Pedro Pereira

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Só ando de moto em 2 locais: na estrada e fora dela!

OPINIÃO

Espelhos retrovisores: esses ilustres esquecidos!

Por vezes, os fabricantes dão preferência à forma sobre a função, mas a visibilidade é um aspecto que não pode ser descurado.

andardemoto.pt @ 14-2-2022 18:38:01 - Pedro Pereira

Nunca acompanhei de perto e na pura aceção do termo, um projeto de criação de uma moto, mas sei que é bastante complexo e exigente.

Tem de haver cedências e compromissos por parte de quem desenha/cria, de quem escolhe os materiais, por parte de quem faz o marketing e ainda da perspetiva ambiental, da segurança e do cumprimentos das normas de fabrico, bem como da gestão dos custos, entre outros.

Além disso, é fundamental um extenso período de testes (cada vez menor, graças à simulação digital), de forma a garantir que o produto final obedece a um conjunto de requisitos de funcionalidade, fiabilidade e de segurança que permitam a sua comercialização.

Por outro lado, nem sempre tudo corre como desejado e o caso dos espelhos retrovisores é disso um bom exemplo: ainda há pouco tempo testei uma moto nova e, a velocidades relativamente baixas (dentro dos limites legais), os mesmos eram perfeitamente inúteis!

A vibração era de tal ordem que os tornava quase um adereço! Esteticamente resultavam muito bem, mas em termos de funcionalidade eram uma pura nódoa! Circulando mais devagar minorava o problema, mas então surgia um irritante ruído aerodinâmico!


Não faço ideia se o que prevaleceu foi a forma ou se simplesmente não foram devidamente testados, mas sei que não é caso isolado!

Entretanto, numa moto já com algum tempo de mercado, a situação era bem diferente, mas também preocupante: com a moto parada tentei todas as formas de regulação e nenhuma resultou! Ou via apenas os meus ombros ou apenas as bermas da via! Não os consegui regular para o meu gosto pessoal!

O dono queixava-se do mesmo e já tinha adquirido uns não originais para aplicar, tal o seu desagrado!



Os espelhos retrovisores salvam vidas!

Quando andamos de moto estamos bastante expostos: aos outros veículos, ao estado do piso, aos elementos climatéricos e ao nosso próprio comportamento e atitudes!

Felizmente que os sistemas de segurança ativa e passiva evoluíram imenso nas últimas décadas! Falo de vestuário técnico, capacetes, airbag para casacos e motos, mas também de sistemas como o ABS ou o controlo de tração.

No caso dos retrovisores, a verdade é que não são assim tão fashion! Mais ainda para aqueles que, ao andar de moto, apenas olham para a frente e se esquecem do que se passa no espaço à sua volta ou atrás de si!

Para agudizar, há quem faça isso e tampouco utilize os indicadores de mudança de direção (vulgo piscas) quando quer abandonar a sua faixa, ou os deixa indefinidamente acionados (muitas motos não têm sistemas automáticos para os desligar). Ou seja, mais um elemento para ajudar ao desastre!Uma mudança de direção que não seja previamente preparada (não estou obviamente a considerar manobras de emergência) e comunicada aos outros utilizadores da via, tem tudo para correr mal e colocar em risco a segurança de quem a pratica… e a dos outros!

Remover os espelhos retrovisores, mesmo com os argumentos de que não ajudam no tráfego urbano, que são ruidosos, ineficazes, etc… é uma prática que não recomendo de todo e considero ainda pior do que conduzir como se eles não estivessem lá!

Além disso, não devemos esquecer o chamado “ângulo morto”, ou seja, a área imediatamente adjacente ao veículo, que o condutor não consegue ver quando olha para os retrovisores, e que é extremamente decisiva para nossa segurança!Felizmente que a tecnologia continua a evoluir e já estão a chegar às motos os sistemas de deteção do ângulo morto e de aviso de veículos que se aproximam. Porém, vai levar o seu tempo até estes sistemas serem verdadeiramente eficazes, e mais ainda até que se generalizem, dadas as singularidades de uma moto.

Por exemplo, num automóvel é simples: existem radares que “varrem” constantemente o que se passa atrás e nas laterais e avisam com um sinal de perigo e aviso sonoro. Sou fã destes sistemas e quando conduzo um carro que não os tenha... sinto-lhes a falta!

Nas motos é muito mais complexo. Basta o “pendura” mover-se ligeiramente para o sistema ficar confuso ou pendurarmos o ombro numa curva feita de forma mais “empenhada” e temos um falso alarme ou então o sistema é menos sensível e de pouco serve!

A perspetiva legal

Qualquer alteração de caraterísticas ao seu veículo pode ser alvo de contraordenação e até eventual apreensão, sendo que estas só podem ser efetuadas mediante autorização prévia do Instituto da Mobilidade e dos Transportes (IMT), mesmo quando até podem melhorar a segurança e conforto, caso de uns retrovisores “melhores”.

Veja-se a este respeito a Lei n.º 72/2013 e posteriores revisões (Código da Estrada), Capítulo II - Características dos veículos, Artigo 114.º, do qual cito o n.º 3:

"Os modelos de automóveis, motociclos, triciclos, quadriciclos, ciclomotores, tratores agrícolas, tratocarros e reboques, bem como os respetivos sistemas, componentes e acessórios, estão sujeitos a aprovação de acordo com as regras fixadas em regulamento".

Porém, a realidade é outra, seja por que motivo for: existem no mercado centenas de diferentes modelos, de várias marcas, cores, tamanhos e feitios de espelhos retrovisores, mais ou menos “universais”! A dificuldade é muitas vezes escolher, tal a oferta e diversidade!

Por outro lado, há que ter também presente que no nosso veículo podemos ter apenas um espelho! Nesse caso, qual escolher? Lado esquerdo ou direito? É indiferente? O que diz a legislação a esse respeito?

Sugiro a consulta do Decreto-Lei nº 86-A/2010, nomeadamente o artigo n.º 136 - Número mínimo de espelhos retrovisores, de que cito o n.º 3:

"Sempre que seja montado um único espelho retrovisor exterior, este fica situado no lado esquerdo do veículo".

Ou seja, já dá para se ficar com uma noção de como, até do ponto de vista legal, é reconhecida importância aos retrovisores e a necessidade de cumprir com as normas técnicas dos veículos e correspondente homologação.


Como devem ser utilizados?

Nos outros veículos, nomeadamente nos automóveis, a situação é bastante mais simples: têm quase todos regulação elétrica, alguns até memória, são asféricos e até podem ser aquecidos ou ter um sistema de anti embaciamento!

Além disso, são coadjuvados por um retrovisor interior que pode ser de grande utilidade. Pode até ser fotossensível, algo muito útil para evitar o encandeamento noturno!

Nas motos não temos essas mordomias e sobrevivemos. Porém o cuidado deve ser redobrado e o conhecido “virar a cabeça” não deve ser a única solução, seja porque é perigoso, sobretudo a velocidades mais elevadas, seja porque não é prático e até pode ser doloroso. Além disso, o próprio capacete (uns mais do que outros) vai reduzir o nosso ângulo de visão!

A minha sugestão é, sempre que possível, ajustar os retrovisores ANTES da condução e depois, já em andamento, verificar o resultado e, se necessário, fazer pequenos ajustes. Naturalmente que na nossa moto de uso diário este procedimento se torna mais simples e até quase dispensável, sobretudo se formos o condutor habitual.

Por outro lado, defendo que qualquer espelho retrovisor, mesmo não homologado, é melhor que não usar nenhum. Ainda assim, não deve servir de desculpa para andar a infringir a lei e temos de ser responsáveis pelos nossos atos, inclusive nas motos de enduro em que recomendo a utilização de pelo menos um, em plástico e escamoteável, do lado esquerdo.

Destaco ainda a importância de andarem limpos para melhorarem a visibilidade. Costumo usar o mesmo spray de limpeza que uso para a viseira do capacete.

A estratégia de limpeza com a luva não costuma dar grandes resultados, nomeadamente com chuva, sendo habitual acabar por ficar pior que antes! Com a palma da mão ou os dedos, o resultado consegue ser ainda pior!

Vou ficar por aqui. Espero ter conseguido passar a mensagem da importância da regulação, conservação e uso dos espelhos retrovisores, de modo a que nunca mais sejam “ilustres esquecidos”.

andardemoto.pt @ 14-2-2022 18:38:01 - Pedro Pereira


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