Pedro Pereira

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Só ando de moto em 2 locais: na estrada e fora dela!

OPINIÃO

A, B, C do equipamento “fora de estrada” - Parte III

Depois de termos abordado a Sala de Controlo (cabeça e pescoço) e a Casa das Máquinas (tronco e membros superiores) ficaram a faltar os membros inferiores. Usando a mesma lógica, podemos dizer que agora vamos abordar a proteção do Grupo Propulsor do nosso corpo.

andardemoto.pt @ 1-7-2019 18:44:16 - Pedro Pereira

Quando se anda de mota, todo o nosso corpo é posto à prova e a atenção deve ser permanente. Quando se anda fora da estrada, mesmo que não seja em competição, os membros inferiores são permanentemente solicitados: andamos constantemente a fletir as pernas, passamos muito tempo de pé, tiramos os ditos dos respetivos apoios para “ajudar” nas curvas, apertamos a mota com os joelhos e pernas e os pés, ainda que dentro das botas, sofrem imensos impactos, sobrecargas e embates, já para não falar das situações em que são solicitados para ajudar a puxar ou empurrar a mota, frequentemente em pisos molhados, irregulares e escorregadios…

Ou seja, os nossos membros inferiores devem ser também alvo de uma proteção especial para quem conduz no todo terreno e, já agora, convém não esquecer que na região da cintura está ainda a zona pélvica e, em particular, os genitais que, no caso masculino, estão bastante expostos e merecem uma proteção especial, mas já lá vamos!

A escolha das calças

Se chegaram até aqui e leram a parte I e II já certamente perceberam que o equipamento para andar fora do alcatrão é específico e não vale a pena andar a inventar. Para complicar um pouco mais, existem ainda diferentes tipos de equipamento, como vamos ver com as calças, com perfis distintos, consoante o fim a que se destinam!

Para uma utilização mais descontraída fora da estrada, umas calças de aventura, também conhecidas por do tipo rally, são uma boa escolha. Costumam ser bastante confortáveis e resistentes, à prova de água, geralmente até com forro interior que pode ser retirado, vários bolsos, excelente ventilação, zonas almofadadas, por exemplo para a região do cóccix, reforços na zona das virilhas… e costumam usar-se por fora das botas!

Em oposição, temos as calças usadas para o fora de estrada “puro e duro” que são bastante diferentes: menos rígidas, sem bolsos ou quase nenhum, geralmente sem forro interno, feitas à base de tecido e com reforços em zonas específicas também, nomeadamente no interior das pernas e virilhas para proteger, em especial, das eventuais queimaduras do escape. São ainda mais moldáveis ao corpo e usam-se por dentro das botas!

A escolha entre umas e outras fica ao critério e uso pretendido por cada um, tendo sempre presente que os fins a que se destinam não são rigorosamente os mesmos, embora sejam parecidos.

Falando de tamanhos, também aqui é uma regra de ouro testar previamente. Pode ser na loja antes de comprar ou experimentar as de uma pessoa amiga, mas nunca comprem às cegas, mais ainda se for online em que o erro no tamanho pode trazer complicações ou custos para devolução ou troca. Além disso, sempre que possível, testem em ambientes reais de utilização. O que é isto? Uma forma pomposa de dizer que há que comprar consoante o uso que se pretende dar às mesmas, mas vou exemplificar:

Há pouco tempo fui a uma loja na Grande Lisboa para comprar umas calças de TT (que com um uso mais radical se destroem a uma velocidade alucinante). Levei as minhas botas de TT e as joelheiras e cheguei à loja e disse o que queria testar. A empregada olhou-me como se eu fosse um ET (e até sou, em certa medida), mas foi buscar o que eu queria e no meu tamanho habitual. Vesti previamente as joelheiras e qual não é o meu espanto que ao vestir as calças estas não passavam na zona das joelheiras (que são bem largas por sinal)! Conclusão, acabei por comprar outro modelo de calças! Se tivesse comprado aquelas teria que voltar à loja para as trocar pois não eram compatíveis com as joelheiras!

Como habitual, a tabela que se anexa serve de referência, mas não é um guia absoluto porque há muitas variações a considerar, como o sexo, o peso, a idade, a altura, a variação entre os diferentes fabricantes. Resumindo, nada é capaz de substituir o ato de experimentar antes de comprar, mas procurar previamente no site dos fabricantes também pode dar uma ajuda!


Por dentro das calças…

Existe um mundo para desbravar, mesmo para quem é depilado! As calças protegem contra os elementos exteriores, mas são manifestamente insuficientes, mesmo para uma utilização menos exigente. Recomendo a utilização de calções interiores com proteção, as meias ficam um bocado ao gosto de cada um, sendo que sugiro usar umas mais grossas e bastante compridas, mesmo com tempo quente! Para temperaturas mais baixas é recomendável o uso de umas meia-calça, tipo leggings, pelo conforto térmico que representam, além de evitar o atrito com as joelheiras, mas sobre elas falamos já a seguir!

Os nossos joelhos são um milagre da anatomia e fisiologia humana! São uma peça de engenharia quase perfeita e de uma importância crucial para andar de mota pelo que tudo deve ser feito para os proteger, até porque são a nossa maior articulação!

As lesões, quando ocorrem, costumam ser bastante complexas e é habitual o recurso à cirurgia. Ali moram vários tipos de ligamentos, um osso chamado rótula e até uma cartilagem que dá pelo nome de menisco! Estas lesões são muitas vezes o verdadeiro terror não apenas de desportistas profissionais ou amadores, amantes das motas, do futebol, da corrida, das caminhadas, do ténis… mas de toda a gente!

Os avanços na medicina são notáveis, nomeadamente no campo cirúrgico e das próteses, mas ao nível do joelho (e não só) continua-se a cometer um erro imperdoável: não respeitar os prazos de descanso e imobilização que nos são impostos! Se nos dizem que são 2 meses sem conduzir é para cumprir, mesmo que ao fim do mês já tudo pareça ok! Se é para andar 6 semanas de canadianas… não são 4! Conheço demasiados casos de pessoas que não cumpriram e foram brindados com sequelas definitivas ou propostas de nova intervenção cirúrgica! Recordo-me de há algum tempo atrás conversar com um conhecido profissional das duas rodas com experiência mundial, de Dakar… e ele mostrar um joelho a que já tinha sido operado 4 ou 5 vezes e estava sem queixas. Ao lado estava um “endurista de fim de semana” (assim como eu) que tinha sido operado uma única vez aos ligamentos e por não ter respeitado os prazos coxeava há vários meses e estava a ponderar se iria fazer nova intervenção cirúrgica ou não!

Para a proteção dos joelhos é fundamental o uso de joelheiras. Já é mau andar sem qualquer proteção (nem que seja nas próprias calças) de mota no alcatrão, mas fora dele é ainda mais perigoso!

Além disso, desiluda-se quem pensar que umas simples joelheiras que envolvem o joelho e têm uma proteção à frente são suficientes. Claro que sempre são melhores que não usar nada, mas a sua proteção é muito limitada até porque parte das lesões que ocorrem não resultam de choques propriamente ditos! São antes situações de torção, de desaceleração, de rotação com os resultados que já se sabe, mas é bom lembrar: lesão no menisco, entorse no joelho, lesão do ligamento cruzado anterior, do posterior, dos laterais, rotura dos tendões e a lista continua, mas já chega!

Quanto à escolha das joelheiras, recomendo daquelas que geralmente são conhecidas por “ortopédicas” para a prática de todo o terreno. Existem diversas marcas e modelos, sendo que os preços nem sempre são simpáticos, sobretudo naquelas com materiais mais exóticos, como o carbono! Ter ainda em atenção a questão dos tamanhos (aqui é mais simples porque a maioria dos fabricantes têm apenas 3 ou, no máximo, 4 tamanhos (S, M, L e XL), que a sua aplicação correta pode ter truques, sendo que são diferentes a do joelho esquerdo e a do direito! Aparte a proteção contra situações de impacto frontal, o seu grande mérito é protegerem também nas outras situações mencionadas no parágrafo anterior…

Para terminar… as Botas!

A par com o capacete, mesmo para aqueles praticantes de TT que se gabam de nunca cair (há por aí gente muito mentirosa, diga-se de passagem) as botas constituem um elemento essencial de proteção e de conforto…

Para quem quiser sair do asfalto e conhecer as maravilhas do fora de estrada tem basicamente 3 tipos distintos de modelo de bota:

- As botas mais de aventura trail, que oferecem uma razoável proteção, não são muito pesadas ou rígidas e podem ser usadas em quase todo o lado, incluindo caminhar de forma confortável;

- As puras botas de motocross, que oferecem elevados níveis de proteção e algum conforto, ainda que à custa de um peso maior e alguma rigidez, com uma sola de uma aderência (e desgaste) elevado, com ou sem botins interiores;

- As botas de enduro, que conseguem ser ainda um pouco mais rígidas e pesadas que as anteriores, com uma sola robusta e adaptada a todos os terrenos, podendo ou não ter botins interiores e geralmente equipadas com uma biqueira metálica à frente para minimizar os impactos.

Existe imensa oferta no mercado e os preços são muito variáveis, tal como a qualidade e o nível de proteção oferecido. Tem-se verificado nos últimos anos (há quem lhe chame globalização) também neste campo uma notória tendência para a deslocalização para países onde a mão de obra é mais barata. O resultado é uma degradação na qualidade dos produtos, mas não uma redução dos preços, infelizmente!


Aparte todo o processo de escolha de modelos, cores, tamanhos (ver tabela) é fundamental efetuar alguns procedimentos muito simples, pelo que deixo algumas sugestões:

- Verificar todos os parafusos e demais apertos antes sequer de começar a utilizar! Antes isso do que perder alguma peça ou parafuso, algo muito comum, infelizmente!

- Colocar em todas as fivelas das botas, se possível, uma pequena abraçadeira plástica para evitar que se solte… e seja necessário comprar outra!

- Hidratar o couro das botas. Existem produtos específicos, mas um creme Nivea (desculpem a publicidade) faz o mesmo efeito e ainda ficam com a mão macia ao aplicar! Escusado será dizer que devem ser lavadas sempre que necessário, postas a secar à sombra e de “cabeça para baixo”, tudo isto em prol de uma maior longevidade...

Estas botas têm rodagem. Antes do seu uso pleno, façam alguns agachamentos com as mesmas ou uma ou outra pequena caminhada para que as mesmas se comecem a moldar aos pés e fiquem menos rígidas. De início é normal sentir uma certa rigidez e perda de sensibilidade, em especial no uso do travão e da caixa, mas melhora com o tempo e o uso!

Ainda quanto ao tamanho, a minha sugestão é comprar sempre um número acima do calçado diário. Aliás, se usarem botas com botim interior (pessoalmente gosto pelo conforto adicional) podem até ponderar a compra de 2 números acima! Calço 43 no dia-a-dia, mas nas botas de fora de estrada uso 44 e numas com botins interiores uso 45! Porém, nada disto é mais válido do que testar e isso cada um é que tem de fazer! Chamo ainda a atenção para a verdadeira Babel de escalas de tamanho: Europeia, Inglesa, Americana, Chinesa…

E fica terminada a última parte desta trilogia. Com o equipamento adequado vão poder divertir-se muito mais e com níveis de segurança superiores!

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