Pedro Pereira

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Só ando de moto em 2 locais: na estrada e fora dela!

OPINIÃO

14 dicas para comprar uma moto usada

Não compre uma moto usada sem tomar as devidas precauções! Fique a saber como deve proceder para não ter uma má experiência!

andardemoto.pt @ 22-12-2020 08:00:00 - Pedro Pereira

A procura, escolha, teste e, finalmente, compra de uma moto usada, é suposto ser um processo mais ou menos demorado, mas é importante que o resultado nos satisfaça a nós e ao nosso bolso!

Assim, e tendo em conta a minha experiência pessoal, vou tentar responder aos pedidos que nos chegam à redação, apresentando um conjunto de dicas que considero muito úteis.

O foco desta crónica está apenas nas motos usadas uma vez que na compra de uma moto nova a realidade é completamente diferente, embora algumas das sugestões aqui apresentadas continuem a ser válidas.


1: Não pensar na compra apenas com o coração!

Já todos sabemos que, por norma, a moto carrega em si uma forte carga emocional, mas nem por isso deixa de ser importante sermos ponderados na aquisição, sobretudo porque nas motos usadas existem riscos adicionais relativamente às novas, cuja diferença de preço pode ser menor que o inicialmente previsto, mais ainda quando os stands nos cativam com campanhas aliciantes.

São demasiadas as vezes em que nos sentimos tentados a comprar a primeira moto que nos aparece à frente! Não nos devemos precipitar. Uma pitada de razão faz muita falta! Importa ver alternativas, saber preços de outras equivalentes para comparação, conhecer algum historial da moto, perceber se há margem de negociação no preço e se existe a possibilidade de retoma ou o crédito para a aquisição.

2: Fazer bem o trabalho de casa.

Pode parecer exagerado para muitos de nós, mas o processo de escolha de uma moto nova pode levar mais tempo que o previsto. Para alguns, facilmente semanas ou mesmo meses!

Sabemos que o nosso mercado é relativamente pequeno, que a oferta não é muita nem variada e que, provavelmente, os preços estão inflacionados (sobretudo quando estamos a comprar), mas vale a pena investigar antes de comprar.

Visitar stands, ir aos sites mais ou menos especializados, incluindo ao do seu Andar de Moto, recorrer às redes sociais ou mesmo à ajuda dos amigos, e até ponderar a importação… vale tudo para fazer o melhor negócio possível! Por isso é mesmo preferível não ter pressa… ou não fosse esta inimiga da perfeição!

3: Como fazer quando se tem moto para retoma.

A maioria de nós, ao trocar de moto, acaba por ter que “desfazer-se” da sua atual. Por custos, espaço, não interessa a razão, mas a venda da nossa moto pode ser um problema complicado, mais ainda quando a sucessora for de um particular… que geralmente não aceita retomas!

As vendas a stands e afins costumam ser um descanso. É feito o acerto de valores, papeladas, entra-se com uma moto e saímos com outra, mas no caso de assim não ser, vale a pena investir tempo na venda. Uma lavagem cuidada, fazer a revisão, fotos bem enquadradas e com detalhe, uma descrição cuidadosa e atraente, faturas da manutenção, livro de revisões… tudo isto ajuda a simplificar a venda, mais ainda quando a divulgamos na Internet onde pode chegar a imensos potenciais compradores.

Já agora, não vale ser desonesto. A mentira costuma ter pernas curtas e não nos fica nada bem! Ainda há pouco tempo fui ver uma moto e o dono afirmava que era apenas o segundo dono da mesma. Depois de investigar, acabei por descobrir que era o quarto dono! Antigamente os velhinhos livretes tinham o número de proprietários. Os atuais DUA ou Certificados de Matrícula já não…


4: Cuidado com as pechinchas.

Costuma dizer-se que, se um negócio é bom demais para ser verdade… geralmente é mesmo! Não significa que seja sempre assim, mas é o mais comum e, na dúvida, ou não se compra… ou recolhe-se mais informação e pede-se ajuda a alguém com mais conhecimentos que nós para nos ajudar a decidir!

Lembro-me que há muitos anos fui ver (e acabei mesmo por comprar) uma moto de enduro que estava a um preço anormalmente baixo. Mesmo sendo longe, acabei por a ir ver e testar.

Parecia tudo ok, apesar de um estranho ruído no motor que pensei ser apenas por necessitar de afinação de válvulas… quando regressei a casa e a levei ao mecânico o diagnóstico foi simples: biela gripada! Tinha circulado com pouco óleo! Lá se foi a minha poupança, mas ao menos tinha sido comprada abaixo do preço de mercado e fiquei com o motor “como novo”.


5: Não valorize motos com os preços inflacionados.

Já todos vimos motos usadas à venda com preços iguais ou superiores às novas. Tirando alguns casos muito específicos, como algumas motos clássicas ou muito raras, isso é pura especulação e dificilmente vão ser vendidas por esse preço.

Nestes casos tem duas opções: ou simplesmente as ignora, ou faz um contato exploratório mas sem grande pressão, já que perante preços irrealistas não vale a pena investir muito tempo. Além disso, nunca se sabe quando o vendedor coloca aquele preço exatamente porque não quer vender e assim pode dizer lá em casa que o melhor é não vender… porque ninguém compra! A mente humana é tramada!

6: Procurar informação especializada sobre o modelo pretendido.

É crucial restringirmos o nosso leque de escolhas, definir o uso que pretendemos dar à moto, qual o nosso orçamento e recolher a informação adicional sobre o modelo escolhido, nomeadamente em fóruns onde o domínio da língua inglesa pode ser muito útil, mais ainda se for um modelo pouco comum em Portugal…

Se conhecer um mediador de seguros pode recolher mais informação, nomeadamente sobre eventuais acidentes, mas a minha sugestão é mesmo gastar uns singelos 10 euros para obter uma certidão permanente de registo automóvel no Portal Automóvel Online onde conseguirá ficar a conhecer dados muito importantes como número de proprietários, eventuais penhoras ou reservas de propriedade… diria que é um dinheiro bem investido e que pode evitar muitos dissabores futuros. Pode fazer o pedido junto de uma Conservatória do Registo Automóvel, mas online é muito mais prático.

Se for para saber se a moto tem seguro, basta apenas inserir a matrícula no site da ASF (Associação de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões), embora haja o risco real de a informação não estar atualizada, mas é um bom indicador, além de gratuito!

No caso das matrículas canceladas, existe uma área especializada no site do IMT (Instituto da Mobilidade e Transportes) que nos dá essa resposta. Uma vez mais, essa informação também é gratuita e o site costuma estar bastante atualizado.

7: Cuidado com as motos alteradas e/ou customizadas.

Esta recomendação pode parecer de pouco valor acrescentado, mais ainda quando algumas dessas personalizações vão mesmo ao encontro do que procuramos e nos permitem adquirir uma moto única!

Mas todos sabemos que, ultimamente, o controlo das autoridades competentes sobre as caraterísticas das nossas motos tem sido mais intensivo (isto para ser simpático) e o risco de autuação e até mesmo apreensão do veículo é enorme… e sai caro!

A minha sugestão é simples: a moto que comprar tem que se fazer acompanhar de todas as peças originais e as alterações devem estar homologadas ou serem facilmente reversíveis. De outra forma o risco pode não compensar e é melhor partir para outra.


8: Os quilómetros têm um valor relativo

No nosso país é comum existirem motos com vários anos e poucos quilómetros. Mas também existem motos mais rodadas, com mais de 50.000 quilómetros, e que têm pouca procura no mercado de usados.

Tal como nos automóveis, também nas motos há casos de quilometragens “marteladas” pelo que todo o cuidado é pouco. 

Naturalmente que a quilometragem é relevante, mas importante é a forma como os quilómetros foram feitos! Uma moto cuidada e com a devida manutenção preventiva (não apenas corretiva) é bastante durável e fiável.

Há motores que fazem 100.000 km ou mais sem necessidade de grandes intervenções mecânicas, mas todos precisam ser bem mantidos. Daí a importância de ver faturas, tal como o livro de revisões.

9: Não se deixa pressionar, nem impressionar.

Esta dica está diretamente relacionada com a número 1, mas é aqui focalizada no momento em que estamos a ver a moto diante dos nossos olhos, talvez até já depois de a ter experimentado ou de, pelo menos, ter ouvido o motor a trabalhar!

A moto pode parecer linda, imaculada, mas pode ser apenas cosmética ou então um esforço para esconder falhas como, por exemplo, fugas de óleo. Peça para ver o filtro de ar e não se deixe enfeitiçar por jantes polidas ou autocolantes vistosos. Deixe o motor aquecer e fique esteja atento, em vez de se deliciar apenas com os cromados ou o ronco do escape.

Também não é boa política deixar-se pressionar pelo vendedor que pode alegar que tem mais pessoas à espera e que o melhor é fechar negócio imediatamente. Tenha sangue frio, calma e, se possível, não decida na hora! Como se diz no mercado de capitais é preferível perder um ganho do que ganhar uma perda!


10: Não abdique da garantia e fuja de garantias fraudulentas.

Já se sabe que na compra entre privados não existem garantias e, depois do negócio fechado, provar que existiam falhas ou defeitos ocultos é algo complexo.

Porém, na compra num stand, a garantia é de pelo menos 12 meses, havendo concordância das duas partes, e caso contrário será de 24 meses. Já agora, esse subterfúgio de “garantia de motor e caixa” não existe! É pura invenção, não consta da lei, embora seja apresentado muitas vezes na venda.

Não abdique dos seus direitos, faça a compra com fatura. Pode até pagar um bocadinho mais, mas faz um melhor negócio ao prevenir dissabores futuros.

11: Seja metódico nas verificações antes da compra.

Ainda há pouco tempo ajudei na compra de uma moto e na verificação prévia perguntei ao vendedor onde estava inscrito no quadro o VIN (Vehicle Identification Number - Número de Identificação do Veículo) para comparar com o livrete... e o dono não sabia! Como é isto possível?

Não tenha receio de ser chato, de querer verificar todos os detalhes e pormenores e na dúvida, por exemplo com um número de série adulterado ou diferente do que consta nos documentos… fugir desse negócio!Se os seus conhecimentos forem mais limitados, leve alguém mais habilitado.

Mas há muita coisa óbvia até mesmo para um leigo: elevado desgaste/calo dos discos de travão, nos punhos ou pedais, ruídos de suspensão, embraiagem ou caixa muito ruidosas, pneus com medidas diferentes do livrete ou muito velhos e ressequidos, mensagens de alerta no computador de bordo, ferrugem... e a lista bem que podia continuar.

12: Os extras e acessórios têm um valor apenas razoável

Cada vez mais as marcas fazem diferentes dotações de equipamento, sendo que entre a moto base e o valor com vários pacotes de extras a diferença é enorme, mas atenua-se muito face ao valor da moto quando nova. O mesmo acontece com eventuais extras aplicados pelo dono ou donos anteriores, e que para si podem ter pouco ou nenhum interesse e não devem ser pagos a peso de ouro!

Naturalmente que pode ser bom ter iluminação led em detrimento de halogéneo, chave inteligente em vez da tradicional, uma topcase, um escape bonito (não se esqueça de pedir o original, sobretudo se o que lá está não estiver - e provavelmente não está - homologado para estrada).

Porém, o valor destes extras e equipamentos não se pode esperar que seja comparável ao que tinham no ato de aquisição. Já agora, esqueça essa conversa de full extras. Por norma, tal como nos automóveis, é apenas um chavão para tentar vender mais facilmente!

13: Trâmites legais no momento do fecho do negócio.

Esta é uma fase crucial de todo o negócio, mais ainda quando se trata da compra e venda entre particulares. Seja uma quantia grande ou pequena que está em causa, certamente não vai querer ficar sem dinheiro e sem moto, ou receber uma em mau estado ou, eventualmente até, roubada!

Opte por transações em locais públicos, idealmente com câmaras de vigilância por perto e, melhor ainda, evite ir sozinho. Tente evitar os pagamentos em dinheiro (maior risco pois não deixam rasto e o limite legal é de apenas 3.000€). O ideal é, por exemplo, ir a uma Loja do Cidadão, fazer a transferência prévia do valor combinado (atenção aos limites dos vossos cartões) e depois fazer a mudança de propriedade imediatamente! 

Em alternativa, a transferência de propriedade, nomeadamente o contrato verbal de compra e venda, também pode ser feito através do Portal Automóvel Online, sendo que ambas as partes têm que ter o Cartão do Cidadão e um código ativo, além de um leitor. É uma solução mais tecnológica e virtual, mas que representa uma poupança de quase 10 euros. A opção por um advogado ou solicitador também pode ser uma boa solução.

Recomendo ainda (eu faço-o) que ambas as partes preencham e assinem um Termo de Responsabilidade em dois exemplares. Pode ter um valor legal reduzido, mas compromete ambas as partes no negócio e ficam ambos com os contatos e moradas um do outro. Na internet há diversos modelos. Se a outra parte recusar… desconfie!

14: Agora que fechou negócio.

É um momento de alegria, obviamente! Porém, espera-se que já tenha definido previamente se fez um seguro para a moto ou o vendedor tem ainda uma apólice válida e o deixa usá-la até fazer uma nova. Pessoalmente sou adepto da primeira opção.

Além disso, também a opção de fazer o transporte da moto num atrelado ou numa carrinha pode ser uma boa alternativa, nomeadamente quando são motos mais especializadas, tipo as de enduro, ou a necessitar de manutenção urgente.

Caso opte por a conduzir imediatamente, seja ainda mais prudente que o habitual. Não conhece ainda devidamente o comportamento dos pneus, das suspensões ou dos travões, a distribuição do peso, a qualidade da iluminação ou quantos km’s pode fazer a partir do início da reserva. Se for circular em autoestrada, com portagens, tenha ainda atenção ao pagamento das mesmas.

Não me vou alongar mais. Claro que esta lista não é, nem podia ser, exaustiva. São apenas algumas dicas que o podem ajudar na compra da sua próxima moto.


andardemoto.pt @ 22-12-2020 08:00:00 - Pedro Pereira


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