Paulo Araújo

Paulo Araújo

Motociclista, jornalista e comentador desportivo

OPINIÃO

A Honda RC30 tem 30 anos

A mítica RC30 da Honda cumpre 30 anos, que vão ser celebrados pela ocasião do Classic Tourist Trophy da Ilha de Man dedicado às clássicas, a 27 de Agosto próximo

andardemoto.pt @ 25-7-2018 11:48:00 - Paulo Araújo

É uma moto que, para lá do palmarés óbvio e de ser influência fulcral na velocidade dos anos 80/90, pessoalmente me diz muito. De facto, foi a primeira moto com que estive envolvido intimamente com vista a ajudar certas equipas portuguesas a desenvolvê-la para a competição. 

É que, avançada como era, a RC30 nunca foi uma vencedora nata saída do caixote… era preciso saber uns truques, e à medida que diversos preparadores, um pouco por todo, o mundo os foram descobrindo e passando palavra, começou-se a evoluir uma espécie de mapa do que era preciso fazer para transformar a relativamente relaxada versão de estrada, com a sua primeira velocidade altíssima (130 em primeira!) e a tendência para sobreaquecer devida à impossibilidade prática de passar de segunda velocidade numa condução normal, (e a RC45 que se lhe seguiu era ainda pior nesse aspecto), numa moto de pista eficiente.

Com bielas em titânio, de origem, utilizadas pela primeira vez num modelo teoricamente de estrada, e com um preço altíssimo de cerca de 15.000 Euros (na altura nenhuma outra 750cc japonesa excedia os 10.000) a VFR750R ia ser sempre uma moto muito exclusiva.

Acabaram por ser feitas apenas cerca de 4.700 unidades durante os 4 anos em que a moto esteve em produção. E em Portugal chegou a haver umas 5. 

Primeiro, descobriu-se que o V4, cuja especificação preconizava o uso de óleo sintético Silkolene ou Motul à exclusão de todos os outros, era extremamente sensível a sobreaquecimento. 


A temperatura ideal do líquido refrigerante de cerca de 78º, já de si extremamente baixa (há motores que funcionam perto dos 90º sem problemas), acarretava uma perda de 1 cavalo de potência por cada 2 graus acima desse ponto ideal, e com os radiadores de origem era fácil exceder os 100º, pelo que, mesmo que as juntas aguentassem, isso transformava os já de si modestos 118 cv em apenas 98, a potência de uma 600cc da altura.

Imediatamente, preparadores mais afoitos começaram a oferecer radiadores alternativos, caríssimosdevido as fabrico artesanal em pequenas quantidades e pela necessidade de serem curvos para encaixar no local certo em frente do motor. 

Até que alguém descobriu (acho que foi o meu amigo Ron Grant, ex-piloto Suzuki e preparador para a equipa britânica Francis Neill, que me ensinou esse e vários outros truques) que os dois radiadores de origem estavam ligados em paralelo, ou seja, a água circulava inofensivamente de um para o outro, e de novo ao motor. Cruzando uma das mangueiras, para ficarem em série e obrigar a água a percorrer todo o circuito refrigerante, resolvia o problema sem grande despesa!


Cortando a engrenagem silenciadora das cames, que actuava sob a tensão de uma mola mantendo-as sobre pressão, tornava-se a moto mais ruidosa, mas libertava cerca de 2 cavalos a mais. Isto era uma imitação do que acontecia nas cames HRC, que já vinham sem a peça. 

O grupo térmico HRC subia os já então 120 cavalos para uns já respeitáveis 132, e uma embraiagem seca FCC ou Moriwaki (ambas FCC, na verdade!) libertava mais 3 ou 4 cavalos porque o cesto da embraiagem passava a rodar mais livre… o que criava mais ainda! 

Do lado do chassis, era deitar fora os amortecedores e garfos de origem, para os substituir por Öhlins. Ainda se tentaram outras opções, mas para os privados esta era a solução prática… as Honda oficiais, que de qualquer modo eram a RVF e não a VFR, usavam garfos Showa, iguais aos das 500GP de fábrica, impossíveis de obter pelo comum dos mortais (feitos de unobtanium, como diziam os ingleses). Acompanhar o garfo dos respectivos triângulos dianteiros Öhlins, de três parafusos de aperto, fazia apenas a frente a ficar pelo custo inicial da moto…

Com tudo isto, e em pouco tempo, a Honda RC30 tinha uma série de preparadores especializados: Na Itália, Oscar Rumi tinha ido buscar Fred Merkel, que seria o primeiro Campeão de Superbike justamente com esta moto, em 1988 e 89, e este trouxera o seu amigo Neo-Zelandês Norris Farrow, homem de longa experiência. 

Na Bélgica, havia Jean D’Hollander, entretanto vitimado pelo cancro mas a mítica Dholda é continuada pelo seu filho Mike. Em França, era Gérard Brancquart, também ele já desaparecido em 2013. Na Alemanha, era a Muhlebach, que fazia alinhar nas SBK o rápido suíço Andy Hofmann e em Inglaterra, claro, Tony Scott, de quem falámos há bem pouco tempo.

Uma das RC30 presentes no Paddock TT Clássico da Ilha e Man vai ser, justamente, a RC30 preparada por Tony Scott com que Carl Fogarty ganhou um ano. Outras em vista são motos com que correram nomes como Joey Dunlop, que teve particular sucesso na RC30, Steve Hislop e Phil McCallen, todos os 4 habituais de Vila Real nesses anos, e Freddie Spencer, neste caso a moto da Two Brothers com que ele correu nos EUA.


Outras máquinas incluem motos de Nick Jefferies, Steve Ward, Johnny Rea (pai do actual Campeão Mundial de SBK Jonathan) Alan Bennallick, Kenny Irons e do australiano Mal Campbell.

Além disso, uma série de RC30s do Campeonato Mundial de Endurance estarão também em exposição, incluindo a Honda Dholda de 1989, uma Moriwaki ex-Mal Campbell, também de 1989, ano que o australiano levou ao terceiro lugar nas 8 Horas de Suzuka que, claro, foram ganhas por…Alex Vieira noutra RVF. 

As máquinas das equipas Team Bike e That's Racing, que conquistaram vários pódios na Resistência também lá vão estar. Aos EUA a RC30 só chegaria um ano mais tarde, em 1989, razão porque só se ouviu falar da versão da Two Brothers mais tarde…


O  kit era extenso e muito caro

O kit era extenso e muito caro

Finalmente, facto pouco conhecido, houve 2 séries da RC30, distinguidas apenas por pequeníssimos detalhes (furos em redor dos faróis para chegar ao parafuso de ajuste, não presentes no segundo modelo) e por um dos azuis na tira superior ser mais escuro.

Nos dias de hoje ver uma RC30 é coisa rara, sem dúvida muitas foram destruídas em competição e as que permanecem estão nas mãos de colecionadores e começam a registar preços muito elevados.

andardemoto.pt @ 25-7-2018 11:48:00 - Paulo Araújo

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