Márcia Monteiro

Márcia Monteiro

Marketeer, “Mulher do Norte” e motociclista em estrada e fora dela (Off Road).

OPINIÃO

N222: Da Costa à Fronteira – Parte I

Já há algum tempo que tinha o desejo de percorrer a N222, que liga Portugal de Oeste (Vila Nova de Gaia) a Leste (Almendra). A N222 já muito tinha sido noticiada em Portugal e além fronteiras como sendo uma das estradas mais bonitas do mundo para percorrer. Antes de partilhar esta jornada a solo de mochila às costas aos comandos de uma CBR, deixo a seguinte recomendação: é possível percorrer a N222 em apenas 1 dia dado que a sua extensão é de cerca de 226km. No entanto, para desfrutar verdadeiramente da viagem aconselho 3 dias. Outra recomendação é para não se deixar intimidar pela tipologia da moto que possui. A estrada está em ótimas condições e, portanto, haja vontade que o resto faz-se. 

andardemoto.pt @ 19-2-2022 09:30:00 - Márcia Monteiro

Na noite anterior à partida dormi mal, tamanha era a ansiedade por mais uma viagem de moto a solo. Ainda me lembrava da quantidade de vezes que algumas pessoas me desencorajaram a ir, dada a tipologia da minha moto. Muitas vezes ouvi “as desportivas não foram feitas para a N222” mas, a minha vontade era maior. Ia de qualquer jeito.


Saí de casa de manhã cedo, levava comigo uma folha A4 com todos os locais que queria visitar para além da mítica N222 pois fruto de todas as horas dedicadas às pesquisas, percebi que pequenos desvios iriam levar-me a sítios incríveis. Não me enganei, logo a seguir a Pedorido, um pequeno desvio de 20km levou-me às aldeias de Gondarém e Midão. A moto ficou à “porta” pois as estradas eram pequenas e a melhor forma para explorar estas pequenas aldeias de xisto era a pé. Um pouco mais ao lado subi o Monte de Gens, que tem um baloiço (Baloiço de Gens), que fica do outro lado da margem do Douro que tem o famoso Baloiço da Boneca. Em seguida, passagem por Castelo de Paiva e depois Cinfães. Aqui foi hora de explorar o Baloiço das Pias, o Baloiço do Refúgio, a Levada dos Moinhos e o Poço Negro. Partida para Resende, com menos por explorar, mas igualmente encantador. 

A Igreja Matriz de Cárquere e a Igreja de São Martinho de Mouros entraram na equação. Já em direção ao Peso da Régua, a estrada revelava-se cada vez mais incrível e de moto tinha outro sabor. Se eu ainda tinha dúvidas quanto à tipologia de moto para a N222, naquele momento todas elas se dissiparam. Foi delicioso, um balançar constante entre curva e contra-curva, o nosso corpo funde-se com a moto e dançamos juntas. Lado a lado corre o Rio Douro e as encostas imponentes mostram a grandiosidade do Douro Vinhateiro. Não há palavras que descrevam a beleza daquela estrada. Chegada ao Peso da Régua, há um episódio que não consigo esquecer: estacionei a moto junto às margens com vista para as pontes. Confesso que começava a sentir as primeiras dores nos pulsos e precisava mesmo de descansar. Andei uns metros a pé à procura de um café até que ouvi um grupo de senhores a conversar ferverosamente. Estavam sentados numa mesa a jogar às cartas. Aproximei-me e perguntei se aquele local era um café e disseram-me que não, era uma associação. Quando viram o meu ar desolado, perguntaram-me se eu precisava de alguma coisa. Eu respondi “se tiverem por aí uma garrafa de água que me possam vender...”. Não tinham, mas logo se levantaram para encher uma grande caneca de água fresca vinda diretamente da torneira. E encheram 2x. É incrível a forma como nos acolhem nestas situações. Os pulsos continuavam a doer e por isso aproximei-me das margens, estendi o lenço que trazia ao pescoço por cima das ervas e ali fiquei a contemplar a paisagem enquanto recompunha o meu estado físico.


Se querem saber mais sobre esta aventura, aguardem pelo artigo do próximo mês.



Ler também:

N222: Da Costa à Fronteira – Parte II


andardemoto.pt @ 19-2-2022 09:30:00 - Márcia Monteiro


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