Pedro Pereira

Pedro Pereira

Só ando de moto em 2 locais: na estrada e fora dela!

OPINIÃO

Recordações do meu primeiro Portugal Lés a Lés

Olhando um pouco para trás, tenho de fazer um mea culpa: porque demorei tantos anos para fazer um Portugal de Lés a Lés (LaL)? Porque foi necessário chegar até à 23.ª edição, se oiço falar do mesmo desde a primeira, já no longínquo ano de 1999?

andardemoto.pt @ 24-7-2021 14:24:37 - Pedro Pereira

Estava escrito no Livro do Destino que iria ser agora, mais ainda porque esta edição nos trouxe uma visão fantástica da N2 que foi muito além daquela que muitos conhecem.

Partilho agora consigo, Caro/a Leitor/a, as minhas principais impressões destes 4 dias que me ficam na memória e, imagino eu, também na de todos os que viveram esta épica aventura. Também sugiro que vejam o vídeo, caso ainda não o tenham feito!

O 1.º dia e Preparação

Antes da viagem preparei o essencial: vi a meteorologia, escolhi o equipamento a levar, a roupa e todo o ritual que bem conhecem. Faço sempre uma pequena check-list, que verifico antes da partida, incluindo coisas menos óbvias como um pequeno spray para limpar a viseira do capacete ou spray para a corrente. 

Usei, pela primeira vez, um roll bag (saco de viagem de enrolar) e recomendo por ser prático, leve, barato e, sobretudo, impermeável.

A moto escolhida foi uma velha amiga: a Suzuki V-Strom 650 XT à qual apenas verifiquei os níveis dos fluidos, pressão dos pneus, tensão e lubrificação da corrente e ainda lhe subi o ecrã pára-brisas para a posição mais elevada, com o auxílio de uma chave sextavada.

Saí rumo a Chaves pela autoestrada (tinha de ser) e na região de Fátima apanhei chuva copiosa e disse para mim: - LaL molhado… certamente será abençoado!

Aqui a Abelha Maia (nome carinhoso que define bem esta Suzuki amarela) fez-me sofrer com algum desconforto do assento e a escassa proteção aerodinâmica, além de que os consumos se ressentiram bastante, mas a alegria e o espírito de aventura compensaram tudo isso!

Chegado ao destino, encontro com o meu Colega de Equipa Rogério Carmo, entrega da documentação (aprecio as virtudes de um road-book detalhado e o seu aspeto nostálgico face a um GPS), e um pequeno passeio pelas redondezas e deitar cedo que a aventura a sério começava no dia seguinte!

2.º dia: de Chaves a S. Pedro do Sul

O Rio Tâmega foi testemunha da azáfama matinal, tal como eu testemunhei a imensa curiosidade (constante ao longo de todo o LaL) que a Harley Pan America despertou. Tive até receio que a Abelha Maia ficasse com ciúmes, mas não aconteceu!

Sou um fã confesso do nosso país e esse dia não me desiludiu, nem por um momento! Claro que uma foto no km 0 foi para esquecer, tal a concentração de participantes nesse local, mas o dia foi fenomenal!

Passar por aldeias isoladas, ver os habitantes a deixarem a sua azáfama apenas para sorrir e acenar às motos, o riso das crianças… não há dinheiro no mundo que pague isso! Só mesmo vivenciando se percebe!

Pontos altos existiram muitos, mas tenho de destacar alguns: 

O Alto Douro Vinhateiro, fusão perfeita entre a Mãe Natureza e a ação humana é algo que nunca me canso de admirar. Pela primeira vez confirmei, em Lazarim, que ao contrário do que sempre me ensinaram, até o Diabo pode ser bonito! A chegada a S. Pedro do Sul foi apoteótica, apesar de algum compasso de espera (muito comum em todos os dias) para subir ao palanque.


Nota positiva para a Federação Nacional de Motociclismo e para a Autarquia por se associarem com vários restaurantes e, com um voucher e marcação, permitir que os participantes pudessem ir jantar a um da sua preferência…

Acabámos por ir dormir em Viseu e assumo que não dormi tão bem quanto desejaria. Estava demasiado excitado com tudo o que já tinha visto e sentido e revia mentalmente os vários momentos do dia…  o que me despertava ainda mais!

Das nossas motos nada há a dizer que não sejam elogios, incluindo a queda abrupta nos consumos e comportamento muito são da V-Strom XT que, em alguns momentos, exigia condução mais empenhada para acompanhar a Pan America.

3.º dia: de S. Pedro do Sul a Abrantes

Mais uma vez, levantar cedinho, tendo resistido à tentação de andar na ramboia na noite anterior. É um dado adquirido que quanto mais frescos e descansados estivermos, menos riscos corremos e mais conseguimos desfrutar da moto em si, mas também dos cheiros, cores e sabores que se vão desenrolando diante de nós!

Neste novo dia continuei completamente enamorado desta bela aventura e tive oportunidade de conduzir mais a Pan America (em breve o Rogério Carmo irá contar-vos tudo sobre ela). Destaco em especial as suspensões semi-ativas, o motor a médios regimes e o sistema de travagem. Numa expressão: habemus moto!

Ainda que correndo o risco de ser muito redutor, destaco também alguns momentos mágicos:Já depois de Góis e praticamente no cume da Serra do Açor, o Rogério faz-me sinal e vejo a planar, majestoso, um açor quase ao nosso lado, sobre o vale do Ceira. Paramos as motos e ficámos simplesmente deliciados. Nem me lembrei de fotografar!

No Sardoal, que conheço muito bem, fomos desafiados a cruzar o casco antigo da Vila calcorreando ruas estreitas de seixo rolado e onde pouco mais cabe que uma moto. Simplesmente inesperado e surpreendente!

A chegada a Abrantes (se preferirem Ábrantes) foi num ambiente de festa, tal como a subida ao palanque e ainda revi alguns amigos e família, tal como tinha feito no Sardoal. Os mais de 2000 participantes tomaram a cidade de assalto e acabaram por se espalhar pelas redondezas. Por exemplo: nós fomos dormir a Ponte de Sor.

Ainda antes do deitar, importa cumprir o ritual diário de dar uma visão geral sobre a moto, verificar a corrente (que até a Pan America tem) e limpar cuidadosamente a viseira do capacete.Amanhã iriamos cruzar o “Além-tejo” com chegada ao Reino dos “Algarves”.
4.º dia: de Abrantes a Faro e regresso

Uma vez mais, deixamos cedo o ninho, apesar de haver quem tenha sido mais madrugador, sobretudo os que se inscreveram primeiro e fazem questão de carimbar integralmente o seu passaporte nos 35 concelhos. Uma recordação que fica para a vida, mas que significava longos períodos de espera...

O calor começava a sentir-se logo pela manhã e é aqui que se percebe uma das vantagens óbvias do equipamento técnico para andar de moto: abrir os ventiladores à frente e atrás melhora muito a sensação de frescura. porque conduzir de t-shirt e até de calções… não obrigado!

Já sabemos que nos espera a etapa mais longa de todas e, no meu caso pessoal, o regresso obrigatório às bandas da capital nesse dia porque soube, na véspera do LaL, que seria vacinado contra a Covid neste mesmo dia às 18:18!

Há muito que me deixei seduzir pelo Alentejo, pelas suas gentes, pela sua gastronomia, pelos seus vinhos (pena termos passado tão cedo nas Galveias que nem deu para um golinho do vinho da freguesia, o Marques Ratão) e pelas paisagens, que vão muito além das planícies ou das retas a perder de vista…

Destaco apenas alguns dos muitos pontos que me seduziram neste dia:

Logo para começar, em Ponte de Sor, a passagem na ponte pedonal sobre o Rio Sor foi, no mínimo, original! Não sei quem teve a ideia, mas foi uma agradável surpresa.

Tenho de destacar sempre as curvas da Serra do Caldeirão (ao que consta, são 365). Em tempos não muito recuados eram um importante acesso ao Algarve, a umas merecidas férias e os miúdos facilmente enjoavam. 

Agora são o paraíso dos motards! Pouco tráfego, quase sempre bom piso e uma oportunidade sublime de “arredondar” os pneus! Assumo que aqui cometi alguns excessos, mas a XT esteve sempre impecável, sem um queixume, a exigir mais de mim para não perder a Pan América que parece que curva “sobre carris”!

A chegada a Faro foi sem grande história e mais cedo que o previsto por causa da minha contingência. Por especial atenção, deixaram-nos tirar a foto da praxe sobre o palanque (ainda nem estava aberto), depois fomos comer alguma coisa numa esplanada ali mesmo ao lado e, com pena minha, o regresso foi logo de seguida.

Acabei por fazer a viagem sozinho, com as minhas boas recordações e a Abelha Maia. Chegámos ao posto de vacinação 10 minutos antes da hora marcada e com cerca de 1.800 kms percorridos, mas não me peçam para revelar os consumos da XT nesse trajeto, é que apesar do depósito ser de 20 litros… deu para muito pouco!

Deus existe… e participa no LaL!

Esta expressão não é minha. É do Rogério Carmo, mas no final destes magníficos 4 dias percebi melhor aquilo a que se referia e agora partilho.

É-me completamente indiferente se o LaL é também uma Feira de Vaidades, se predominam as motos da marca bávara (ao que consta, há alguns anos atrás eram as da Asa Dourada) e se há participantes que gostam de uma certa ostentação. Nada disso me atormenta, pois é uma mera escolha pessoal.


Vejo encantos numa moto de 300 kg, equipada até aos dentes com os últimos gritos da tecnologia, mas também aprecio uma nostálgica Vespa (e havia por lá várias) ou mesmo a coragem de fazer a N2 em 50 cc (coisa que também está nos meus planos futuros).

O que me preocupa de verdade e mostra a bondade divina é a falta de preparação e cuidado de alguns participantes e isso facilmente se torna perigoso para eles e para os outros!

Assisti a várias pequenas quedas a subir ou a descer da moto, por escolha inadequada da própria montada ou do local para o fazer, calçado impróprio ou gritante falta de técnica. Também vi demasiados casos de motards a “cortar curvas”, mesmo em locais de visibilidade muito reduzida, o que exponencia o risco.

Menciono ainda os zig-zag por manuseio de gadgets (telemóveis, action cams, gps, distração com o/a pendura…) ou a condução sem equipamento minimamente adequado: condutores/as e “penduras” sem luvas, de t-shirt, calções e sandálias! Só pode ser mesmo de quem não avalia os riscos e a própria FMP deveria ter um papel mais pedagógico nesta matéria!

Não me interpretem mal! Não estou a dar lições de moral ou chazadas a ninguém!

Apenas fico preocupado por ver tantas atrocidades que podem sair caro, inclusive a quem toma as devidas medidas de segurança, vai equipado e, por exemplo, é abalroado por motociclista que seguia distraído a olhar para a paisagem ou em amena cavaqueira ao telemóvel…

Quais os custos de uma participação no LaL?

Apesar da situação pandémica, o LaL é vítima do seu próprio sucesso e percebe-se facilmente que as inscrições se esgotem antes da data prevista, mas há que ter presente que os custos de participação são significativos e acabam por dissuadir muita gente a participar, incluindo pessoas mais jovens e senhoras, que importa atrair para o mundo das motos... 


Apresento de seguida uma mera simulação de custos, tendo presente que há muitas variáveis e estratégias que vão trazer flutuações. Tomo como referência o exemplo de alguém que vai participar na sua própria moto, sem “pendura”, que não abdica do conforto de um quarto só para si e que vai fazer troços com portagem na ida e no regresso.

Inscrição: 200€
Alojamento (4 noites): 240€
Combustível: 180€
Portagens: 40€
Diversos (almoços, bebidas, recordações…): 90€
Total: 750€

É um mero valor de referência. Se a moto gastar pouquinho… melhor, mas e se gastar muito? Se ficar em parques de campismo ou partilhar quarto… poupo, mas e se optar por hotéis melhores? Se for comedido nos almoços e nas bebidas no final das etapas… já sabem o resto! Pode ou não acrescer o aluguer da moto, uma eventual revisão ou a troca de pneus.

Em suma, não deixa de ser um custo significativo e podem existir outras prioridades que nos impeçam de participar neste fantástico evento, mas se for possível faça-o! Vai divertir-se muito e perceber que vale a pena, além de que vai “deixar” o seu dinheiro em Portugal, ajudando a economia local.

Notas finais:

O LaL não termina quando chegamos a casa, sãos e salvos, com recordações para a vida, fotos, vídeos e novas amizades. Importa ver o estado da moto (pneus, limpeza geral, eventualmente o estado do filtro de ar, talvez até esticar a corrente…), limpar a viseira do capacete, lavar o forro interior, retirar as proteções do equipamento que também deve ser cuidadosamente lavado e assim por diante. Faz parte do encanto de andar de moto e não deve ser negligenciado.

Caso tenha feito troços de AE sem portagens físicas e não tenha Via Verde (sou utilizador e acérrimo defensor) não se esqueça de ir liquidar também essa conta. Se não o fizer, vai acumular-se e ser bem mais caro.

A participação do Rogério e minha é um pouco diferente daquela que a maioria dos participantes faz. Paramos para fotografar a caravana, fazer entrevistas, fotos e vídeos para a revista, site e redes sociais… é como se existisse uma mistura de trabalho e prazer. Dizem que não se devem misturar, mas aqui resulta bem!

Ainda uma nota muito especial para a Abelha Maia. Foi uma grande surpresa e o exemplo perfeito de como “menos é mais”! Levar duas motos bastante distintas para o LaL serviu também para ilustrar isso mesmo. Apesar desta ser “metade” em potência, binário, preço… nem por isso deixou de ser uma moto divertida e perfeitamente à altura das expectativas!

Sei que se fala na possibilidade de ser descontinuada (espero que não) ou pelo menos atualizada (espero que sim) um pouco à imagem e semelhança do que ocorreu com a irmã mais velha: mais alguma tecnologia e até um ligeiro aumento de cilindrada podem dar-lhe uma nova vida!

Nota mais também para os excelentes Bridgestone Battlax Adventure. De perfil mais aventureiro, cumpriram impecavelmente nos troços fora do alcatrão (e foram alguns), mas brilharam no asfalto! Um comportamento muito saudável e uma capacidade de curvar com segurança até acima do que estava à espera!

Não consigo compreender como nos dias de hoje, ainda se vendem motos novas com pneus de má qualidade! Pagando um pouco mais o consumidor anda mais seguro e diverte-se muito mais!

Um agradecimento especial à Federação, a toda a Organização (Ernesto, és grande), aos Municípios que compõem a Rota, às Associações, aos Motoclubes, os Concessionários, às Forças de Segurança e a todas as pessoas que, de uma forma ou de outra, tornaram possível esta aventura.

Da minha parte vou ficar por aqui, não quero ser muito maçador e sou o primeiro a assumir que escrever um romance pode afastar o/a Leitor/a, mas o que descrevo faço-o com paixão e muita vontade de voltar em 2022. 

Fica já como hipótese de prenda para o meu meio século de vida que se concretiza no próximo ano!

Abaixo deixo um vídeo que retrata as emoções dos momentos mais marcantes desta viagem.

andardemoto.pt @ 24-7-2021 14:24:37 - Pedro Pereira


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