Paulo Araújo

Paulo Araújo

Motociclista, jornalista e comentador desportivo

OPINIÃO

O Artesão dos Escapes

"Adivinhar quando o artesão estava no Barracão era uma arte só por si..."

A oficina do Artesão, ali para os lados de São Domingos de Rana, às portas de Lisboa, era por todos conhecida como o Barracão. Toda uma geração de corredores de moto se habituou a ir ao Artesão para fazer escapes, endireitar panelas ou improvisar peseiras. 

andardemoto.pt @ 22-3-2017 23:57:59 - Paulo Araújo

Porém, no Barracão, faziam-se muito mais do que escapes, panelas, ou peseiras. Aprendia-se a esperar e a ouvir. Aprendia-se até a aprender.

Forjavam-se amizades. Discutiam-se os mais variados assuntos, quase sempre limitados à dimensão intelectual de quem visitava, e nunca à do Artesão. Esse, tanto falava de corridas, como de setas, como de atletismo ou música, ou das diferenças entre as estruturas moleculares do aço e do alumínio e respectiva influência nas temperaturas correctas de soldadura.

Falava-se de futebol, inevitavelmente, para os mais limitados. Motos e corridas, decerto, para a maioria que visitava. Se Valentino tinha mais talento, ou mais moto, que Sete Gibernau, ou se tinha mais talento, ponto final, que nas suas respectivas épocas tinham tido Doohan, Spencer ou Hailwood.

Mas também se dissertava sobre se havia Porsches para lá do 911, pois o número de rodas não era uma limitação dentro do Barracão, ou se alguém, alguma vez, excedeu o virtuosismo de Glenn Frey dos Eagles na guitarra.

Nas longas tardes de Verão, quando acalmar a sede parecia mais urgente que acabar o trabalho, muitas vezes a discussão remetia para o café mais próximo, com 2 ou 8 minis à frente ou, se a hora fosse a certa, um Porto com uma gotinha de limão.

Adivinhar quando o artesão estava no Barracão era uma arte só por si.

Claro que hoje, na era do Telemóvel, o circuito poderia ser encurtado, mas isso tirava a piada à coisa. E a maior parte da clientela ia para o café da esquina, habituada a ir para lá esperar com uma mini à frente, quando o Artesão se ausentava, por ter ido comprar rebites, ou tubos, ou fosse o que fosse.

Mas claro que tudo tem de acabar um dia.

O Barracão fazia parte da casa da mãe do Artesão, e ele próprio, que tinha corrido no Autódromo nos anos setenta, já ia pelos 60 anos. Inevitavelmente, houve um dia em que a senhora dos cabelos brancos e voz pausada não apareceu à janela para dizer que o Artesão não se demorava, que tinha ido só ali, e já voltava. E quando a senhora faltou, houve que mudar o Barracão, para outro Barracão a 2 ou a 5 quilómetros dali.

Não sei se alguma vez nos habituaremos ao Novo Barracão. Decerto, encontraremos outros cafés na vizinhança e, pouco a pouco, as conversas com o Artesão regressarão. Porventura, não será a mesma coisa...

Com o velho Barracão, acabou-se uma era em que o importante era inventar, mais que encomendar feito através do catálogo, era experimentar, mais de que seguir o que dizem na Internet. Por isso mesmo e não raro, aprendia-se muito no Barracão, como invariavelmente se aprende mais a criar do que a imitar.

No fundo, o Barracão era uma metáfora da própria vida e essa, felizmente, sofre alterações, mas nunca acaba, antes se renova num ciclo eterno.

andardemoto.pt @ 22-3-2017 23:57:59 - Paulo Araújo


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