MotoGP - Uma temporada sob o signo de Marquez
Está na altura de passar em revista tudo o que de mais importante aconteceu ao longo das 19 corridas da temporada 2019 de MotoGP, e que culminaram na conquista do sexto título de Marc Marquez na categoria rainha e num ano de estreia muito positivo para o português Miguel Oliveira.
andardemoto.pt @ 3-12-2019 16:30:00
Começou
em março e terminou em novembro a temporada 2019 do Mundial de Velocidade. Uma
temporada bem longa e onde assistimos a excelentes corridas. No total foram 19
os Grandes Prémios que permitiram encontrar o novo campeão de MotoGP.
A temporada começou da melhor forma, com uma corrida fantástica sob a luzes
artificiais do circuito de Losail, e com a discussão pela vitória a acontecer
até à linha de meta. Andrea Dovizioso foi o mais feliz e bateu Marc Marquez. A
Mission Winnow Ducati liderada por Gigi Dall’Igna parecia estar em grande forma
e com capacidade de dar luta à Repsol Honda.
Mas logo nessa primeira corrida no Qatar os fãs começaram por ter uma polémica.
A Ducati, tal como tem acontecido habitualmente nas últimas temporadas de
MotoGP, apareceu com uma solução técnica inovadora na sua Desmosedici GP19.
O famoso “spoiler” inferior fixo ao braço oscilante do protótipo italiano
deixou a Honda, Aprilia, Suzuki e a KTM desconfiados da sua finalidade e
contestaram a sua utilização, o que colocava em causa a vitória de Dovizioso.
A
decisão final sobre o “spoiler” inferior foi levada até às últimas instâncias,
nomeadamente ao Tribunal de Apelo do Desporto, que depois de analisar as
provas, concluiu que esta inovação da Ducati era legal. A partir desse momento
os restantes fabricantes desenvolveram os seus próprios “spoilers”, e tudo
ficou em pé de igualdade outra vez.
Polémicas à parte, as corridas de MotoGP estavam intensas, leais, e os fãs
estavam perante uma temporada que prometia ser renhida até final, com diversos
pilotos capazes de lutar pelos primeiros lugares. No entanto o espanhol Marc Marquez
tinha outras ideias!
Apesar de ter ficado fora de ação devido a queda e com isso não conseguiu pela
primeira vez vencer no Grande Prémio das Américas, permitindo a Alex Rins
(Ecstar Suzuki) conquistar a sua primeira vitória na categoria rainha, Marquez
arrancou então para uma temporada verdadeiramente fenomenal. Ou, como se
costuma dizer, uma temporada à campeão.
Marc Marquez: impressionante!
O
piloto espanhol de 26 anos e natural de Cervera, já tinha à partida para a
temporada 2019 uma série de recordes com a sua assinatura. Mas nunca satisfeito
com o que já conquistou, Marquez teve um ano memorável, tanto pela regularidade
em termos de resultados, seja ao nível da qualificação como em corrida, como
aproveitou para deixar o seu nome ligado a mais alguns registos de MotoGP.
Com a “pole position” obtida no Grande Prémio do Japão, Marc Marquez passa a
ter uma “pole position” conquistada em todos os circuitos por onde passa o
Mundial de Velocidade desde que o espanhol subiu à categoria rainha. Motegi era
o único circuito que ainda conseguia resistir a esse registo.
Com a vitória no Grande Prémio de França, em Le Mans, Marquez tornou-se no
piloto que ofereceu à Honda a sua vitória 300 na categoria rainha do Mundial de
Velocidade. E as vitórias não terminaram em França! Na realidade, Marquez subiu
ao lugar mais alto do pódio por 12 vezes em 2019, resultados que lhe permitiram
garantir o seu sexto título de MotoGP, o oitavo somando todas as categorias do
Mundial de Velocidade.
De
volta aos registos de Marc Marquez que ficam na história de MotoGP, o espanhol
tornou-se no Grande Prémio da Malásia no piloto com mais pontos somados em 18
corridas realizadas numa temporada. Com 395 pontos somados até então, Marquez
bateu Jorge Lorenzo que tinha o recorde com 383 pontos.
Mas os registos impressionantes de Marc Marquez não se ficam por aqui. Com a
vitória no último Grande Prémio do ano, no circuito Ricardo Tormo, Marquez
tornou-se no primeiro piloto a conseguir subir ao pódio por 18 vezes numa
temporada de MotoGP. Foram 12 vitórias e por seis vezes terminou no 2º lugar.
Se descontarmos a queda e abandono no Texas, o que foi o pior resultado este
ano, Marc Marquez terminou todas as restantes 18 corridas no lugar mais alto do
pódio ou no lugar imediatamente abaixo. Contas feitas Marquez fecha esta
temporada com 420 pontos na sua conta pessoal.
Como
nota final de uma temporada impressionante do piloto da Repsol Honda, de
referir que fruto das suas 10 “pole positions” Marc Marquez leva para casa o
prémio “BMW M Award”, o prémio entregue ao piloto com mais “poles” durante a
temporada.
Este ano Marquez recebeu um BMW X4 M Competition de 510 cv, e que de certeza
ficará bem acompanhado pelos restantes BMW M que estão na garagem do campeão de
MotoGP. Desde 2013 que Marquez vence este prémio, o que é mais uma demonstração
do domínio exercido pelo espanhol desde que chegou à categoria rainha do
Mundial de Velocidade.
Miguel Oliveira: Um ano de altos e baixos
O
primeiro português a competir a tempo inteiro no Mundial de Velocidade chegou
finalmente à categoria máxima MotoGP. 2019 seria sempre uma temporada
complicada para Miguel Oliveira, que subiu a MotoGP depois de mais um
vice-campeonato, neste caso nas Moto2. A KTM Racing vê no piloto de Almada um
enorme potencial, e rapidamente se apercebeu de que o contrato válido por uma
temporada era curto.
Logo na sua primeira corrida de MotoGP, Miguel Oliveira, que este ano teve de
passar a competir com o número 88, terminou num muito positivo 17º lugar, a
pouco mais de um segundo do 15º lugar que lhe daria o seu primeiro ponto em
MotoGP.
Mas não precisámos de esperar muito para ver Miguel Oliveira colocar o seu nome
entre os pilotos que pontuaram em MotoGP. Logo na corrida seguinte, na
Argentina, O “Falcão” fez uma exibição monumental! O 11º lugar em Termas de Rio
Hondo garantiu ao português nada menos do que 5 pontos, com Hervé Poncharal –
diretor da Tech3 – e os responsáveis da KTM a mostrarem-se extremamente
entusiasmados com este início de aventura do português em MotoGP.
A fase
tão positiva de Miguel Oliveira neste início de 2019 culminou inclusivamente
pela excelente notícia de que a KTM Racing tinha renovado o seu contrato por
mais uma temporada, até final de 2020. Tendo em conta que nesse momento
estávamos apenas no terceiro GP da temporada, isso queria dizer que o
fabricante austríaco estava a perceber o “diamante” que tem nas suas fileiras.
Na corrida texana o “rookie” da Red Bull KTM Tech3 voltou a pontuar com um 14º
lugar, no GP de Espanha em Jerez as coisas não correram bem, e regressou aos
pontos em França com um 15º lugar em Le Mans. Ficou novamente à porta dos
pontos em Mugello no Grande Prémio de Itália, mas logo depois em Barcelona
obteve um excelente 12º lugar e mais pontos para a sua contabilidade.
Em Assen, Miguel Oliveira finalmente recebeu umas “prendas” da KTM Racing,
nomeadamente um braço oscilante em fibra de carbono. O português respondeu à
altura e fez 13º, até que na corrida seguinte em Sachsenring sofreu a sua
primeira queda em corrida.
Mesmo
assim, e mostrando toda a fibra de lutador que lhe reconhecemos, Miguel
Oliveira não desistiu, regressou à pista, e mesmo com a KTM RC16 danificada,
completou a corrida alemã a fazer os mesmos tempos por volta dos primeiros
classificados. Depois desse mau resultado, Miguel Oliveira recuperou com um 13º
lugar na República Checa, até que ao 11º Grande Prémio da temporada o jovem
luso teve a sua melhor prestação.
No Red Bull Ring, casa da KTM, e perante o olhar atento dos mais altos
responsáveis do fabricante austríaco, Miguel Oliveira levou a sua Red Bull KTM
Tech3 ao 8º lugar. Não só foi a primeira vez que terminou dentro dos dez
melhores, como Miguel Oliveira teve mesmo a honra de ser a melhor KTM nesta
corrida!
Infelizmente
para as aspirações do jovem português, o Grande Prémio de Inglaterra marcou o
momento mais baixo da temporada. Devido a um momento menos bem calculado por
parte de Johann Zarco, Miguel Oliveira sofreu uma queda que o deixou lesionado
com gravidade no ombro direito. Em Misano ainda conseguiu “esconder” as dores
com o 16º lugar e depois em Motorland Aragón foi inclusivamente 13º.
Abriu a ronda asiática com um 16º lugar na Tailândia, em Motegi fez 12º, até
que chegámos ao Grande Prémio da Austrália. Aí, e com condições climatéricas
muito adversas durante os treinos livres, Miguel Oliveira sofreu aquela que foi
a sua pior queda em MotoGP: no final da reta da meta de Phillip Island o piloto
português foi empurrado para fora de pista por uma rajada de vento, caiu a
cerca de 200 km/h, e foi considerado inapto para competir no resto do
fim-de-semana.
A
semana que separou o GP da Austrália para o GP da Malásia não foi suficiente
para Miguel Oliveira recuperar a força nas mãos e no ombro. Os médicos deram o
“OK” para entrar em pista, mas apenas duas voltas completadas na primeira
sessão de treinos livres deixaram à vista que Miguel Oliveira não estava em condições
de pilotar uma MotoGP.
O português tomou então a decisão em conjunto com a equipa de viajar até à
Áustria, onde foi então operado ao ombro direito e não competiu também na
última corrida do ano em Valência.
Miguel Oliveira tem agora uma recuperação longa. Mas a decisão de realizar a
operação ao ombro ainda antes do final da temporada de MotoGP vai permitir
começar 2020 em plena forma física, e logo nos testes de pré-temporada que se
realizam em Sepang, em fevereiro, Miguel Oliveira estará de regresso à pista e
aos comandos da sua KTM RC16.
Fabio Quartararo: a surpresa
Sem
ter tido grandes momentos de destaque quando competiu em Moto2, provavelmente o
melhor momento terá sido quando venceu uma corrida dessa categoria em Barcelona
precisamente na frente de Miguel Oliveira, Fabio Quartararo chegou a MotoGP sem
grandes credenciais no Mundial de Velocidade.
A sua escolha por parte da nova equipa satélite da Yamaha, a Petronas SRT, e o
facto de competir com uma moto inferior em especificações às motos de fábrica
da Yamaha e inclusivamente à do seu companheiro de equipa Franco Morbidelli,
faziam acreditar que Quartararo não seria um dos pilotos em destaque na
temporada 2019 de MotoGP. Mas o francês provou a todos que estavam errados!
Não só
tornou-se no piloto mais jovem de sempre a conseguir uma “pole position” em
MotoGP, no Grande Prémio de Espanha em Jerez, com 20 anos e 14 dias de idade,
como depois disso protagonizou uma temporada que muitos não vão esquecer,
inclusivamente o próprio Fabio Quartararo.
No total o “rookie” francês da Petronas Yamaha SRT conquistou 6 “pole
positions” e subiu ao pódio por 7 vezes! Com estes resultados termina a
temporada de estreia na categoria rainha como “Rookie do Ano” e “Melhor piloto
independente”.
Ficou apenas a faltar uma vitória para ser uma temporada ainda melhor, mas por
diversas vezes vimos Fabio Quartararo a discutir as vitórias com Marc Marquez
até às últimas curvas. Será que em 2020 e com uma moto igual às Yamaha da
equipa de fábrica o jovem francês fará melhor?
Johann Zarco: o pior
Depois
de dois anos muito bons com a Tech3 enquanto equipa satélite da Yamaha, Johann
Zarco mudou-se para a Red Bull KTM Factory para ser o principal piloto da marca
austríaca. A KTM deu-lhe um ordenado
“chorudo” a condizer com o seu estatuto, colocando-o inclusivamente acima de
Pol Espargaró na hierarquia da equipa.
A pressão, juntamente com uma moto ainda a precisar de bastante trabalho ao
nível do desenvolvimento, levaram a que Zarco nunca conseguisse mostrar o que é
capaz.
O seu momento mais baixo da temporada foi o “encontro imediato” com Miguel
Oliveira em Silverstone, a que se seguiu o anúncio de que não desejava
continuar a competir com a KTM mesmo tendo contrato com a marca até final de
2021. Uma decisão que, como Hervé Poncharal definiu, provavelmente iria colocar
ponto final na sua carreira como piloto de MotoGP.
Johann
Zarco ainda voltou a subir aos comandos de uma MotoGP em 2019. Fruto da
operação de Takaaki Nakagami, Zarco foi convidado pela LCR Honda para ocupar o
lugar do piloto japonês nas últimas corridas da temporada.
O francês aceitou a oferta e, nesse momento, automaticamente fechou uma porta
que parecia estar aberta na Yamaha. Lin Jarvis, responsável máximo do projeto
de MotoGP da Yamaha, pretendia contratar Johann Zarco para piloto de testes da
marca de Iwata, mas ver Zarco a competir numa Honda foi suficiente para Lin
Jarvis desistir dessa ideia.
Com Alex Marquez entretanto confirmado como novo piloto da Repsol Honda para
2020, Johann Zarco ainda tem uma oportunidade de permanecer na categoria
rainha.
A Ducati, com Gigi Dall’Igna como ator principal nestas negociações, quer
colocar o francês na equipa satélite Avintia Ducati. Mas Johann Zarco não
parece muito convencido disso, e poderá regressar às Moto2 onde foi campeão por
duas vezes, e precisamente para ocupar o lugar de Alex Marquez na Marc VDS.
Jorge Lorenzo: O adeus definitivo?
Um dos
maiores pilotos que já passou pelo Mundial de Velocidade decidiu colocar ponto
final na sua carreira enquanto piloto profissional no final de 2019. Jorge
Lorenzo, em virtude das inúmeras lesões graves que sofreu, em especial a última
em Assen onde fraturou três vértebras, e da péssima adaptação à Honda RC213V,
anunciou durante o Grande Prémio de Valência que abandona a sua carreira em
MotoGP.
O piloto nascido em Palma de Maiorca começou a pilotar motos aos 3 anos de
idade e estreou-se no Mundial de Velocidade em 2002, então na categoria 125 cc,
onde obteve 4 vitórias mas não conseguiu ser campeão. Depois subiu às 250 cc
com a Aprilia, e na categoria intermédia, sob a égide de Gigi Dall’Igna, Jorge
Lorenzo elevou o seu nível conquistando os seus dois primeiros títulos em 2006
e 2007.
Depois
vieram as MotoGP. Logo no ano de estreia com a equipa de fábrica da Yamaha e
com Valentino Rossi como companheiro de equipa, Lorenzo alcançou a glória com a
sua primeira vitória na categoria rainha, precisamente no Grande Prémio de
Portugal realizado no Estoril.
O seu talento e a precisão com que pilotava uma MotoGP só eram equiparados à
convicção que tinha em si próprio. Uma auto-confiança que por vezes fazia
transparecer para o público uma imagem de Jorge Lorenzo que não é a real.
O primeiro título de MotoGP foi em 2010, esperou dois anos para se sagrar
novamente campeão, e em 2015 festejou o título pela última vez. Foi o único
piloto que conseguiu bater numa luta pelo título de MotoGP os rivais Valentino
Rossi, Casey Stoner e, em especial, Marc Marquez.
Jorge Lorenzo destaca o Grande Prémio da Malásia de 2010
como o seu melhor momento no mundo da competição, quando garantiu o primeiro
título em MotoGP. Os seus feitos garantiram-lhe a entrada no mundo especial das
lendas, com Carmelo Ezpeleta, CEO da Dorna, a anunciar que no próximo Grande
Prémio de Espanha, em Jerez, Jorge Lorenzo será nomeado como “Lenda de MotoGP”.
Agora, aos 32 anos, Lorenzo promete que não pretende regressar à competição e
que nos próximos tempos estará a apanhar banhos de sol numa praia. No entanto
há diversos rumores que apontam para que a Yamaha esteja a trabalhar no sentido
de contratar o cinco vezes campeão do mundo para piloto de testes. Veremos por
quanto tempo Jorge Lorenzo consegue estar longe das MotoGP...
Galeria temporada 2019 de MotoGP
andardemoto.pt @ 3-12-2019 16:30:00
Clique aqui para ver mais sobre: Desporto