Susana Esteves

Susana Esteves

Jornalista e motociclista

OPINIÃO

Motoclubes: esses antros de má vida

Pensava que a fama de feios, porcos e maus atribuída aos motards já só existia nos palcos dos espetáculos de stand up comedy, nos filmes americanos e na cabeça de algumas pessoas que vivem em isolamento geográfico e cultural. Mas afinal não.

andardemoto.pt @ 31-1-2020 20:35:46 - Susana Esteves

Numa conversa muito simpática com dois senhores motociclistas, perguntei se pertenciam a algum clube motard da região. A resposta foi: - Ah não. Não nos metemos nisso. Há sempre muita droga e atividades duvidosas.

Depois de alguns segundos para digerir a frase, decidi tranquilizar os dois e disse apenas: - Não é assim tão mau. Só matamos pessoas nos feriados e dias santos, e a droga já não é grande negócio. As armas é que estão a dar!

 Por muito que lutemos contra eles, o preconceito e os estereótipos fazem, infelizmente, parte da natureza humana. Mas as duas rodas são um tema sagrado. Será que esta gente vê filmes a mais? Só lê aqueles jornais de faca e alguidar? Vive debaixo de um calhau?

Um motoclube não é sinónimo de organização criminosa. Pelo contrário. O envolvimento de muitos destes grupos na comunidade e em causas sociais é verdadeiramente inspirador. Por que não pode ser apenas um conjunto de pessoas que gosta de passear, conviver e partilhar uma paixão comum? Por que não podem ser sinónimo de diversão, de respeito e de camaradagem?

Se não devemos entrar num motoclube porque está cheio de criminosos, então se calhar também não devemos ir à igreja porque está cheia de pedófilos, ou aos hospitais porque estão apinhados de profissionais negligentes, não devemos falar com muçulmanos porque são todos terroristas, nem lidar com políticos porque são todos corruptos (se calhar neste caso…).


O desconhecimento gera ignorância, e a ignorância é simplesmente triste.

Para os que tanto temem os motoclubes, os Hell Angels são o grande exemplo. “Olhe, os outros tiveram azar e foram apanhados, mas a maior parte anda por aí”, sublinham logo os meus dois queridos amigos.

Até reconheço que o cabedal, as caveiras, os lenços e as correntes não são os melhores ícones de fofura, mas também não são sintoma de nenhuma psicopatologia digna dos melhores episódios do CSI. Será que um fato é sinónimo de confiança? Uma bata hospitalar é sinónimo de profissionalismo? Um look hippie traduz apenas paz e amor? Há pessoas boas e más em qualquer lado. No final do dia, são as nossas escolhas que ditam a nossa sorte.

Um motoclube com o qual nos identificamos pode ser o início de grandes aventuras, amizades, iniciativas e histórias. Uma verdadeira família que partilha uma paixão e um espírito que nem sempre é entendido por todos.

Boas curvas!


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