de protestos de um lado, e de aplausos por outro. Foi acertada? Há vários ângulos para cada história e também nesta revolução a fronteira entre o que está certo e o exagero é muito fina. O argumento de que a decisão é errada porque vão remover o cenário mais atrativo dos prémios justifica por si só o que está na base desta mudança de mentalidade, mas e os empregos destas mulheres? Este seria um trabalho degradante para elas, ou uma forma de pagarem estudos e sobreviverem? 

Não será mais discriminatório assumir que este é um trabalho degradante para elas e que necessitam de “proteção”? O Mundial de Motociclismo tem um caso que mostra que o trabalho de promotora pode servir de rampa para lugar de destaque neste universo. A austríaca Milena Koerner começou como Grid Girl e é atualmente responsável pela equipa Forward Racing de Moto2. São as mulheres que estão mal no seu trabalho, ou os homens que assumem que pela sua exposição elas estão disponíveis e predispostas a algo mais? Sendo assim, devemos resolver o problema exterminando a sua “origem”, ou condenar e remodelar as mentalidades?   

Ainda que polémica, esta tendência poderá estender-se a outras áreas e chegar às promotoras que nas exposições de motas, por exemplo, são uma presença constante, ou mesmo a alguns desportos onde o equipamento “reduzido” das atletas já foi posto em causa, como é o caso do Vólei.

Este é um tema sensível para mim, porque defendo com unhas e dentes o fim dos abusos de poder, dos comportamentos sexistas, dos preconceitos e dos estereótipos. No entanto, defendo também a liberdade de opção das mulheres fazerem o que querem e usarem o que quiserem, seja em que setor for - em cima de uma mota, na linha de partida, no meio do ringue ou em qualquer desporto – e o direito de serem respeitadas sempre, independentemente do local onde estejam, e aqui sim, ainda há um longo caminho a percorrer.

Boas curvas

andardemoto.pt @ 24-2-2018 17:19:36 - Susana Esteves