Susana Esteves

Susana Esteves

Jornalista e motociclista

OPINIÃO

Quem arrisca… às vezes petisca o que não quer

Conhecem aqueles condutores fantásticos que andam sempre com o depósito cheio, que sempre que o nível de combustível passa de meio voltam a encher, e que (de forma responsável) nunca deixam chegar à reserva por causa das impurezas e dos riscos para a viatura? Eu não sou um desses.
Aliás, acho que os meus veículos já estão treinados para andar a “vapores de gasolina”.

andardemoto.pt @ 7-12-2020 19:49:55 - Susana Esteves

Sei que não é um bom princípio, que não o devia fazer e até já consigo enumerar alfabeticamente os inúmeros pontos negativos associados a esta minha “escolha” - até porque fazem questão de os sublinhar várias vezes num tom de censura, de crítica e até de desespero (Calma. Não parece, mas eu estou a ouvir).

Mas a verdade é que há coisas na vida que simplesmente não gostamos de fazer – tirar a loiça da máquina, ir ao médico, ir ao posto de gasolina, arrumar compras, ir ao posto de gasolina, cortar o cabelo, ir ao posto de gasolina…

- “Tu tens um problema! E qualquer dia vai acabar mal!”

Talvez, mas o problema não sou eu. É aquela voz matemática das probabilidades que domina parte da minha vida.

- Se a probabilidade de a reserva aguentar os 5 km que eu preciso fazer, sem ter de ir à bomba, for confortável – perfeito.

- Se a reserva aguenta 20 km, e o trajeto ida e volta são 15 – perfeito.

- Se a luzinha acendeu ontem, e eu só fiz 15 km. Então ainda me sobram 5. Ora só preciso de 2 – perfeito.

Eu não queria ouvir “a voz”. Mas o facto de ela ter um nível de eficácia muito elevado e de me desenrascar como ninguém criou um sentimento de carinho especial entre nós. 

- Ui, está trânsito e o depósito está na reserva. Vamos fazer contas rápidas ao tempo possível de espera, às subidas que existem, às alternativas com mais descidas (para o caso de ter de levar a mota à mão), velocidade controlada, pouca aceleração, aproveita o embalo. Será que a gasolina ainda chega para amanhã ir à bomba? É a descer até lá…, mas ainda tenho a rampa da garagem. Hummmm.


E quando não funciona? Sempre funcionou… até há pouco tempo. Não sei o que correu mal. Temos um relacionamento perfeito há tantos anos, mas quando a mota parou pensei: %&$#, %&$#&%, %$%#. E agora? $%#%%.

Podia ter acontecida durante o dia, perto de uma bomba, numa rua movimentada e bem iluminada? Claro que sim. Mas não foi o caso.

 Eram 23h, estava a chover, não se via ninguém na estrada, a bomba mais próxima estava a cerca de 1,5 km (sempre a subir) e a rua não tinha luz. E nesse momento várias coisas transitaram pela minha cabeça: Estou a ser castigada. Isto vai correr mal. Parece cenário de filme americano quando aparece um psyco qualquer com uma catana. A bomba está tão longe. Ouvi um barulho… É sempre a subir até à bomba. E se for o gajo da catana? Vou ligar a alguém. Mas vou ser criticada e gozada durante 6 meses. Não quero saber, mas despacho-me e não tenho de deixar a mota aqui neste sítio escuro. É isso, vou ligar. Mas vou ter de ouvir o discurso “i told you so”, és sempre a mesma coisa, etc etc. Vou a pé e não digo nada a ninguém. É isso! Mas vou ficar encharcada e doente. O meu casaco vai demorar dias a secar. Quando voltar a mota já foi roubada. Se calhar pelo tipo da catana. Mas vou. Como é que fiz mal as contas? Ainda devia ter gasolina para 2 ou 3 km. Mas porque é que isto me aconteceu a mim?

É claro que entre o meu orgulho e a possibilidade de me roubarem a mota naquela rua escura hollywoodesca, a vozinha matemática das probabilidades ganhou mais uma vez.

- Olá. Preciso de ajuda. Acho que a mota ficou sem gasolina. Sim, tu sempre disseste. Já sei. Mas a luz não estava acesa juro, se calhar fundiu. Traz-me gasolina que depois vou à oficina ver o que se passa.

Conhecem aquela velha expressão que usamos frequentemente quando queremos minimizar um problema: “Só não acontece a quem não anda na estrada.” Foi isso. A culpa não foi minha. Foi um azar.

Aprendeste a lição? Claro! Nunca, nunca mais.

 - “Está quase na reserva. Mas meto amanhã…”

Boas curvas


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