Susana Esteves

Susana Esteves

Jornalista e motociclista

OPINIÃO

A minha primeira vez

Todas as primeiras vezes têm aqueles “momentos” que não gostamos de partilhar, porque foram embaraçosos ou simplesmente maus, daqueles realmente maus que gostávamos de poder apagar. E quem diz que a sua primeira vez foi simplesmente perfeita… tem decerto alguma coisa a esconder.

andardemoto.pt @ 4-2-2019 14:29:34 - Susana Esteves

A ansiedade, o nervoso “miudinho”, o desejo de fazermos tudo bem para no fim aproveitarmos ao máximo cada momento e podermos dizer que foi bom… conduzir uma mota pela primeira vez pode revelar-se uma experiência stressante.

É este misto de nervos e de medo que trava muitas “primeiras vezes” ou muitas “segundas vezes” depois de uma má experiência. A partilha de uma experiência é importante para mostrar que até os motociclistas mais experientes e desenrascados já um dia foram aselhas e nervosinhos.

A minha primeira vez foi o que podemos chamar de “terapia de choque”. Isto porque envolveu um misto de teimosia e estupidez que conduziu a um cenário que reunia todos os ingredientes para correr mal. Muito mal.

Quando comprei a minha primeira mota não tinha carta. Nunca tinha conduzido nada com duas rodas a não ser a minha bicicleta, e mesmo neste caso o meu histórico de quedas aparatosas e de danos corporais não beneficiava em nada a minha imagem. Fui vê-la ao stand, comprei-a, marquei o dia para a ir buscar, mas nunca a experimentei. Porquê? Porque se a primeira experiencia não fosse boa se calhar não a iria comprar. Assim, eliminei logo ali uma variável negativa. Inteligente? Não. Mas foi o que se arranjou na altura. No dia da compra, apenas sentei o rabo no banco e pensei: “Sem stress. No dia em que a vier buscar logo me safo.”

 No dia D lá fui eu, num misto de nervosinho e ansiedade. Acho que ouvi apenas 20% do que o rapaz do stand me estava a explicar sobre compartimentos, óleos, gasolinas e afins. A minha cabeça só pensava: “Calma, isto é canja. É só acelerar e travar”.

A primeira curva foi uma vitória. “30 segundos e ainda não caí. Está no papo!” O resto é que foi pior. Ir buscar uma mota a Lisboa às 18 horas e enfrentarmos o IC19 à hora de ponta não é a melhor opção. Bem que me apetecia seguir os restantes motociclistas que passavam por mim entre os carros, mas nunca uma estrada me pareceu tão estreita na vida. Acho que fiz parte do percurso com os pés no chão, com o capacete aberto porque não conseguia respirar ali dentro, com as mãos a doer de tanta força que fazia no guiador. Tudo isto (e mais algumas coisas) enquanto dizia “És tão estúpida. Quem é que faz uma coisa destas à hora de ponta?”

Mas cheguei a casa sã e salva, quase 2 horas depois. O pior já tinha passado? Não. O dia-a-dia nos primeiros tempos foi estranho.

- Fazer rotundas era um pânico. A curva parecia interminável e juro que qualquer idoso com bengala me ultrapassava facilmente. Entretanto dei por mim a fazer percursos mais longos para as evitar.

- Sempre que queria carregar no pisca buzinava. O problema não era meu. A malta que fez a mota é que calculou mal o posicionamento da coisa.

- A logística de enfiar o cabelo comprido no capacete também não foi fácil. Todos os dias havia um reboliço de cabelos a voar lá dentro. Nunca andei tão despenteada na vida.

- As subidas íngremes faziam-me muita confusão. O que na verdade era uma coisa parva porque eu conduzia uma scooter, ou seja, nem havia o perigo de ela descair ou “ir abaixo”.

- Subir/descer passeios demorava uma eternidade e envolvia sempre uma respiração funda antes.

- O estacionamento era estrategicamente calculado para facilitar a saída (nada de buracos e coisas complicadas).

O “friozinho na barriga” acompanhou-me quase todos os dias nas primeiras semanas. Olhava para o carro muitas vezes de manhã, principalmente depois de alguns sustos que ia apanhando pelo caminho, mas a teimosia e o orgulho venceram.

Tudo isto passa com a experiência. Aliás, passa bastante mais depressa do que pensamos. Pouco tempo depois já nem nos lembramos do nervosinho, já dominamos as rotundas, os passeios, os automobilistas desatentos, e tudo o resto. Por muito experientes que sejamos, todos os dias aprendemos alguma coisa, seja com os nossos erros ou com a experiência dos outros. E é por isso que é importante partilhá-la.


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andardemoto.pt @ 4-2-2019 14:29:34 - Susana Esteves