Fábio Figueiredo

Fábio Figueiredo

À procura de um caminho alternativo

OPINIÃO

10ª Parte - Decidi não ir pelo deserto.

De Tallinn, Estónia, até ao Cazaquistão

Manhã. Acordava com um cappuccino, mantimento essencial para começar bem o dia, um pequeno conforto de uma vida já esquecida de que não prescindira.
Tinha havido várias coisas a correr mal na noite anterior, para além das quedas. A quantidade de água que trazia tinha reduzido de 3 litros para 2,5 quando em Atyrau tinha trocado a garrafa de litro e meio por uma de um litro à saída do hotel. Pelo caminho tinha bebido das duas, o que me deu um total de um litro e meio: metade daquilo que pretendia. Também o repelente de insectos tinha acabado e o lubrificante de corrente tinha dado o seu último borrifo. Não tinha (e agora via porque tanta gente me tinha recomendado) toalhitas para bebé. Havia que reabastecer.

andardemoto.pt @ 15-10-2019 16:47:22 - Fábio Figueiredo

Com a experiência do dia anterior, decidi não ir pelo deserto. A minha aptidão para conduzir fora de estrada tornava a travessia de 250-300 km não numa aventura, mas numa situação potencialmente perigosa. Ia prosseguir até Shetpe na maior distância entre postos de gasolina que iria encontrar: trezentos quilómetros.
Pelo caminho, alguns cavalos mortos ao lado da estrada, um deles com a sua manada junto a ele, como que a fazer luto, serviam-me de aviso sério dos riscos do que tencionara fazer. Tinha tomado a decisão correcta.

Ao longo do dia, tudo normal, a estrada continuava plana, a ocasional cáfila com o seu distinto aroma, manadas de cavalos e a total ausência de árvores, com algumas zonas com arbustos com menos de um palmo a resistir ao implacável clima do deserto.

Depois de mais de duzentos quilómetros nesta nota monótona, olho com atenção para o lado direito: sem me aperceber, a elevação tinha aumentado, encontrava-me num planalto e a linha que separava a terra do céu já não estava a dezenas de quilómetros mas a centenas de metros de uma escarpa para o enorme vale que rasgava a elevação onde me encontrava. O que pensava encontrar só amanhã estava já aqui: a cereja no topo desta viagem.



Faltam-me palavras para descrever a beleza desta terra inóspita e intocada. Uns minutos depois, a estrada mergulharia nesse vale para o poder apreciar mais de perto. Este era o lugar que eu idealizara, a jóia da coroa desta expedição. Meses depois de o sonhar, conseguiu deslumbrar-me pelas cores, pela espessura do ar que refractava o sol que banhava esse vale idílico. Mais ainda, pelo imponência: eu não era mais que um pequeno ponto naquela falha tão imensa que não permitia vislumbrar o lado oposto. Tive de parar para uma fotografia.
Demorou a melhor parte de uma hora para alcançar o outro lado. Era altura de recuperar deste choque para os sentidos. Numa pequena vila onde só encontrei gasolina de 92 octanas para o meu depósito onde sobravam apenas dois litros de combustível e onde o trânsito era constituído por um rebanho de cabras a regressar da pastagem estava um albergue onde as línguas desencontradas não foram problema para encontrar um quarto para mim e um jantar caseiro feito com muito boa vontade por pouco mais de 10 euros.
Estava em Shetpe, a menos de duas horas de Aktau, cidade onde concluiria a minha viagem. Amanhã decidiria se esse seria o último dia ou não.
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andardemoto.pt @ 15-10-2019 16:47:22 - Fábio Figueiredo


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