Rali Dakar 2021 – A Honda conta-nos os detalhes da vitória de Kevin Benavides
Com Ruben Faria e Hélder Rodrigues aos comandos dos destinos da Monster Energy Honda Rally Team, a marca japonesa celebrou em 2021 a segunda vitória consecutiva no prestigiado Rali Dakar. A prova saudita foi conquistada pelo argentino Kevin Benavides, e agora a equipa conta-nos os detalhes que permitiram vencer.
andardemoto.pt @ 29-1-2021 20:15:53
A vitória da Monster Energy Honda Rally Team na 43ª
edição do Rali Dakar foi mais um momento alto na longa história da marca
japonesa no mundo da competição em duas rodas. A segunda vitória consecutiva no Dakar, depois da obtida
por Ricky Brabec em 2020, foi conseguida por Kevin Benavides, com o anterior
vencedor Brabec a secundar o seu companheiro de equipa no pódio final em Jeddah
numa dobradinha histórica.
A formação de fábrica da Honda conta com uma equipa experiente, onde se
destacam as presenças de Ruben Faria, como diretor geral da equipa, mas também
de outro português, Hélder Rodrigues, este com funções de estratega que define
o melhor plano de ataque tendo em vista o resultado final.
Mas o sucesso dos dois portugueses, que inevitavelmente levou ao sucesso de
Kevin Benavides e Ricky Brabec, é fruto de todo um conjunto de fatores que
permitem à Monster Energy Honda Rally Team superiorizar-se a rivais de peso
como a KTM, Yamaha, Husqvarna, Hero Motorsports entre outros fabricantes que
têm no Rali Dakar a sua oportunidade de brilhar.
Agora que as emoções do Dakar acalmaram um pouco, Taichi Honda, diretor de
operações de Offroad da Honda Racing Corporation, conta-nos os detalhes que
levaram a mais um resultado fantástico para o gigante japonês.
“Para se destacar numa prova tão extrema
e exigente como é o Rali Dakar, é preciso experiência e conhecimento técnico
que não podem ser comprados. É preciso ganhar na pista”, explicou Honda-san
em Jeddah.
“A prova é só uma vez por ano, então só
temos uma hipótese de fazer as coisas bem feitas. Temporada após temporada,
recolhemos dados de diferentes tipos de terreno e das situações de corrida mais
imprevisíveis. Houve alguns anos em que os pilotos deram tudo o que tinham, mas
por um motivo ou por outro, a moto não estava a 100% ou a equipa não rendeu
tudo o que podia. Noutras edições, foi o contrário. Finalmente, no ano passado
todo o conjunto, moto, equipa e piloto estiveram a 100% e por isso ganhamos. O
objetivo para o Dakar de 2021 era repetir este feito, porque ganhar uma vez é
ótimo, mas se vencermos duas vezes, aí é que realmente podemos dizer que temos
um trio vencedor”.
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A moto – Honda CRF450 Rally
Numa prova que dura duas semanas, com terrenos e condições tão exigentes, é
fundamental encontrar o melhor equilíbrio entre performance e durabilidade da
moto. “Todos os dados recolhidos nas provas da América do Sul desde 2013 foram
a base para ajustar a moto e dar o passo para a vitória”, conta Taichi Honda.
A Honda venceu com Ricky Brabec em 2020 e usou os dados recolhidos na altura
para desenvolver a sua moto para este ano.
“Trabalhámos aspetos como a durabilidade, tendo em mente os diferentes tipos de
terrenos e caminhos, mas também o facto de a corrida se ter tornado mais
exigente em termos de consumos de combustível e, por isso desenvolvemos ainda
mais os mapas de alimentação de combustível, de forma a conseguirmos uma utilização
ainda mais eficiente”, continua. “As suspensões foram atualizadas e trabalhámos
também na durabilidade do próprio motor”.
A manutenção é um fator fundamental para a equipa e também para os pilotos, que
além de pilotos e navegadores habilidosos, têm de ser bons mecânicos, capazes
de trabalhar nas motos durante as etapas.
“Ao longo dos anos, a CRF450 Rally foi simplificada de forma a facilitar a
manutenção. Quando entrámos na prova de 2013 não sabíamos o que nos seria
exigido, e por isso a moto era mais do que o precisávamos”, admite Honda-san. “Temporada
após temporada, com a experiência, a moto foi ficando cada vez mais fácil de
manter. Lembro-me bem daquelas noites na América do Sul em que terminávamos de
trabalhar nas motos à meia-noite!”.
Galeria de fotos da Honda CRF450 Rally
A equipa – Monster Energy Honda Rally Team
Ter uma visão clara, uma estrutura eficiente, uma estratégia forte e partilhada
entre todos os membros. Estes foram os três pilares que elevaram a Honda, enquanto
equipa, ao próximo nível: não apenas vencer uma vez com Ricky Brabec em 2020,
mas repetir o sucesso com Kevin Benavides em 2021.
“Todos na equipa sabiam o que fazer, pois tinham um programa claro e uma agenda
planeada de antecedência”.
A chegada de novos membros à equipa, como Ruben Faria, que entrou como chefe de
equipa em 2020, e a reorganização da equipa com Hélder Rodrigues como estratega
de prova, Johnny Campbell como assessor e estratega de pilotos, para além de
uma estrutura clara onde cada piloto contava com mecânico e assistente pessoal,
trouxe tranquilidade e conforto, numa prova que pode ter as condições mais
imprevisíveis, extremas e duras para os veículos, para o corpo e para a mente
dos pilotos.
“Começámos a trabalhar na edição 2021 no dia seguinte ao da conquista da edição
de 2020 por Ricky Brabec”, explica o diretor-geral da equipa, Ruben Faria. “Foi uma grande conquista para a Honda e
para a equipa Monster Energy Honda, mas no fundo ficamos também muito tristes
pela perda de Paulo Gonçalves. O Paulo fez parte da equipa, era um de nós,
companheiro e amigo”, confessou Faria em Jeddah antes do início da prova. “Tínhamos apenas um objetivo em mente:
vencer em 2021 para podermos ter uma dupla celebração, repetir o sucesso da
Honda e do Paulo. Toda a equipa tinha esta mesma visão”.
A preparação da temporada de corrida de 2021 foi muito afetada pela pandemia
que fechou o mundo. Diferente dos anos anteriores, as motos foram montadas e
preparadas no Japão e depois enviadas para a oficina da equipa em Barcelona,
onde os mecânicos trabalharam mais um mês antes de as motos e os veículos de
assistência serem enviados do porto de Marselha para Jeddah no dia 3 de dezembro.
Como medidas de mitigação devido à pandemia, a equipa decidiu adotar um
protocolo rígido para ter a melhor probabilidade da prova correr de forma
segura e tranquila. “Decidimos reduzir ao mínimo o quadro de funcionários, mas
sem sacrificar a eficiência”, explica Faria.
“Por exemplo, tivemos dois engenheiros do Japão em vez de seis ou sete como nas
edições anteriores. A tripulação contou com 24 pessoas, incluindo os quatro
pilotos: um mecânico dedicado por cada moto mais um mecânico-chefe, dois
engenheiros, o técnico de suspensões, um ajudante por cada piloto e também o
coordenador da logística, o responsável pelas peças sobressalentes, dois
fisioterapeutas, os estrategas de prova e o assessor de imprensa”.
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A prova – O imprevisível Rali Dakar 2021
Assim que o Rali Dakar começou, todos puderam entrar no ritmo de uma rotina
diária bastante árdua. “O Rali Dakar é uma experiência única, que nos muda a
vida, seja a dos pilotos ou a da equipa”, explica Johnny Campbell, o “Rei de
Baja”, com participação como piloto em diversos Dakar (inclusive como piloto de
fábrica da Honda em 2013, ano em que a marca voltou ao Dakar) e, agora, é
estratega de prova da equipa Monster Energy Honda.
“Quando nos inscrevemos para participar no Rali Dakar, saímos da nossa zona de
conforto para experimentar a vida e ter uma aventura incrível a nível humano e
profissional”, continua Campbell.
Johnny trabalha em estreita colaboração com todos os pilotos, especialmente com
Ricky Brabec e Nacho Cornejo. “Na equipa, todos têm uma tarefa específica, mas
esta move-se como uma unidade. No acampamento, lado a lado com os nossos
companheiros. Dorme-se coberto de pó, em pequenas tendas sem ar-condicionado.
As noites extremamente frias dão lugar a dias de calor asfixiante e andar de
etapa em etapa é uma tarefa longa e árdua”.
O despertador toca a meio da noite. “Acordamos uma hora e meia antes dos
pilotos”, explica Eric Siraton, mecânico de Ricky Brabec. “Todos os dias são
diferentes, mas considerando que o primeiro piloto sai entre as 4 e as 5 da
manhã, normalmente acordamos por volta das 3 horas ou das 3 e meia. Assim que
os pilotos saem e de acordo com a extensão da etapa, ou tomamos o
pequeno-almoço ou entramos no carro para ir ter ao primeiro posto de
assistência ou ao próximo acampamento para preparar as boxes. Em média, é uma
viagem que dura cinco ou seis horas”.
Já no acampamento, os mecânicos comem e depois aguardam a chegada dos pilotos,
o que costuma acontecer entre as 12:30 e as 15 horas. “Assim que os pilotos
chegam, temos um briefing técnico e depois começamos a trabalhar nas motos”,
continua Eric. “Se não houver nenhum problema específico, desmontamos apenas
metade da moto, o que pode levar duas ou três horas. Se houver um problema,
pode demorar bastante mais”.
Como o roadbook é entregue apenas 20
minutos antes do início da etapa, após o briefing técnico, os pilotos podem
descontrair e trabalhar com o fisioterapeuta. Miguel Angel Dominguez e Filippo
Camaschella são os dois fisioterapeutas que trabalham uma hora e meia todos os dias
com os pilotos para os ajudar a recuperar após um dia de prova – a mais longa
foi a exaustiva etapa quatro em que percorreram 856 kms aos comandos da CRF450 Rally.
Angel Dominguez já tem experiência na Fórmula 1 e Camaschella faz parte da
equipa de motocross da HRC que venceu o Campeonato Mundial em 2019 e 2020 com
Tim Gajser.
“Assim que os pilotos chegam, damos-lhe uma bebida especial para a reidratação,
vão tomar duche, almoçam e depois fazemos uma sessão de 90 minutos de Terapia
Tecar para regenerar as células e estimular a microcirculação”, diz Angel
Dominguez. “Depois continuamos com a fisioterapia e a crioterapia. Eu trago sempre
todas as máquinas comigo”.
“Trabalhamos o corpo todo”, diz Camaschella. “O nosso trabalho ajuda realmente
a acelerar a recuperação e a prevenir lesões. Kevin Benavides, por exemplo,
sofreu um corte profundo no nariz e lesionou os dois tornozelos num acidente.
Depois da nossa sessão, sentiu-se muito melhor e foi capaz de começar no dia
seguinte em condições muito melhores”.
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“Vencer em equipa para uma dupla celebração”
O excelente trabalho da Honda, enquanto equipa, resultou na vitória de cada um
dos quatro pilotos numa etapa, mantendo-se todos na disputa pela vitória geral
até a décima etapa, num total de 12.
Numa demonstração de quão implacável pode ser o Dakar, uma queda de Nacho
Cornejo na etapa 10 resultou na sua desistência e um erro na etapa 11 foi o
suficiente para colocar Joan Barreda fora da luta, já que falhou uma paragem
para reabastecimento na especial de Al-Ula para Yanbu.
“Na Honda, vivíamos um momento muito especial tendo quatro pilotos como
potenciais vencedores. Não recebemos nenhuma ordem da equipa. A nossa
estratégia sempre foi livre”, explicou Kevin Benavides. “Eu sabia que a segunda
semana ia ser ainda mais exigente. Ao olhar agora para trás, vejo que foi uma
corrida maluca com reviravoltas constantes. Ganhei a nona etapa, mas o meu
irmão caiu e eu estava muito preocupado com ele. Depois tivemos a queda do
Nacho quando estava na posição de líder da geral e o Joan teve que abandonar na
etapa 11 quando faltava apenas um dia para chegarmos ao fim”.
“A navegação foi o fator-chave para vencer o Dakar 2021. Este foi o rali mais
difícil que já fiz, com uma luta constante e tantas mudanças na liderança”
confessa Benavides, que triunfou e conquistou a sua primeira vitória no Dakar a
15 de janeiro de 2021. “A pressão foi sempre muito alta. Mas toda esta
incerteza ainda me motivou mais. Foi uma prova interessante, mas que exigiu que
fossemos uma equipa unidade e completa para podermos triunfar”.
O caminho para a vitória
Houve um momento na etapa 12 em que Kevin Benavides achou que tinha perdido a
corrida. “Estava à frente a abrir caminho, mas ao Km 14 cometi um erro e tive
que dar meia-volta e tentar achar o caminho certo. Estava preocupado que isso
me pudesse custar a vitória”, disse ele na linha de chegada. “Não se consegue
fazer um Dakar perfeito. Cometi os meus erros e conheci a dor, mas o desejo de
vencer foi mais forte. Percebi que tinha ganho apenas no último metro”.
Com o dedo a apontar para o céu e abraçado a toda a equipa, que se alinhou no
final da última especial, Kevin
Benavides dedicou a sua primeira vitória no Dakar a uma pessoa “que sempre esteve
com ele: Paulo Goncalves”.
Assim, após 12 dias, mais de 4.500 quilómetros de prova e quase 50 horas em
cima da moto, a equipa Monster Energy Honda chegou à tão almejada segunda
vitória consecutiva, desta vez com Kevin Benavides e com o vencedor do Dakar de
2020 Ricky Brabec em segundo. Os dois pilotos ficaram separados por menos de
cinco minutos.
“Para vencer o Dakar é preciso ser um piloto completo, mas também é necessário
ter uma equipa completa e todos os nossos elementos desenvolveram ao longo dos anos
as capacidades necessárias”, explica Faria, o diretor geral da equipa. “Os
pilotos sozinhos não conseguem vencer a prova offroad mais longa, cansativa e
sem dúvida a mais aclamada em duas rodas. É preciso uma equipa”.
Galeria de fotos dos melhores momentos da Monster Energy Honda no Rali Dakar 2021
andardemoto.pt @ 29-1-2021 20:15:53
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