Pedro Pereira

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Só ando de moto em 2 locais: na estrada e fora dela!

OPINIÃO

Opinião Pedro Pereira - Deixei cair a moto! E agora?

É quase inevitável que aconteça, e as consequências podem ter mais ou menos gravidade. Mas basta usar o bom-senso, e pensar um pouco!

andardemoto.pt @ 1-5-2020 08:02:00 - Pedro Pereira

As motos, e os veículos de duas rodas em geral, são um constante desafio à gravidade: um qualquer descuido e o que ocorre é a inevitável tendência para o desequilíbrio, seja à esquerda, seja à direita e a moto pode acabar por cair mais ou menos desamparada no chão, expectavelmente sem mazelas para ela nem para o condutor e/ou eventual passageiro!

Tenho uma amiga que admiro imenso: tem vários filhos, uma vida profissional intensa e exigente, faz voluntariado, pratica desporto e anda diariamente de moto! Digo por brincadeira que é a “mulher de sonho” de muito homem, até porque é bonitae tem imenso sentido de humor! Que pena já ser casada e ter, segundo ela própria afirma,mau feitio!

Tem ainda uma característica feminina muito comum: é de uma elegância extraordinária que se vira contra ela quando anda de moto, ou mais concretamente quando a deixa cair! Não sei se chega a pesar 50 kg (logo, não pode ser dadora de sangue) e tem uma moto da marca da hélice que pesa uns pouco simpáticos 200 kg!

Ora, elevar cerca de 200 kg com apenas 50 kg de massa corporal não é tarefa fácil!Contou-me que, há pouco tempo, deixou cair a moto numa manobra a baixa velocidade e ficou aflita, apesar de incólume! Simplesmente não foi capaz de a levantar! Ainda tentou, mas rapidamente percebeu que a sua boa forma física de nada servia contra aquele “monstro” de metal que pesa cerca de 4 vezes mais que ela!

A sorte foi aparecerem dois bons samaritanos que lhe levantaram a moto, perguntaram se estava tudo bem e só a deixaram quando ela seguiu novamente viagem!

A Técnica da Força vs a Força da Técnica


Vamos ser sinceros: quando uma moto cai para o lado, numa manobra, ao estacionar, numa queda ou por deslizar no descanso por ter ficado desengatada… fazer com que ela volte à sua posição ereta, exige sempre algum esforço. 
Sei, por experiência própria, que consigo levantar uma moto de 200 kg sem grande dificuldade (peso cerca de 80 kg), mas o mérito não é tanto da minha (pouca) força, antes da técnica que fui apurando.

Podem não existir técnicas infalíveis, mas há manhas para tornar este procedimento, muito exigente do ponto de vista físico, menos complicado. Uma simples pesquisa na Internet pode ser um bom ponto de partida, com vídeos  bastante didáticos. A minha tática é: usar mais técnica e menos força.

Se a moto cair deitada para o lado esquerdo o que faço é desligar a ignição, garantir que está engatada e virar-me de costas para ela. Depois, apoio a mão direita no punho e a outra num ponto de apoio robusto, como o suporte das malas ou o quadro da moto, encosto o rabo na beira do assento e faço força para a içar (se tiver malas laterais, ou um motor boxer, metade do trabalho está feito), andando para trás, tipo caranguejo. Não forçar demais (cuidado com a coluna) e tomar cuidado para não a deixar cair para o lado oposto! Ponho o descanso lateral, e já está!

Se estiver deitada para o lado direito (do acelerador), aciono primeiro o descanso lateral e repito o mesmo procedimento, sendo que o risco de cair para o lado oposto é menor porque o descanso vai limitar o movimento. Ainda assim é necessário cuidado. 

Ambas as táticas tem resultado lindamente, até em motos muito pesadas! Esta prática é aquilo que chamo o triunfo da técnica sobre a força, mas podem existir – e existem – outras habilidades!

Ainda há pouco tempo uma pessoa me contava que levantou a sua moto, sozinho na garagem, e a dita tem um peso medonho, sendo o dono um tipo  “lingrinhas”! Disse-me que, simplesmente ficou tão danado com o ocorrido que chegou junto da moto, pegou no guiador com uma mão, encostou o corpo à moto e fez tanta força que a conseguiu levantar! Nem mais, nem menos! A energia do desespero! Sorte ter sido à primeira, porque é natural que não tivesse energia suficiente para uma segunda tentativa, mas conseguiu!

A ajuda de outras pessoas, que não motociclistas experientes, pode ser uma excelente ajuda, mas temos que ser nós a estar atentos e a orientar a tarefa. Imaginem ter alguém a ajudar a levantar a moto, que faça um esforço tão grande que a moto acabe por cair para o lado oposto! Ou então puxar pela haste do pisca até o partir ou fazer tanta força no punho a ponto de o arrancar. Portanto, ajuda sim, mas sempre bem dirigida para não resultar pior a cura que a doença!


Como é a realidade “fora de estrada”?


Não é segredo que tenho uma certa paixão por andar de moto fora do asfalto, e isso facilmente se depreende do que escrevo! Porém, é completamente diferente andar off-road com uma moto que pese 100 ou 120 kg, e outra que pese o dobro ou mais! Há um mundo de diferenças, mas o padrão divertimento é omnipresente em ambas! Fazer o “lés a lés off-road” numa moto de enduro com 350cc ou numa maxi-trail de 1000cc é divertimento garantido em ambas, mas são motos muito diferentes em termos de peso, potência, sensações e, sobretudo, em caso de queda!

Quem se diverte fora do alcatrão com motos leves (também conhecidas como “cabras do mato”) sabe que não costuma ser complicado levantar uns singelos 120 kg, mesmo estando cansado ou num piso escorregadio! Mais ainda, esse tipo de motos é desenhado e construído já a pensar nessas ocorrências e, mesmo que a moto caia (o que é comum), não costuma ser grave para a mesma, mais ainda se estiver equipada com proteções de radiador, de mãos, de cárter e de escape (sobretudo nas de motores a 2 tempos)…

Agora, uma ocorrência similar numa moto de aventura já exige outro tipo de cuidados, mais ainda se for num piso resvaladiço ou inconstante. Aqui a ajuda de outras pessoas pode ser fundamental! Não vale a pena queimarmos as nossas poucas forças, se pudermos ter auxílio de alguém. Cansamo-nos menos e mitigamos o risco de fazer estragos na moto ou em nós próprios!

Repito uma recomendação que nos pode salvar a vida: evitem andar sozinhos fora de estrada. No asfalto há, normalmente, uma maior probabilidade de haver outras pessoas a circular, mas no off-road não é bem assim! Podem passar horas ou dias até que apareça alguém que nos ajude a sair de uma “embrulhada”... que pode ser simplesmente levantar a moto, que deixámos cair ao atravessar um curso de água, ou num piso de areia traiçoeira e onde ficámos com uma perna “entalada” e não temos como nos desenvencilhar sozinhos! Sei do que estou a falar… por experiência própria!

Histórias Reais

Deixem-me também partilhar uma história antiga, vivida na primeira pessoa, e passada há mais de duas décadas: ia a caminho da “terrinha”, numa noite escura como breu, montado na minha flamejante 125 a 2 tempos, vinda do país do Sol Nascente quando, numa curva fechada que conhecia como as próprias mãos, tinha havido manutenção da mesma e havia gravilha espalhada no chão.  A queda foi inevitável!

Quando finalmente me recompus e parei de rebolar, fui capaz de me pôr em pé, mas tudo à minha volta era escuro! Não havia luar nem iluminação artificial, a estrada não tinha marcas... e isto passou-se antes dos telemóveis surgirem! Estávamos no início da década de 90! 

Era eu e a escuridão! Nem sequer sabia onde estava a moto! Depois de perceber que tudo em mim estava a funcionar (ou pelo menos parecia), compreendi que estava no ápex da curva! O ponto cego para quem vem da direita ou da esquerda. Isso foi o que mais me assustou! Não estava nos meus planos terminar os meus dias ali!

Mais por instinto que por qualquer outro motivo, fui para a berma oposta e, enquanto os meus olhos se iam habituando à escuridão (que bom a nossa visão ser adaptativa), parei para respirar fundo e “descobri” que a moto tinha ficado a pouca distância de cair para a ravina, que naquela época não tinha qualquer proteção…

Sem grande dificuldade (abençoado baixo peso,) levantei a moto à bruta e, sempre atento para ver se vinham faróis da minha direita ou da minha esquerda, começaram as tentativas de a meter a trabalhar. Após várias tentativas sem sucesso, e quando já me preparava para a técnica do empurrão (recurso extremo), eis que o motor ganhou vida com uma “kikada” mais forte!

Acabei por chegar ao meu destino sem manete de travão, com o farol torto e muitas dores no joelho esquerdo, mas cheguei!


Por tudo o que disse, cair (ou deixar cair) a moto é (quase) inevitável. A sorte, está no uso de equipamento adequado e na forma como reagimos a seguir, nomeadamente para tentar levantar a moto e seguir o nosso caminho. Isso é que pode fazer toda a diferença!

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