Paulo Araújo

Paulo Araújo

Motociclista, jornalista e comentador desportivo

OPINIÃO

Karma, ou o ciclo da vida…

O motociclismo tem destas coisas…

andardemoto.pt @ 9-6-2017 16:14:55 - Paulo Araújo

Ia pelo IC2, naquela zona logo à saída de Lisboa que só tem contentores empilhados como paisagem. Numa longa reta poeirenta e permanentemente cheia de camiões. Lá à frente... qualquer coisa na berma... uma moto parada? Não, uma moto a ser empurrada... encostei ao lado do "motard", um miúdo de, talvez, 20 anos... 
- Posso ajudar?
-Acho que ficou sem gasolina, parou...
-Queres boleia para ir buscar gasolina?

Que não, que já tinha telefonado ao avô para lha trazer. Mesmo assim, encostei, examinei a moto, usei o velho truque de a deitar no chão para o lado esquerdo (era só uma Bandit 400, mas como quase todos os depósitos têm um túnel central, e muitos só têm uma torneira do lado esquerdo, do lado direito do depósito acumula-se gasolina que não chega à torneira) e tentei que o motor de arrancasse, sem sucesso.

Finalmente, abri o depósito, que estava quase meio...

-Mas tu ainda tens muita gasolina! Isto é outra coisa...

Ao fim de alguma observação percebo que o maçarico, que tinha ido buscar a moto na véspera, não virou a torneira para reserva...

Girei o manípulo e ao fim duns minutos, a moto pega com o latir raivoso d as 16 válvulas a levarem logo o regime para rotações pouco próprias. O miúdo ficou sem saber o que dizer e eu acenei-lhe um adeus bem disposto.

É bom parar para ajudar alguém, e quando conseguimos resolver o problema, melhor ainda!

Já em movimento de novo, vem-me à cabeça um incidente semelhante há 42 anos. Decerto, não foi a primeira, nem a segunda ou terceira vez que parei para ajudar outro motociclista, e calculo que não venha a ser a última...

Porquê então essa memória, das minhas primeiras em 2 rodas, a levar-me a 1975?

Foi na Westbourne Grove, zona Oeste de Londres, que eu, orgulhoso dono de uma nova (para mim!) Honda CB250 G5, daquelas com os escapes virados para cima, semelhante às K4 vulgaríssimas em Portugal mas com uma injecção de peças da CB750, ou parecidas, como toda a frente, o disco de travão, e o farol.

A moto em questão, o meu orgulho de então, começou a falhar, e finalmente parou e recusou-se a pegar novamente. Fiquei sem saber o que fazer, porém, quase de imediato, apareceu um "motard" local que já conhecia de vista, pois tinha uma CB750 muito particular, tipo café racer, com avanços baixos, escape Devil e pintura negra com filete dourado.

Mais tarde, travaria amizade com esse londrino, filho de um Jamaicano e de uma Sueca. Mas naquele momento era apenas um desconhecido, bom samaritano, que tinha parado para ajudar. Escusado será dizer que pôs a moto a andar em poucos minutos.

A ligação entre os dois casos, separados 42 anos no tempo, tornou-se óbvia... ao contrário de todas as outras vezes que parei para ajudar motociclistas com avarias mais ou menos legítimas, estas duas tinham algo em comum: é que, mais ou menos como o maçarico de 2017, que se tinha esquecido de virar a torneira da Bandit para a reserva, o de 1975, que era eu, tinha-se esquecido de fechar, ou melhor abrir, o ar. Em poucos quilómetros, as velas tinham ficado cheias de carvão e a moto tinha parado...

Moral da história: faz aos outros o que gostarias que fizessem a ti!

andardemoto.pt @ 9-6-2017 16:14:55 - Paulo Araújo


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