Susana Esteves

Susana Esteves

Jornalista e motociclista

OPINIÃO

Góis: Entre o ronco das motos e o silêncio das chamas

Hoje vamos falar a sério. Acho que só o fiz 1 vez. Mas às vezes é preciso…

andardemoto.pt @ 7-9-2025 12:30:00 - Susana Esteves

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O ano é diferente, mas a $%#& é a mesma. Discursos não previnem nem apagam incêndios, e todos os anos Portugal e os portugueses ficam a arder (de várias formas).

Este ano ficámos à porta de Góis, que é para muitos, o Natal em agosto: há quem vá de moto, quem leve a pendura, quem meta os miúdos no carro e siga atrás do ronco só para viver o acampamento, os concertos, a feira, os reencontros.

A quem não é “do meio”, custa explicar que uma concentração é mais do que motos estacionadas em fila. É um espaço de diversão e respeito, onde se troca dicas de mecânica e receitas de família. Onde a malta das naked partilha mesa com o grupo das clássicas, onde aprendemos a acenar com os olhos porque as mãos estão ocupadas com os copos, ou com os putos que também já participam. Góis é (era, este ano) isto: um ponto de encontro intergeracional onde cabem as grandes motos, as carrinhas e as cadeirinhas. A família motard não é metáfora; é literalmente família.


Para lá do romantismo motard, há uma economia real que vibra com Góis: a vila e os arredores vestem-se para receber cerca de 20 mil pessoas, portanto quando isto falha perde a comunidade toda - comerciantes, associações, artistas, fornecedores.

Podemos (e devemos) tirar daqui lições. Agosto é sinónimo de encontros e reencontros, viagens, diversão, festas e romarias. Todos os anos elas existem, portanto é preciso pensar, planear, antecipar, criar regras, trabalhar e falar mais a sério sobre ordenamento florestal, prevenção e responsabilização. Precisamos de coragem, ou de outra coisa que não posso aqui dizer…

Porque para o ano o verão está de volta. Mas os temas são cíclicos. Agora vem o futebol e as transferências, as campanhas políticas e daqui a pouco o Natal. E para o ano cá estaremos para repetir a ladainha das “condições extremas” e dos “meios no terreno”.

Uma palavra especial para o gesto do clube: crédito para os inscritos usarem em 2026, apesar de a lei não os obrigar a tal. É uma forma de dizer “estamos juntos”, e vale tanto como um abraço.


O que fica, então, quando a concentração não acontece? Fica a prova de que somos, efetivamente, família. Famílias vivem percalços, reorganizam-se, protegem os seus. Muita gente que já estava em Góis ajudou nas evacuações, respeitou as indicações, arrumou tudo sem drama. Outros rodaram punho e  visitaram negócios locais noutros pontos da região, gastaram o que tinham planeado gastar, porque sabem que, do outro lado do balcão, alguém ficou a perder mais do que um fim de semana. Isto também é ser motard.

Para o ano, voltaremos. E quando voltarmos - porque havemos de voltar - que os momentos quentes sejam apenas os habituais. Até lá, que ninguém desista do que nos trouxe até aqui: a vontade de ir, de estar, de partilhar.

Góis ficou, este ano, num silêncio pesado onde esperávamos música e motores. Mas a família não se quer apenas para os copos e para a festa. Mede-se pelo que faz quando tudo se cala. E, nisso, continuamos juntos na mesma estrada.

Boas curvas

Até para o ano… em Góis.

andardemoto.pt @ 7-9-2025 12:30:00 - Susana Esteves

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