Pedro Pereira

Pedro Pereira

Só ando de moto em 2 locais: na estrada e fora dela!

OPINIÃO

A, B, C do equipamento “fora de estrada” - Parte I

Logo na mais tenra infância foi-nos ensinada uma noção de anatomia muito básica, mas que fica para toda a vida: considera-se que o corpo humano se divide em 3 partes: a cabeça, o tronco e os membros!

andardemoto.pt @ 2-4-2019 08:37:00 - Pedro Pereira

Não me parece que esteja errada, o que não invalida que não possam existir outras diferentes, como por exemplo, aquela que considera existirem 4, sendo o pescoço a quarta parte!

De qualquer modo, para ser diferente, vou propor-vos que esta divisão, a pensar nos equipamentos e demais indumentária de proteção mais vocacionada para o fora de estrada e de aventura, seja feita em 3 partes que não seguem os cânones da anatomia:

Parte I: cabeça e pescoço, que será o alvo deste artigo;

Parte II: tronco e membros superiores, artigo seguinte;

Parte III: membros inferiores, derradeiro artigo desta trilogia.


A importância de proteger a cabeça e respetivos órgãos

Numa lógica meramente ficcionada, podemos dizer que na cabeça está a sala de controlo de toda a máquina que é o corpo humano. É lá que estão alojadas as bases de funcionamento do nosso organismo. Por ali “moram” neurónios, axónios, há sinapses… o que traduzindo para uma linguagem mais simples significa que o nosso cérebro é onde acontecem os milagres que nos permitem viver, andar de mota, amar, ter memórias, falar, dormir e até pensar estas linhas que depois vocês vão poder ler…

Mais interessante ainda, na cabeça não reside apenas o cérebro. É lá que estão também os nossos principais sentidos: a visão que nos permite receber e depois processar a maioria dos estímulos do exterior, a audição (fundamental para andar de mota, sobretudo fora do asfalto, esqueçam os protetores auriculares), o olfato (não tão útil para andar de mota) e o paladar (que não faz mesmo grande falta aqui). Além disso, temos ainda o nariz e a boca que são a “admissão” para o organismo: por ali entram o oxigénio e os nutrientes essenciais à nossa sobrevivência.

O pescoço tem várias funções, mas em especial duas: serve de suporte à cabeça (daí ser bastante musculado) e, ao mesmo tempo, protege as vias que levam os alimentos, o oxigénio, o sangue, bem como a via rápida por onde circulam as ordens do cérebro e a resposta das várias partes do organismo…

Simplificando, pescoço e cabeça são cruciais para a nossa sobrevivência pelo que tudo o que possa ser feito para os proteger e garantir a sua integridade nunca será demais.



Escolher e cuidar do meu Capacete

Carinhosamente tratado por K7, é, provavelmente, o elemento mais importante na proteção individual quando se anda de mota, sendo que por cá é, erradamente (na minha opinião), o único que é obrigatório! Defendo que deviam ser mais os equipamentos obrigatórios, caso das luvas ou de um blusão…

A escolha de um capacete é tão ou mais importante que a da mota, passe o exagero! NUNCA nos devemos separar dele, nem que seja apenas para ir até ao café ou ir testar uma mota até ao fim da rua! O K7 é o nosso melhor amigo e como tal deve ser tratado, escolhido e acarinhado!

A sua escolha deve ser algo bem ponderado e não recomendo a ninguém a compra de capacetes usados, mesmo que aparentem estar em muito bom estado! Não me choca a compra de um blusão usado ou umas botas, mas não a de um capacete. Pode ter sofrido uma queda que lhe causou danos estruturais, apesar de por fora parecer intacto! Não vale o risco! Repito, não vale o risco!

Existem vários estilos e formas de capacetes, mas com perfil menos estradista temos os capacetes tipo aventura (geralmente integrais ou mesmo modulares, mas com pala e alguns até com viseira solar e outros extras) e os puros “off-road” apenas com pala e sem mais grandes mordomias. Não considero aqui os capacetes abertos para uso fora da estrada, exceto em competições de trial em que é essencial ouvir bem o que se passa à nossa volta e ter um angulo de visão maior. A escolha entre os primeiros e os segundos tem a ver com o gosto pessoal e também com o uso a que se destinam. Se for para um uso mais “radical”, mesmo não sendo em competição, usar sempre capacetes “off-road” é a minha sugestão.

O tamanho aqui importa e muito! Um capacete tem que “assentar” bem na cabeça! Ser confortável, mas não demasiado grande… ou demasiado pequeno! Justo, sem magoar, alguma folga sem dançar, além de que com o uso pode haver um ligeiro alargamento do mesmo! A forma de medir o tamanho é simples: basta pegar numa fita métrica e ver o quadro em baixo.

Isso não invalida que não existam cabeças com “formatos” diferentes (mais redondas, mais achatadas ou ovais), tal como fabricantes de capacetes. Por isso, a regra é testar sempres antes de comprar, nem que seja o de um Colega, sobretudo se for para comprar por via eletrónica. Já agora, o tamanho do cabelo, ou a ausência dele, também influenciam!

Se o tamanho importa, o mesmo vale para os materiais de que é feito! Pode ser à base de fibra de vidro, policarbonato, fibra de carbono… com consequentes diferenças de preço e de peso! O mais importante é que tenha bons níveis de conforto e, ainda mais, de proteção. O sistema de classificação inglês Sharp é uma boa ajuda, mais ainda por ser independente. Nunca compro um capacete sem consultar este site, embora não tenha tanta informação como gostaria para este tipo de capacetes!

Também o interior do mesmo é crucial. Tem que ser bem ventilado, desmontável, lavável e em tecido hipoalergénico até porque no fora de estrada vai suar bastante e a poeira e afins vão aderir imenso. Se não cuidar do seu capacete rapidamente vai ter nojo dele!

Quanto ao sistema de fecho, recomendo vivamente o de duplo anel por considerar que é mais seguro e fiável, embora mais demorado a tirar do que um de anel simples ou fecho micrométrico. Considero que se justifica perfeitamente a demora adicional.

O preço pesa e de que maneira, agravado pelo facto de uma queda mais severa ser suficiente para inutilizar um capacete e não recomendar que, por muito estimados que sejam, sejam usados mais que 5 ou 6 anos (todos os meus de TT são reformados bem antes disso). 

Um capacete custar 200 euros e outro “parecido” custar 600 têm que existir diferenças. Pode ter a ver com acabamentos, marcas, extras, cores (geralmente os monocromáticos são menos caros e um réplica muito mais), mas essencialmente o que mais influencia é a sua composição! Um K7 de fibra de carbono pode pesar menos 300 g e custar mais 300€ sem que seja necessariamente mais seguro! São escolhas! Ah! Lembro ainda que há bons capacetes produzidos em solo nacional e pode “comprar o que é nosso”! nem sonhem em “furar” um capacete (já vi disso) para poder ter um ponto de fixação para a vossa action cam! Esse singelo “furinho” pode comprometer a segurança de toda a estrutura e a vossa!

Num capacete do tipo “off-road” a própria pala tem um papel essencial de proteção: contra a projeção de detritos (pedras, lama, areia, insetos…), vegetação mais cerrada, do sol e tem que ser complementada com uns bons óculos de proteção… que têm que ser perfeitamente “compatíveis” com os “óculos de ver”, para quem deles necessita!

Há-os de vários tipos e cores, podendo até fazer pandam com a cor do capacete, da mota ou do equipamento! O importante é que protejam a visão e a região do nariz e com um bom campo de abertura e conforto. Atenção especial à escolha das lentes e respetiva cor. Por exemplo, umas lentes espelhadas não são a melhor opção para ambientes pouco iluminados. 

Além disso, podem ter 2 acessórios muito úteis: Os roll-off (um filme que vamos desfilando sobre os óculos e assim limpando grande parte do que lá se acumula). Os tear-off que são películas plásticas que se podem ir retirando à medida do uso e a lente principal continua limpa e protegida. Gosto particularmente destes últimos. Lembro ainda que limpar a lente em andamento com a luva é meio caminho para a riscar e inutilizar...e ter que comprar outra!

Antes de irmos ao pescoço, ainda duas recomendações: usar sempre, com frio ou calor, protetor labial (para evitar as agressões do ambiente, incluindo do sol e do frio) e protetor solar, sendo que este último é para usar com moderação e escolher, se possível, um que não cause ardor nos olhos! Porque vai tender a “escorrer” com a transpiração e causar irritação nos olhos o que é desconfortável e sei do que estou a falar na primeira pessoa porque já cometi esse erro em tempos e chorei bastante à conta dele!

Quanto à proteção do pescoço, uma recomendação prévia: não recomendo o uso de fios e afins. Facilmente se podem prender em algum lado ou só com o atrito e chegarem ao fim da voltinha sem eles! Falando de proteções, existem aquelas “regueifas” gigantes acolchoadas cuja proteção é diminuta e ainda causam um calor adicional e os colares cervicais. Estes tiveram um grande impulso há cerca de uma década atrás e são particularmente recomendados para quem quer fazer viagens longas, tipo uma ida a Marrocos ou uns belos estradões no nosso Alentejo. Na prática, servem para, em caso de queda, expandir as ondas do impacto para longe do pescoço e assim evitar lesões em especial na medula (tetraplegia diz-vos alguma coisa, certo?)

O seu uso não é consensual sendo que há diversas queixas de clavículas partidas pela suposta ação do colar (eu sou uma delas), mas antes uma clavícula que uma vértebra! Além disso, não são propriamente baratos e reduzem um pouco o angulo de alguns movimentos…

Não me vou alongar mais. A parte II fica prometida para breve!


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