Susana Esteves

Susana Esteves

Jornalista e motociclista

OPINIÃO

Proibição de andar de mota: como sobreviver à ressaca

Quando ouvimos pela primeira vez que não é aconselhável andarmos de mota por causa de um problema de saúde acenamos que sim ao médico e pensamos: “Pfff, claro!”

andardemoto.pt @ 29-4-2019 17:24:51 - Susana Esteves

Quando ouvimos pela segunda vez que não devíamos mesmo (mesmo) andar de mota por causa de um problema de saúde concordamos com o médico, dizemos que sim, e pensamos: “Que chato pá, o que é que percebes de motas, não conduzes uma. Esquece isso, eu ando direita e devagar.”

Quando ouvimos pela terceira vez que se continuarmos a andar de mota vamos agravar o nosso estado de saúde começamos a pensar um pouco melhor no assunto, mas saímos do consultório, metemos o capacete, ligamos a mota e pensamos: “Se a viagem for muito grande vou de carro.”

Quando finalmente nos dizem que não vamos poder andar de mota durante os próximos meses concordamos com o médico, espancamo-lo de 3 formas diferentes na nossa mente enquanto tentamos simultaneamente arranjar um plano B, regressamos ao mundo real e percebemos que só com um braço é realmente impossível, e no final rezamos para que esta seja uma pausa muito curta.

Se calhar para muitas pessoas este cenário é completamente absurdo, mas para quem gosta realmente das duas roda, para quem as usa como terapia, para quem relaxa a rodar punho e para quem chega a casa bastante mais calmo e feliz depois de um breve passeio num dia de sol, é simplesmente uma verdadeira tortura.

De repente damos por nós a olhar fixamente para as motas que vão passando, como uma criança numa loja de brinquedos com ordens para não pedir nada aos pais porque teve más notas e está de castigo. Um misto de inveja e de tristeza, condimentado com aquela pitada de irresponsabilidade que coloca a hipótese de mandar as ordens do médico pró…


É claro que tudo seria melhor se chovesse torrencialmente, se o frio fosse insuportável e se não tivéssemos que sair de casa. Mas não. Para piorar tudo está sol, calor, uma brisa agradável e pouco trânsito durante a semana - o cenário perfeito para aquela voltinha revigorante. Mais grave ainda, temos que ir ao médico e a mais uma dezena de sítios (com o alto patrocínio da burocracia nacional) de carro, enfrentar o trânsito, a falta de lugares para estacionar… e pensas:

- “Como é que aguentam tudo isto diariamente?” – Hábito e dormência, já não sentem nada.

- “Será que estou a ser castigada por alguma coisa que fiz numa vida anterior?” – Provavelmente.

 - “Não podiam ter marcado isto fora da hora de ponta?” – Podiam, mas não seria a mesma coisa!

A verdade é que aguentam, e até é fácil perceber porquê. Para se distraírem nas viagens as crianças levam brinquedos e consolas. Os adultos fazem exatamente a mesma coisa – tiram selfies e fotos do trânsito que publicam nas redes sociais, levam jornais e revistas, cortam as unhas, colocam a maquilhagem, fazem a barba, falam ao telefone, entre outras coisas (altamente recomendáveis e que não interferem em nada com a sua condução segura). Ou seja, todas aquelas coisas que vemos (e que até têm piada) quando passamos de mota por eles no trânsito, mas que quando estamos atrás deles num carro há imenso tempo não têm piada nenhuma.

Esta “ressaca” também pode ter um impacto financeiro a médio prazo. O médico disse que não as podia conduzir, não me proibiu de olhar para elas. Muito tempo livre leva-nos a navegar pelas novidades de 2019 e por alguns modelos fantásticos que podiam ser meus quando ficasse prontinha para rodar punho novamente. Terreno muito perigoso.

Portanto: como sobreviver à ressaca? Não sei, ainda estou a estudar o assunto. Mas assim que souber conto-vos.    

Boas curvas


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