Pedro Pereira

Pedro Pereira

Só ando de moto em 2 locais: na estrada e fora dela!

OPINIÃO

Fui a um Passeio de Chapa Amarela e…

Adorei, pois claro! Nem poderia ser de outra forma! Foi uma tarde/noite muito divertida, em que as velhas glórias se mostraram perfeitamente à altura das expetativas!

andardemoto.pt @ 28-10-2019 14:58:16 - Pedro Pereira

Estamos a atravessar uma verdadeira fase de nostalgia! Procuramos o que é antigo, clássico… é como se o saudosismo quase tomasse conta de nós! Esta corrente chegou também às motos e ciclomotores… e ainda bem! Só assim foipossível fazer chegar novamente às nossas estradas muitos milhares de ciclomotores, a maior parte de fabrico nacional, que povoavam as nossas estradas na segunda metade do século passado!

Ter um veículo destes, que pode estar em estado original, meticulosamente restaurado ou customizado ao gosto do proprietário, é mais do que um simples prazer. É conduzir um pedaço de história! Muitos destes ciclomotores, também conhecidos por “chapa amarela” ou “bonitas” são autênticos monumentos com rodas e que voltaram a ter uma nova vida!

O VI Passeio de Chapa Amarela teve lugar em Vale das Onegas, há umas semanas. Imagino que 99,9% dos leitores do Andar de Moto não faz a menor ideia onde fica esta localidade, mas isso também não é relevante para o efeito. Até porque se acrescentar que fica na freguesia de Alcaravela… a percentagem pouco se vai alterar. E mesmo mencionando que o Concelho é Sardoal, o resultado poderá não ter grande alteração e ainda é capaz de gerar confusão com Sabugal.

Para vos poupar uma ida ao Google, basta dizer que é no concelho vizinho de Abrantes, Mação e Vila de Rei, ficando a dita aldeia a 2 passos da Beira Baixa. Este passeio foi, tal como tantos outros do mesmo género que acontecem um pouco por todo o Portugal profundo seja no Minho, em Trás os Montes, nas Beiras ouno Alentejo! São um fenómeno recente, mas bastante generalizado. Felizmente não são apenas uma moda regional.

Acresce ainda que os participantes são muito heterogéneos: há entusiastas com 10 anos (passageiros, entenda-se) e outros com 60 ou 70 e de ambos os sexos! Portanto, estamos a assegurar a passagem do testemunho entre gerações e a promover a igualdade de género, embora a maioria dos participantes (ainda) seja do sexo masculino!

O ponto de encontro foi junto à Associação de Moradores da terra e após as inscrições de todos os participantes foi feito um breve briefing sobre o trajeto, ponto de reagrupamento, apresentado o líder (que ninguém deve ultrapassar), quem são os “vassouras” (que fecham o passeio). Também fez parte o inevitável apelo ao respeito pelo cumprimento do Código da Estrada, mesmo que a velocidade média seja reduzida e parte das localidades a visitar tenham pouquíssimos habitantes ao fim de semana, apesar de mais do que nos dias úteis!

É dado o sinal de partida e a caravana de cerca de 50 ciclomotores (e meia dúzia de motociclos que, por regra, são os “vassouras”) arranca entre alguns rastos de fumo azulado (são motores a 2 tempos na sua quase totalidade) e o ruído das mecânicas e zumbido de escapes (muitos deles alterados).

De acordo com um trajeto previamente definido pela organização foram visitadas as 4 freguesias que compõem o concelho: Alcaravela, Montalegre, Sardoal e Valhascos e feitas várias paragens para apreciar a paisagem, reagrupamento, um petisco ou simplesmente para convívio. Qualquer pretexto é bom para nos divertirmos!


Como este tipo de atividades abre o apetite, existe sempre uma paragem a meio do trajeto em que a organização disponibiliza um reforço alimentar e alguma bebida. Desta vez foi num local emblemático do concelho: o conhecido Chafariz das 3 Bicas! Lugar centenário de Sardoal onde muita gente já foi beber água (apesar de ser algo férrea), ser feliz ou trocarjuras de amor! Reza a história, que a nascente que alimenta esta fonte surgiu no terramoto de 1755 na margem esquerda da ribeira, sendo depois canalizada e aproveitada.

O Acesso está sinalizado e qualquer veículo consegue lá chegar com facilidade. Fica o convite para uma visita e vão perceber que vale a pena! Atenção que, com o piso molhado, o empedrado fica muito escorregadio, uma verdadeira armadilha para motociclistas desavisados.

Tão ou mais importante é o facto de este passeio ter trilhado um troço da N2, nas freguesias de Santiago e Montalegre e Sardoal! Muitos dos nossos leitores/as já fizeram a mítica estrada na totalidade ou em parte, mas estes quilómetros que se percorrem no concelho de Sardoal são muitas vezes ignorados por 2 motivos: Primeiro o desconhecimento/falta de sinalização (fica o reparo para as autoridades competentes). Segundo, a via rápida que permite ligar Abrantes a Vila de Rei dá para “ganhar” facilmente uma hora ou mais de caminho, mas faz perder alguns recantos fantásticos, entre curvas e paisagens de perder a respiração!

Num passeio desta natureza há sempre alguns percalços. Aliás, a vida humana está cheia deles, mas o espírito e capacidade de “desenrasca” é algo que nos é inato! Além disso, a simplicidade mecânica destes motores e demais periféricos permite fazer reparações no local e na hora! Há sempre alguém por perto com conhecimento de mecânica suficiente, ou uma ferramenta milagrosa. Em caso de necessidade vai-se bater a alguma porta e aparece uma alma caridosa cheia de vontade de ajudar.

Se nada disso resolver… chama-se a viatura de apoio, que desta feita nem chegou a ser necessária! Assisti a uma reparação feita com… rolhas de cortiça! E o veículo sujeito chegou ao final do passeio! Só visto! E a festa continua após a chegada! No final do passeio, regressa-se ao ponto de partida e as máquinas mais ou menos reluzentes vão então poder descansar.

Algumas delas merecidamente pois acusam as muitas décadas que têm em cima, os seus corações cansados (a pedir um novo pistão e/ou segmentos), e muitas mazelas de guerra (também lhe podem chamar ferrugem), mas estão sempre prontas para mais uma aventura! Nem que para as colocar em funcionamento seja necessário um empurrão!


A hora de chegada é sempre ao anoitecer ou próximo disso e aí sobressai uma das maiores limitações destas máquinas gloriosas: a fraca iluminação! A maior parte dos sistemas elétricos são ainda de 6 volts, sem bateria… e a capacidade de iluminar é diretamente condicionada pela rotação do motor. Ou seja, a iluminação só se torna aceitável com muita rotação! Caem as rotações e a iluminação diminui! Para quem não está habituado pode até fazer alguma confusão e representar algum risco, mas faz parte…

O jantar é farto: comida caseira, feita no local, por gente que sabe, tal como o pão (o forno está ali mesmo à vista) tudo num ambiente descontraído. Associam-se à festa não apenas os participantes, mas também as pessoas da terra e alguns familiares dos que fizeram mais esta voltinha divertida e saudável.

Para os mais resistentes (alguns até já foram a casa deixar o seu ciclomotor e trazer um veículo mais confortável, leia-se automóvel) após o jantar há ainda animação musical! Os mais corajosos/as podem até ir dar um pezinho de dança enquaanto outros ficam simplesmente a apreciar o momento, enquanto confraternizam mais um bocado, bebem uma cerveja e didem umas mentiras (piedosas, entenda-se) sofre as reais capacidades do seu veículo que, em muitas situações era do avô, transportou os seus pais e, em breve, será também conduzido pelos filhos!

Participar nestes encontros/passeios está aberto a qualquer pessoa. Nem sequer tem que ter uma mota cintilante, com cromados a brilhar ou que tenha custado muitos euros. Isso é perfeitamente irrelevante. Ali todos são iguais e igualmente recebidos. Basta aparecer à hora marcada e trazer uns trocados para a inscrição.

Quem “apenas” tiver um motociclo não é posto à margem. Mas fica condicionado a ir no final da caravana. Não é segregação. É apenas por não ter “chapa amarela” e garantir que o ritmo da caravana é respeitado. Além disso, dá uma perspetiva muito agradável vir na traseira do passeio.

Na inscrição todos os participantes e penduras ficam automaticamente “cobertos” por um seguro. Claro que é um encargo adicional, mas é também uma forma de a organização “proteger” os participantes e minimizar os riscos, caso algo corra mal.

Há sempre um ou mais troços fora do alcatrão. É prática obrigatória. Nada muito técnico (embora implique cuidados adicionais) e é essencialmente para recordar que muitos destes veículos, na sua época, circulavam muito por maus caminhos… porque simplesmente não havia outros! Os menos jovens sabem perfeitamente do que estou a falar!
A organização obtém para o efeito uma autorização na autarquia e é comunicado à GNR que se vai realizar o evento. Ou seja, tudo é feito dentro das regras.

Uma derradeira nota, esta negativa, para a esmagadora maioria dos participantes que, em termos de segurança, não vai além do mínimo obrigatório, ou seja, o capacete! Nem umas singelas luvas nem um casaco de verão com proteções. Sei por experiência própria que uma queda num ciclomotor pode ser igualmente muito dolorosa! Está difícil mudar mentalidades, mas havemos de conseguir, espero eu!

Da minha parte conto de marcar presença na edição VII, em 2020. Aliás, espero poder ir a mais algum ainda antes dessa data!

andardemoto.pt @ 28-10-2019 14:58:16 - Pedro Pereira


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