Susana Esteves

Susana Esteves

Jornalista e motociclista

OPINIÃO

Filho de peixe não sabe nadar porque eu não quero!

A minha paixão pelas motas chegou bastante cedo. Na altura não sei bem se era uma paixão ou uma “panca”, mas era suficientemente forte para eu abdicar de umas noitadas com os amigos e juntar dinheiro para a comprar. 

andardemoto.pt @ 17-10-2018 19:43:41 - Susana Esteves

A minha paixão pelas motas chegou bastante cedo. Na altura não sei bem se era uma paixão ou uma “panca”, mas era suficientemente forte para eu abdicar de umas noitadas com os amigos e juntar dinheiro para a comprar. É claro que um tempo depois fui confrontada com uma dura realidade, e tive que fazer uma escolha: ou comprava uma mota e vivia feliz para sempre, ou ia viver para debaixo da ponte.

Digamos que na altura os meus pais não acharam muita piada à ideia das duas rodas, e até acho que durante uns segundos foram assolados por um medo: a minha filha pirou de vez, vai virar motard rebelde, assaltar lojas, consumir drogas, acampar no meio das matas, assistir a espetáculos de strip e perder-se nesse mundo de loucura que é o das motas. OH MEU DEUS!

Na verdade não era bem essa a minha ideia. O que eu queria mesmo era sentir aquela adrenalina, ter mais autonomia e (sendo sincera), mostrar aos cagões das DTs que eu também tinha uma mota e que eles não eram os melhores do mundo. Mas é claro que nem todos os argumentos do mundo e promessas sinceras (e completamente estúpidas e desesperadas) conseguiram mudar a minha sina. “Tá parva a miúda!”

É claro que quando somos teenagers não percebemos muito bem por que é que o mundo está contra nós, qual é o problema inerente às motas, e muito menos os irritantes e inúmeros “medos” dos pais. A boa notícia é que isso eventualmente passa-nos quando crescemos um bocadinho, temos filhos e entendemos o que se passa diariamente nas estradas. Ainda assim, a melhor opção é proibir? Existe um nível de maturidade mínimo para se ter uma mota? É irresponsável colocar uma mota nas mãos de um jovem de 16 anos? Porque é que os pais são sempre uma “seca”? Os pais motociclistas são menos “seca” que os outros?  

Filho de motociclista está muito provavelmente habituado a andar de mota deste os 7 anos, a ser a inveja dos colegas de escola, a levantar-se um bocadinho mais tarde que todos os outros, a chegar mais depressa e a parar à porta da escola. Mas também está habituado a apanhar mais frio, a andar com as calças molhadas de vez em quando, a não jogar telemóvel nas viagens, e a andar com a mochila sempre às costas. A ansiedade e a adrenalina deixam de ser novidade, e como tal, mais tarde a decisão de querer comprar uma mota é mais ponderada e menos impulsiva. Este histórico não lhe dá, porém, carta verde por parte dos pais.   

Para muitos automobilistas, as motas são sinónimo de maior perigo, de condução arriscada, de mais acidentes mortais, de uma dose extra de loucura e de gente meia estranha. Assumindo que todos os pais querem proteger os seus filhos, o NÃO irredutível até pode ser visto como lógico.

Mas a verdade é que ninguém percebe melhor todo o perigo envolvido como os próprios motociclistas, que atravessam a selva e apanham sustos diariamente. O tal NÃO irredutível deveria vir mais facilmente destes últimos, certo? E muitas vezes vem. Os sustos, as quedas, os amigos que nos deixam cedo demais e os episódios menos bons colocam-nos perante uma realidade que não queremos para os nossos filhos.

O problema é: a todos estes perigos e filmes junta-se um prazer enorme que se sobrepõe a tudo o resto, e do qual não os queremos privar.

Então é, ou não, irresponsável meter uma mota nas mãos de um jovem? Depende do jovem, depende da mota e depende dos pais. Quem cresce a andar de mota está mais ciente destes perigos, provavelmente já tem um histórico de quedas na família, e aprende a ter uma condução mais defensiva. É esta a regra? Não! Quem nunca andou de mota tem mais medo, mais cautela, mais cuidados, aprende do zero e vai evoluindo. É esta a regra? Não!

A verdade é que não há regras, nem respostas certas. O não irredutível que recebi quando era mais nova apenas adiou a decisão por alguns anos, não a travou. Para conduzir uma mota, um carro ou mesmo uma bicicleta é preciso ter cabeça, sentido de responsabilidade, e saber medir as consequências das escolhas que diariamente se fazem na estrada. E isto é válido ao 16 anos, aos 26, aos 36… e por aí em diante. Existem cursos de condução defensiva e aulas avulsas que podem ajudar. Mas mais importante que isto, têm que existir pais que lhes transmitam os princípios importantes, que os orientem, acompanhem, e que os deixem crescer.   

Boas curvas    


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