Pedro Pereira

Pedro Pereira

Só ando de moto em 2 locais: na estrada e fora dela!

OPINIÃO

Viajar de moto… Sozinho ou em Grupo?

Um drama real de muitos motociclistas, para o qual não há uma resposta certa!

andardemoto.pt @ 23-10-2019 23:20:02 - Pedro Pereira

A forma como vivemos, amamos, trabalhamos ou nos relacionamos com os outros é algo muito pessoal, mas fortemente condicionado. Viajar de moto também, mas com um bónus: podemos decidir se vamos sós, com pendura, ou inseridos num grupo de mais motards!
Há algum tempo, um amigo de longa data, mais do que calejado a andar de moto e guia habitual em muitos passeios e voltas por esse mundo fora, deu a novidade:

- Este ano vou fazer uma viagem de moto pela América do Centro e Sul e quero ir sozinho! Gerou-se logo ali uma acesa discussão e troca de opiniões em que todos os argumentos a favor de viajar sozinho ou acompanhado foram sendo desfilados uns após os outros, sem existir unanimidade, tal como convém quando se vive em democracia!

A quadra de Fernando Pessoa que apresento no início foi escolha pessoal, mas ilustra um bocado o que partilhou comigo. Mais, confidenciou que quer voltar a repetir esta forma de viajar, mas levando também a esposa e ninguém mais…

Viajar acompanhado porque…


É comum dizer-se que numa viagem de lazer boa parte do encanto reside na preparação: na escolha da companhia aérea, dos hotéis, nos locais a visitar, na eventual reserva de bilhetes para atrações, transferes, aluguer de carro, ou não, ir no próprio carro, por nossa conta ou com recurso a uma agência de viagens, qual a meteorologia, se são precisos vistos, eventuais vacinas ou medicamentos…
Numa viagem de moto tudo isso é bastante ampliado, já que a viagem é, em boa medida, o próprio destino! Acresce que a preparação ganha outros contornos porque há todo um conjunto de questões a (re)ver que vão desde a componente mecânica, incluindo eventual troca de pneus e revisão no trajeto, aos pontos onde parar nem que seja para abastecer, a navegação, a bagagem que temos mesmo que levar connosco, havendo ou não pendura… e até a necessidade de assistência a acompanhar-nos!
Viajar em grupo, entenda-se grupo como duas ou mais motos, tem muitos encantos, mas é completamente diferente serem 4 ou 5 ou serem 10 ou 15 motos, como provavelmente sabem, até por experiência própria!
Num grupo mais pequeno é mais fácil a interação e conseguir gerar consensos sobre qual o ritmo a adotar, os locais em que se vai parar, as dormidas e demais planificação. Além disso, a probabilidade de falha mecânica, quedas e outros imprevistos acaba por ser bastante menor, embora se perca alguma magia que se consegue na “algazarra” de um grupo maior.
Uma das maiores vantagens de viajar em grupo tem a ver com a reação perante situações inesperadas. Num ambiente inóspito e hostil, uma queda sozinho pode representar a perda de uma vida, e a dificuldade em levantar a moto ou situações de roubo ou agressão, são potenciadas.


Uma avaria, um furo ou a falta de gasolina são situações que podem ocorrer e de resolução mais simples quando se viaja em grupo. Por outro lado, quando se vai em grupo, a partilha é maior. Claro que nos identificamos mais com A ou com B, mas é natural que no meio de grupo haja sempre afinidades, gargalhadas, saudáveis despiques e trocas de opiniões mais ou menos acaloradas. Além disso, aprende-se a ser mais disciplinado, a respeitar o líder e o vassoura, pois ninguém fica para trás e isto ajuda a desenvolver o espírito de camaradagem e a responsabilidade.

Em oposição, várias cabeças, representam várias sentenças! Há quem goste de andar devagar, a apreciar a paisagem, os acelerados, que querem é curvas e roçar com os poisa-pés no chão, quem anda sempre a querer parar para tirar fotos, visitar monumentos, comer ou simplesmente esticar as pernas e fumar um cigarrito, gente que se recusa a dormir num lugar sem um mínimo de condições e quem nada valorize isso, pessoal que aprecia a vertente gastronómica e quem tenha apetite de passarinho…
Em suma, diferentes formas de pensar e de agir. Essa diversidade, ainda que enriquecedora, pode fazer do mototurismo ou da motoaventura um verdadeiro calvário! Pessoas muito diferentes conseguirem conviver durante 1 ou 2 dias mas, e se forem duas semanas?

Há vários casos de grupos que acabaram por separar durante uma viagem por diferendos de ordem vária! Há até uma máxima que diz: se queres conhecer alguém… experimenta tirar férias com essa pessoa(s)! Tanto pode correr bem, como ser catastrófico e estragar as férias! Ou seja, é realmente um desafio muito grande viajar de moto em grupo, sobretudo se a duração da viagem for maior e os participantes não se conhecerem minimamnte.

Viajar sozinho porque…

Interprete-se sozinho no sentido de ser uma única moto, levando ou não alguém à pendura. Ter alguém a acompanhar-nos na mesma moto, para resultar, é essencial que as duas pessoas, independentemente da relação que tiverem, se entendam bem na moto e fora dela e já tenham algum conhecimento mútuo para não acabarem a odiar-se ou a voltar para trás precocemente!
Recordo-me da história de um casal que ainda mal se conhecia (namoro recente, igual a paixão e euforia) e ela aceitou o desafio de uma viagem de moto pela Europa… sem nunca ter andado numa! Compraram equipamento para ela e lá foram à aventura com mais um grupo de motards. Ao fim do segundo dia, farta de frio e chuva e de horas a fio em cima da moto, ela disse que não queria mais! Acabaram por voltar para trás os dois e o resto do grupo seguiu. Curiosamente, ainda hoje estão juntos mas, para ela, viagens de moto mais longas, nem pensar!
Para alguns a solidão pode ser uma maldição, mas para outros é uma bênção! Diria, sem medo de errar, que há momentos para as duas, mas se quem anda de moto sozinho o faz por opção e porque valoriza o isolamento que permite fazer uma viagem interior, conhecer melhor o seu próprio eu, sem ter que aturar os outros… ou levar a que estes o aturem!
Aliás, o exemplo inicial daquele meu colega tinha muito a ver com isso. Estava cansado de viajar de moto, de ter que pensar nos outros, de não conseguir focar-se em si mesmo, de ter que dar explicações e justificações, quase a ter que pensar e até (re)agir pelos outros! Acabou mesmo por confidenciar que estava a perder parte do gosto de andar de moto e que só o voltou a descobrir quando abriu mão de andar de moto em grupo!

Viajar a solo torna-nos mais vulneráveis, mas isso não é necessariamente mau. Somos também mais cuidadosos, desenrascados e sabemos que dependemos de nós e da ajuda alheia que pode ser necessária em qualquer parte e por pessoas que não nos conhecem, nunca nos viram e podem até nem conhecer a nossa língua! Felizmente que nós sabemos a língua de toda a gente, nem que seja usando as mãos ou fazendo desenhos numa folha de papel! Somos uns desenrascados! Herança que vem, pelo menos, do tempo dos Descobrimentos!
Uma vez, de férias no Brasil, aluguei uma moto para umas voltinhas e, a dada altura, no meio de nenhures, partiu-se a corrente de transmissão! Era um caminho de terra batida e não se via nada, nem ninguém, e eu sem nenhum elo de engate, nem rede de telemóvel! A pendura já preocupada porque era meio da tarde... Do nada, pelo caminho poeirento, apareceu uma camionete carregada de cachos de bananas. Saíram de lá 2 homens, arranjaram espaço para a moto e para nós os dois no meio das bananas e levaram-nos até a uma oficina numa cidadezinha próxima. Quis dar-lhes alguns Reais pela ajuda e a resposta foi mais ou menos esta: - Nada disso, cara! Foi bom poder ajudar! Fique na paz!
Para mim foi uma lição de vida tremenda! Quando os vi parar, cheguei a temer por nós, mas estava completamente errado e agarrado aos meus estúpidos preconceitos! Nenhum deles tinha um aspeto muito famoso e já me estava a ver rachado ao meio, pelo facão enorme que certamente usavam para cortar cachos de bananas e o pescoço aos viajantes incautos,como nós! E como iria eu, depois de morto, explicar às nossas famílias o sucedido, sogra incluída?

Com um pouco de sorte nem sequer iriam chegar a localizar os nossos cadáveres! E eu que sempre digo que quero ser enterrado no cemitério da minha terra, mas daqui a muitos anos!

Enfim, foram de uma generosidade tremenda e nem sequer me deixaram tentar retribuir monetariamente, apenas aceitaram uma ou duas cervejas que paguei com todo o gosto! O próprio mecânico disse que nunca os tinha visto, o que me levou a crer que fizeram um desvio apenas pelo prazer de ajudar! Que tenham tudo de bom esses verdadeiros anjos. Não apenas por nos ajudarem, mas porque me abriram os olhos e porque, por isso, já pude retribuir a outras pessoas e não me deixa esquecer que o mundo necessita tanto de gente que pratique o bem!



Voltando às particularidades de andar sozinho, um dos maiores riscos está em ser minorado graças às tecnologias. Ainda há imensos lugares do mundo sem rede de telemóvel (nem é preciso sair de Portugal) mas no entanto, até um sistema de GPS ou os modernos sistemas de “chamada de emergência” nos podem salvar a vida. Além disso, sobretudo em viagens maiores a zonas mais inóspitas, recomendo que, com frequência, atualizem a vossa localização mais recente, nem que seja para alguém de confiança, ou nas redes sociais… o que for! Pode ser a forma de, em caso de necessidade, vos localizarem e poderem salvar-vos a vida!
Conhecem aquela sensação de, por exemplo, ir a um seminário ou reunião ou o que for, e não conhecerem ninguém? A maioria tende a ficar no seu cantinho e tentar encontrar, como tábua de salvação, alguém conhecido. Andar de moto sozinho é também muito desafiante porque nos faz sair da nossa área de conforto, a interagir com pessoas desconhecidas, a pedir-lhe opiniões sobre o itinerário, onde comer, o que visitar e assim fazer com que nos integremos mais no meio e paisagem em que estamos inseridos E isso é admirável! Há até quem consiga ir mais longe! 
Ao viajar sozinho é possível fazê-lo sem rota definida, sem um destino ou hora marcada, a ponto de deixar de haver preocupação em saber qual o dia da semana ou onde vai ser a próxima paragem. Apenas desfrutar da paisagem que nos rodeia, do prazer de andar de moto e da companhia das pessoas com quem nos cruzamos. Até parece romântico demais para ser verdade, mas é possível!

Só ou acompanhado… o mais importante é ir!

Recordam-se do vosso primeiro passeio de moto? Não importa se foi só ou em grupo, se muito longe ou se ficaram apeados, nem mesmo a cilindrada ou potência da moto. Tudo isso é irrelevante. O importante é que essa experiência vos deixou (boas) recordações, a ponto de a reviverem com ternura e carinho. Talvez a moto fosse fraquinha e pouco fiável, o equipamento não fosse o mais adequado e o nível de conforto e segurança deixassem muito a desejar.

Porventura, até talvez a bagagem fosse apenas uma muda de roupa parcial e uma tenda de campismo a pedir reforma, mas ainda assim os olhos brilham ao pensar nela! Depois disso podem ter realizado muitos outros passeios, podem até estar a meio de um enquanto leem estas linhas, mas o primeiro deixou marcas.
Numa sociedade que cada vez mais promove o consumo desenfreado e voraz, viajar demoto pode fazer que nos foquemos no essencial e deixemos de parte o acessório. Pode ser bom para chegarmos à conclusão de que temos bem mais do que necessitamos para viver, sobretudo quando à nossa volta há tanto egoísmo e miséria!
Recordo-me de um casal que foi fazer um passeio de moto até África. Ambos  ficaram tão impressionados ao ver pessoas tão felizes e com tão pouco que eles, com tanto, simplesmente partilharam o que tinham nas malas da moto, nomeadamente roupa e artigos de higiene pessoal, ficando apenas com o estritamente necessário para regressarem a casa!

Como ela me disse quando nos reencontrámos mais tarde: - Sabes, quando saímos de cá, a moto mais parecia uma besta de carga! No regresso os nossos haveres couberam todos na topcase e a moto parecia que tinha ganho asas. As malas laterais vinham cheias, mas era de sorrisos, daqueles com quem partilhámos o que tínhamos e das boas recordações que nos preencheram! Foi uma ótima troca!
Pedro Pereira

andardemoto.pt @ 23-10-2019 23:20:02 - Pedro Pereira


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