Pedro Pereira

Pedro Pereira

Só ando de moto em 2 locais: na estrada e fora dela!

OPINIÃO

Saudar ou não saudar? Eis a questão!

Não é preciso ser-se um fanático por William Shakespeare para fazer a analogia, mas para alguém mais distraído vou contextualizar um pouco, sem me alongar.

andardemoto.pt @ 30-3-2022 00:08:15 - Pedro Pereira

Nesta magnífica peça de teatro, escrita por volta do ano de 1600, Hamlet é um Príncipe Dinamarquês que, num sonho, recebe o fantasma de seu pai, assassinado pelo irmão Cláudio e que agora vive com a sua Mãe, Gertrudes, tendo usurpado o trono. 

O seu desejo de vingança, mais que legítimo, é enorme e num momento trágico e tendo nas mãos a caveira do pobre Yorick, Hamlet coloca a célebre dúvida existencial que todos conhecemos:To be or not to be, that is the question! Que é como quem diz, ser ou não ser, eis a questão!

Deixando-nos de reflexões de cariz mais ou menos filosófico, a verdade é que a típica e mais ou menos tradicional saudação motard, adorada por alguns, detestada por outros, ou simplesmente ignorada, pode ser um bom tema de reflexão para esta crónica que se resume numa questão:

- Vocês praticam ou não a saudação motard? E porquê?


Qual a origem desta saudação?

Segundo consta, o mérito inicial, mais acidental, diga-se de passagem, deve-se ao piloto Inglês Barry Sheene (nasceu em Inglaterra em 1950 e faleceu em 2003, na Austrália), bicampeão mundial na categoria rainha, tendo conquistado dois títulos consecutivos nas “ferozes” 500cc em 1976 e 1977, com a Suzuki RG 500.

Ao que consta, no início da sua carreira, tinha o hábito de, no final das provas em que era vencedor, saudar a assistência, os fotógrafos… com a mão em V, de vitória.

Ainda não existiam redes sociais ou internet, mas a televisão tinha já grande projeção mundial, tal como os jornais e aquele gesto foi rapidamente globalizado e adotado pela comunidade motard! A saudação tornou-se um símbolo de fraternidade, de pertença e partilha de valores como a liberdade ou o espírito de entreajuda por todos os que andavam em duas rodas por esse mundo fora.

Na década de 70 vivia-se um ambiente que respirava liberdade, muitas ditaduras tinham terminado (incluindo a nossa), tal como guerras (Vietname, guerras com ex-colónias…) e até se estava a assistir a uma relativa situação de melhoria económica e social.

Apesar disso, era bem menos comum a realização de encontros de motards ou, simplesmente, duas motos cruzarem-se, o que era motivo de alegria, a ponto de a saudação motard se tornar praticamente obrigatória, sendo parte essencial do código de honra motard. 

Gradualmente o número de pessoas que andavam de moto foi crescendo e perdeu-se um bocado dessa mística e magia, o que levou também ao declínio desta tradicional forma de saudação, surgindo outras complementares como acenar a cabeça para a frente, tipo vénia, esticar a perna do lado em que se cruzam ou apenas levantar ligeiramente a mão.


Outras representações gestuais usadas pela família motard

Com a generalização das tecnologias de comunicação, nomeadamente os intercomunicadores, telemóveis inteligentes, sistemas de navegação… está a alterar-se radicalmente a forma como interagimos em grupo ao andar de moto, mas ainda assim há muitas formas de comunicar por quem anda de moto e que convém conhecer e, porque não, por também em prática. 

Deixo alguns exemplos, sem me procurar que sejam exaustivos. As duas primeiras situações são com a moto parada e as restantes para a circulação diária, nomeadamente em grupo:

  • Avaria/falta de gasolina: estacionar na berma, em local visível e pousar o capacete no chão, idealmente atrás da moto, para que funcione como espécie de “triângulo de perigo” motard. Assim os outros, nomeadamente os motociclistas, sabem que existe um colega em apuros e podem tentar ajudar;

  • Parado/a junto à mota a acenar: representa, por regra, uma situação de perigo ou máxima atenção. Cabe a cada um/a decidir como agir, mas deve ficar atento/a e adotar uma postura mais defensiva;

  • Usar o braço direito ou esquerdo em posição longitudinal subindo e descendo levemente a mão: recomendação para abrandar, em segurança. Pode ser existir um cruzamento em breve, um obstáculo na estrada, piso degradado. Pode ser complementado com leves toques na manete ou pedal de travão, sendo que a luz de stop alerta quem vem atrás;

  • Usar o braço direito ou esquerdo para indicar mudança de direção: há motos sem os vulgos “piscas” (e quem nem saiba o que são) e esta pode ser uma forma de facilitar a condução dos restantes condutores, sobretudo quando vamos em grupo;

  • Abrir a fechar a mão em formato “bico de pato”: usa-se quando nos cruzamos com outro veículo (motard ou não) e o queremos alertar para o facto de não ter as luzes acesas ou estarem na posição de “máximos”. Lembro que nas motos mais antigas as luzes não ficam automaticamente acesas logo ao ligar o motor e são cruciais para a nossa segurança;

  • Apontar repetidamente para o depósito de gasolina: necessidade de abastecer o mais rápido possível. É péssimo ter uma pane seca e pode ser até perigoso. Lembro que, atualmente, nas bombas de combustível já não se vende a dita em garrafas de água e podem ter que adquirir um jerrican, o que representa uma despesa adicional;

  • Levantar e abanar repetidamente a mão para os lados, com o indicador elevado em forma de negação: engano na estrada/caminho. Há que fazer inversão de marcha assim que for possível e em segurança;

  • Apontar com a mão repetidamente para o motor, quadro, rodas: há algo que não está bem na moto. Pode ser motor, suspensões, um furo, mas há que parar logo que possível e verificar o que está a acontecer;

  • Fazer “sinais de luzes”: há quem use como saudação, como indicação de autoridades próximas, que vai ultrapassar (vulgo passing) ou qualquer outro motivo. Atenção que é de legalidade duvidosa e pode ser perigoso, sobretudo porque pode causar encandeamento;

  • Apontar repetidamente para a zona de carga da moto, topcase, alforges: há algo que não está bem. Importa parar logo que possível e verificar o que se passa com a carga;

  • Braço esquerdo aberto com a mão aberta e palma virada para a frente em movimentos repetitivos: indicação para sermos ultrapassados (sim, também pode acontecer). Garante uma manobra pelos outros condutores/as em segurança e mostra que estamos atentos. Nos países onde se conduz “pela esquerda”, usa-se o braço direito;

  • Apontar com o dedo indicador na direção dos olhos e num ponto da paisagem: chamar a atenção aos outros motards para algo que vale a pena ver e que se destaca na paisagem. Pode ser uma boa desculpa para uma paragem;

  • Elevar o polegar com a mão fechada: forma de agradecimento (fundamental), sobretudo quando nos facilitam as manobras. Nunca é demais ser simpático/a;

  • Bater com a palma da mão sobre o capacete repetidas vezes: fiz asneira! Uso muitas vezes quando deixei passar o cruzamento pretendido ou não me desviei a tempo da cratera na estrada (e são tantas), entre outros.

E pronto! Já fica aqui um bom exemplo de várias representações gestuais que nos podem ser muito úteis no nosso dia-a-dia. Certamente que conhecem e aplicam mais, mas enquanto não se cria um Código da Estrada Gestual para Motards este é um pequeno ponto de partida!

Deliberadamente não mencionei os gestos obscenos e agressivos porque, na minha ótica, não fazem parte da cultura motard e a verdade é que todos erramos e não somos donos da verdade.

Afinal de contas, saudamos ou não?

Chegámos quase ao final desta crónica sem termos uma resposta conclusiva, se é que ela existe! Tem que ser uma opção pessoal e é fundamental respeitar os que pensam de forma diferente.

O facto de saudar outro condutor/a não ser correspondido/a não faz dessa pessoa a pior do mundo, a mais mal-educada e indigna de andar de moto! Pode simplesmente ir muito focada na condução, estar absorta nos seus pensamentos, entretida a olhar para os manómetros ou, mais simples ainda, não concordar com esse ritual e não querer tomar parte dele!

Conhecem o ditado “O tamanho importa?” Tem imensas aplicações e no universo motard também. Tenho o privilégio de conduzir motos muito diferentes e sinto que se for numa pequena scooter ou uma cinquentinha sou facilmente ignorado, mas se for numa moto grande… parece que até os condutores dos automóveis são mais meus amigos. Estranho, mas real!

Por outro lado, há imensa gente, sobretudo nas principais urbes, que faz da moto o seu sustento, em especial nas entregas de comida e afins. Andam stressadíssimos, pressionados pelo tempo, pelo patrão e pelos clientes e nem sequer se lembram da saudação ou da cultura motard.

Por princípio, gosto de saudar, sendo ou não correspondido, mais ainda quando vou em ritmo de passeio e a desfrutar da viagem. Em vez da saudação com o tradicional V prefiro o acenar com a cabeça (leia-se capacete) por considerar que é mais cómodo e seguro e não uso a perna como forma de saudação, não se vá dar o caso de ainda ficar sem ela!

De qualquer modo, na minha perspetiva, mais importante que a saudação motard é mantermos bem viva a cultura e o espírito motard de ajuda mútua e solidariedade, nomeadamente quando encontramos um/a motard em dificuldade.

Também tenho o hábito de, numa eventual paragem, “meter conversa” com outros/as motards, apenas porque sim, mas eu não sou exemplo para ninguém!

Fico por aqui. Saudações motards para todos/as.

andardemoto.pt @ 30-3-2022 00:08:15 - Pedro Pereira

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