Paulo Araújo
Motociclista, jornalista e comentador desportivo
OPINIÃO
MotoGP - Silly season - a época tola
Todos os anos, por esta altura, começa a chamada época tola ou “silly season” na MotoGP… primeiro, são os rumores de quem está a falar com quem ou quem vai para aonde...
andardemoto.pt @ 20-6-2018 21:19:57 - Paulo Araújo
Depois, seguem-se as confirmações, por
vezes totalmente diferentes do que tinha sido falado nos mexericos –daí, “silly
season”! Este ano, já houve algumas ”bombas”, e comenta-se até que o carrossel começou
ainda mais cedo que habitualmente.
Com Valentino Rossi, nos últimos anos sempre o eixo à volta de que tudo roda, já assegurado na Yamaha, o interesse dos paparazzi tem-se centrado em Jorge Lorenzo. Especialmente desde que este começou a ganhar – e foram logo duas seguidas, e logo na moto mais difícil de pilotar do pelotão!
As vitórias do Maiorquino calaram os críticos que já o davam por acabado, mas especialmente foram uma lufada de ar fresco na Ducati, até porque Dovizioso, que no ano passado aproveitou as dificuldades de Lorenzo para exigir um aumento de salário considerável, não tem andado exatamente em maré de vitórias…
Para Lorenzo, o sucesso, aparentemente devido a uma coisa tão
simples como adaptar uma peça plástica ao depósito da Desmosedici, dando-lhe o
apoio e confiança que precisava para curvar ao seu estilo, veio mesmo no
momento certo…
Logo que se soube que Pedrosa ia largar a Honda Repsol, e logo de seguida que provavelmente largava as corridas de todo, depois de uma série de épocas algo indiferentes, que o tornam uma espécie de Randy Mamola dos tempos modernos, um eterno segundo, ficou óbvio para onde iria Lorenzo.
A pressão da petrolífera espanhola sobre a Honda para ter dois espanhóis é quase impossível de contornar – é o dinheiro da Repsol que faz rodar toda a equipa, que tem das maiores estruturas no “paddock”- e ainda por cima a equipa é gerida por Alberto Puig, vulgo “el malcriado”, pela forma como telefonava aos jornalistas espanhóis a insultá-los se eventualmente diziam mal de algum dos seus pilotos.
E com estas duas vitórias, Lorenzo aumentou em muito a sua cotação, porque a inferência é óbvia - se ganha na Ducati, dêem-lhe as condições e ele é capaz de ganhar em qualquer moto, aplicando a sua receita (quase de outsider na MotoGP dos dias de hoje) de suavidade de trajetórias e espantosa velocidade em curva… Isto porque o mais vulgar hoje é uma entrada em curva violenta, que põe grande stress na dianteira (daí o sucesso de Stoner nos tempos da Bridgestone), uma patada no travão traseiro para ajudar a moto a fazer a curva em bico e depois endireitar e acelerar a fundo.
É justo dizer que a Honda não tem estado muito bem, com a esmagadora maioria das vitórias a ser devida ao talento extraterrestre de Marquez, que simplesmente vem redefinindo o que se pode fazer com uma moto de 157 Kg e mais de 220 cavalos de potência.
Até o facto de Crutchlow ganhar mais do que Pedrosa, aponta o dedo às dificuldades da equipa de fábrica, como quando Zarco tinha melhores resultados que Viñales e Rossi na Yamaha, se bem que não seja mesmo a mesma coisa, porque as Tech 3 são Yamaha satélite (leia-se uma ou duas gerações desfasadas das de fábrica da Movistar) e a Honda de Crutchlow é puro HRC, em princípio idêntica às de Marquez e Pedrosa.
Não lhes fazia mal nenhum terem um segundo piloto vencedor nas fileiras (OK, com Crutchlow, um terceiro!) especialmente um que usa a moto de forma muito diferente do Nº1 e portanto, vai originar uma série de dados em paralelo para acelerar o desenvolvimento. E se a formação já atraía as inimizades do campo Rossi por lá ter o seu arqui-inimigo Marquez, porque não juntar o útil ao agradável e colocar lá o segundo maior rival do Italiano? A coisa funciona, portanto, quer do ponto de vista técnico, que mediático, embora o salário de Lorenzo vá provavelmente ser o dobro do que recebia (hesito em dizer ganhava) Pedrosa. Temos assim, em termos de salários, uma hierarquia que continua a ser liderada por Rossi, hoje praticamente o único em números duplos, i.e., mais de 10 milhões por ano, acompanhado de Marquez e Lorenzo e… pouco mais.
Todos os outros, leia-se Dovi, Crutchlow, Viñ, etc. já andam, tanto quanto se pode apurar, pelos 3-4 milhões e o resto da grelha, menos de metade disso. Da Moto2 ascendem Miguel Oliveira (para a KTM Tech 3 mas com contrato à fábrica), Joan Mir (para a Suzuki, onde substitui Ianonne que vai para a Aprilia Gresini, onde por sua vez substitui Scott Redding). Lorenzo, como vimos, vai para a Honda Repsol e é substituído na Ducati por Petrucci, vindo da Pramac, e talvez a promoção mais inteligente do ano- veremos! Jorge Martinez Aspar parece estar a cortejar fundos da milionária Petronas Malaia para assumir o manto de equipa satélite Yamaha, provável destino de Zarco nesse caso. Joan Mir, outro Moto2, vem para a Suzuki, que guarda Alex Rins. A única sem alterações é a Yamaha Movistar, que permanece com Rossi e Viñales.
O outro aspeto da “silly season” tem sido a passagem dos melhores da Moto2 para a MotoGP cada ano. O ano passado, veio um verdadeiro contingente, Morbidelli, Nakagami e Luthi, considerável se pensarmos que como chegou a haver só cerca de 18 pilotos na classe rainha, passariam a ser um sexto da grelha… entretanto, a chegada ou regresso da Aprilia, KTM e Suzuki lá subiram a parada para os atuais 26, dando mais oportunidades de ascensão, se a ambição for meramente dizer que se está na classe. Se apontarmos para conseguir uma moto competitiva também, já não é tão fácil.
Por outro lado, viu-se que, embora a adaptação da Moto2 para MotoGP seja, em teoria, um salto muito menor que da Moto3 para a Moto2, o facto de um piloto ter sido rápido na Moto2 não garante de forma alguma que vá fazer ondas na classe maior… As razões porque o salto é menor são, como diriam os Gift, fáceis de entender…. Uma Moto3, com potência modesta do seu monocilíndrico de 250cc e superfície de contacto exígua dos pneus estreitos, tem de ser guiada com suavidade, escolhendo as trajetórias para preservar a máxima velocidade em curva e evitando excesso de movimentos que causem abrandamento.
Por contraste, e basta ver cada entrada em curva de Oliveira para ver isso, a Moto2 guia-se atirando-a para a curva com contra brecagem (se repararem bem, quando ele curva para a esquerda a roda da frente está a virar para a direita, com um carro de rally – todas as motos de estrada se guiam assim também, só que de forma muito menos violenta) e depois mantendo-a equilibrada com aceleração à saída à medida que a traseira derrapa mais ou menos… muito mais como uma MotoGP portanto, pese a diferença de 100 cavalos!
Só que a MotoGP, comparada à fórmula de controlo de Moto2, com um motor Honda comum a todas e as afinações de chassis a serem portanto o único recurso para as fazer ter comportamentos diferentes, oferece uma variedade de parâmetros quase infinitos quando aliamos as capacidades da eletrónica às possibilidades do chassis… 23º ou 24ª de caster? Molas de 15 Kg com óleo de grau 8, ou molas de 12 Kg com óleo de grau 12? Quanto? Mais 10cc em cada garfo? Quanta pré-carga? A que rotação queres que o controlo anti-derrapagem entre em acção e com que intensidade? A altura da traseira está bem? Hidráulico de compressão e retorno? E o eixo do braço oscilante? Queres pro-squat (a moto afunda a traseira sob aceleração, carregando o pneu, mas destabilizando a frente) ou anti-squat (a moto sobre quando se acelera, carregando mais a frente mas derrapando mais de traseira)? Só mencionámos uma pequeníssima parte do que se pode fazer…
Perante estas escolhas, um piloto que não for muito analítico ou muito bom a ler a moto e explicá-la aos técnicos (esta última, menos crítica de há uns anos para cá porque eles podem ver na telemetria tudo que a moto está a fazer) pode ficar confuso e sem saber em que direção remar. Franco Morbidelli dominou o ano passado, com Miguel Oliveira o único piloto a fazer-lhe alguma sombra no final da época, e este ano afundou-se na grelha de MotoGP e quase não se ouve falar dele… tem 19 pontos, muitos deles fruto daquelas corridas em que quedas mais à frente (recuerdos de Dovi e Lorenzo a chocar, alguém?) fazem todos subir na classificação.
Mesmo assim, Morbi está muito à frente dos 10 pontos de Nakagami, ou dos zero de Luthi, mostrando que a adaptação nunca é fácil.
Para o ano, virá Oliveira, num salto que muitos já criticaram por ser para uma equipa satélite. Não estão a considerar várias coisas: Primeiro, os resultados da equipa oficial da KTM em MotoGP, para sermos delicados, são modestos, portanto, haveria assim tanto a ganhar ao integrá-la? Segundo, a equipa satélite em questão, a Tech3 de Hervé Poncharal, (uns meninos que incluem o mecânico–mestre Guy Coulon e se davam ao luxo de construir uma 500 de GP de raiz a partir dos cárteres nas suas oficinas só para se divertirem) passou uma época a dar um par de calças à “equipa oficial” quando a Yamaha teve um mau momento. E terceiro, como vimos, há só X lugares nas motos mais apetecíveis e são atribuídos mais por política que por mérito…
Os grande rivais de Miguel no Campeonato Espanhol CNV há uns anos atrás, tu-cá-tu-lá, ganhas tu ganho eu, eram um tal Maverick Viñales e Alex Rins… ambos estão na MotoGP há séculos, pelo menos 3 anos antes do Português… Oliveira teve de crescer através da hierarquia lidando com o facciosismo dos espanhóis, os mesmo que gerem o Mundial – quando havia dúvida, era ele o desclassificado, como aconteceu várias vezes... Daí resulta a sua condução impecável, de verdadeira precisão… era preciso ser rápido sem cometer erros nem ninguém ter nada a apontar..
Acham que numa MotoGP em desenvolvimento isso vai ser útil? Eu acho que sim!
andardemoto.pt @ 20-6-2018 21:19:57 - Paulo Araújo
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