Paulo Araújo

Paulo Araújo

Motociclista, jornalista e comentador desportivo

OPINIÃO

Por dentro dos Grand Prix Legends...

A presença dos Grand Prix Legends no Estoril o passado fim-de-semana foi um banho de nostalgia, uma oportunidade de rever sons, cores, máquinas e, certamente não de somenos importância, caras e velhos conhecidos do passado. Um evento que se quer ver crescer e regressar.

andardemoto.pt @ 11-10-2018 00:03:36 - Paulo Araújo

Xaus ajuda Sobral a entender a R1

Xaus ajuda Sobral a entender a R1

É verdade que a lista não foi tão rica nem tão variada como a anunciada por Wayne Gardner originalmente... O 3 vezes Campeão Mundial de 250 Carlos Lavado não estava em lugar nenhum à vista, e dois espanhóis praticamente desconhecidos e que pouco andaram no Mundial, Luis Carlos Maurel e David DeGea, um melhor de oitavo na Catalunha em 2000, eram fracos substitutos.

Foi porém uma agradável surpresa encontrar Pierfrancesco Chili com a sua simpática esposa, ele sim, com uma carreira distinguida, quer nas 500, onde venceu em 1989 no GP das Nações e conseguiu três pódios entre 1987 e 1990, quer posteriormente nas SBK, onde teve vários despiques épicos com Fogarty... De entre as memórias que vêm à baila, estava lá quando deu uma grande queda em Brands Hatch, que ele recordava melhor que eu: 

“Eh pá, estava em luta com o Haga pela frente, caí em Paddock, muito rápido mesmo, fui ter ao Hospital, tive de lhe conceder a vitória…” 

“Ainda tens a praia em Rimini?” Ele e a mulher levantam as sobrancelhas, por eu me lembrar desse pormenor: 

“Sim, sim, continuamos lá…” “e o teu filho corre?”

“Sim, está este fim-de-semana em Vallelunga, mas está em dificuldades… já no seco não tem muito jeito, está molhado e no molhado então não está mesmo nada à vontade…”

De Gea, Read, Roche, Gardner

De Gea, Read, Roche, Gardner

Tal como Raymond Roche, que saudei efusivamente por ser dos meus malucos, digo, pilotos, favoritos das SBK... "Epá, não nos víamos há vinte anos" (estava a tentar ser simpático)... O francês que deu à Ducati o seu primeiro título de SBK em 1990 reflectiu uns segundos antes de responder: "Há mais!". Tinha razão, acho que não nos víamos para aí desde 1993... "Ainda estás em Bandol? (Vila perto do Paul Ricard) Adoro aquele cheiro dos pinheiros... Ouvi dizer que o velho manager da Honda France se aposentou para lá..." "Sim, o Jean Louis Guillou”, remata Roche...quando o chamam ao pódio depois da primeira corrida que acabou num lugar bem indiferente, (“falta velocidade à moto, é super lenta!” -explica) pergunta à menina da organização "porquê, porque sou um gajo porreiro?"

Gardner, 18 vitórias em 500 e primeiro Campeão Mundial de 500 Australiano, compenetrado do seu papel de organizador, sai da moto algo cansado, mas não esquece a presença do filho Remy em Moto2: "Não esteve mal, chegou a andar em 10º e acabou em 12º, mas a moto é 1O km hora mais lenta em reta que as outras, imaginas, 10km hora? O Miguel esteve bem...” - diz-me de passagem enquanto assegura que a formação cá fora inclui o português presente, o Hermano Sobral, completo com a bandeira nacional, já que Laranjeira já tinha desistido no dia anterior...


A grande Moriwaki

A grande Moriwaki

"Paulo, tu falas inglês super bem, explica ao senhor (Gardner) que agradeço o convite, mas a moto que me deram (a grande Kawasaki com cores Moriwaki mas que é de facto uma Yoshimura) falha de caixa, não ando com confiança, há mais pilotos convidados que motos e tenho mais que fazer, tirei tempo do trabalho e vim do Mónaco para estar aqui...” Também Nuno André era para lá estar, talvez com mais mérito que qualquer dos outros, pois é o único português a ter pontuado no Mundial antes de Miguel Oliveira, mas chegou à entrada para ser confrontado com a habitual prepotência e burocracia das organizações do Estoril: Que não tinha credencial, que não podia entrar, etc... Quando o problema chegou aos ouvidos de António Lima e este facultou a entrada, já Nuno André, uma combinação de pouca paciência e muito dinheiro, estava quase de volta à sua residência no Cartaxo.

Tom Sousa Machado acabaria por se juntar (penetrar, como ele disse!) ao espectáculo no Domingo com a sua Yamaha 350... Já pode dizer aos netos que andou em pista com Wayne Gardner e Freddie Spencer... O mais efusivo e também mais rápido de longe, por ser o que ainda há pouco estava no activo, era Ruben Xaus... Conviveu com todos, tirou tempo para explicar pacientemente as electrónicas da Yamaha R1 ao Sobral e explicou-me uma das coisas que fazia confusão aos mais observadores... A forma muito diferente como as R1 e Fireblade presentes gastavam os pneus..."Vês, as Honda tem Pirelli, são mais macios e a moto mexe muito, por isso gastam-se muito mais... Os Bridgestone das Yamaha dão muito grip mas de uma forma completamente diferente... " Depois lembra-se que nos conhecemos para aí há 20 anos também... “E tu, que tens feito?"

Niall Mackenzie, ex-companheiro de Schwantz nas Suzuki com as cores da Pepsi, está completamente calvo mas lembra-se de mim. Falamos do seu filho Tarran, que de repente é uma sensação no Britânico de SBK: “Foi alguma ajuda tua, com a influência que ainda deves ter na Yamaha?” “Nahh, claro, o nome ajuda, mas hoje em dia as equipas querem é resultados, se não entregas, estás fora! Mas ele tem-se dado bem, de repente deu um grande salto… e é melhor que ter de ter um emprego a sério!”

Chili, Mackenzie, Roche

Chili, Mackenzie, Roche

A um canto, e pelos vistos ninguém vai andar nela, está uma Cagiva V589, lindíssima, o modelo de pista que deu origem à Mito 125 de estrada, que dimensionalmente é idêntica. A moto chega a ser posta a trabalhar, tem um ladrar raivoso de escapes bem afinados, mas nem o Suiço Schmassman, que andara na Suzuki RG500 sem problemas, se atreve com ela.

Phil Read, indisposto no Sábado, já lá está no Domingo e espalha autógrafos e simpatia enquanto aproveita para apanhar sol... "Não estou bem, tenho dificuldades respiratórias, desde que estou aqui ao sol já me sinto melhor...viste que está ali a minha Suzuki antiga do Team Life?" Ele que sempre foi defensor acérrimo da segurança e uma vez, há muitos anos, me deu um raspanete por chegar a Brands Hatch com um pneu quase careca na minha BMW, repara com interesse no meu blusão Drenaline arejado: "Isto é giro, porque se a malta tem calor demais, encoraja-os a andar sem blusão e depois as consequências..." Muitos se aproximam, mais um autógrafo, mais dois dedos de conversa… são sete títulos mundiais ali, naquele homem de 80 anos, Medalha do Império Britânico, que ainda anda de calções, na desportiva.


Spencer na RS500

Spencer na RS500

Da multidão que se acumula em redor das boxes 2 e 3, assignadas aos Grand Prix Legends, alguém me sorri… É André Cunha, antigo Campeão Nacional de Velocidade, que por agora já tem filhos mais ou menos do tamanho que ele tinha quando corria… um traz uma preciosidade, um modelo à escala 1:12 da Honda NS500 com que Spencer foi Campeão pela primeira vez… “importas-te, Paulo ?” e lá vou eu… Freddie está no seu elemento, tem paciência, tempo, e um sorriso para todos, ao contrário do que muitas vezes acontecia quando corria a sério e depois se refugiava na Motorhome com uma lata de Dr. Pepper, o seu refrigerante favorito. Não se limita a assinar a motinha, explica, enquanto a tira pacientemente do estojo de acetato para a assinar no sítio certo, no topo do depósito. Um mini-autógrafo cuidadosamente caligrafado num sítio que só tem para ai 2 cm de superfície: “Ah, esta era uma 500 muito especial… foi a primeira que a HRC fez para mim, mesmo para o Mundial… infelizmente estas rodas de carbono partiam, dei uma grande queda na África do Sul… mas era incrível, muito leve e manobrável!”

Do outro lado, o rugir da grande Moriwaki-que-é-uma-Yoshimura (já lhes conto a história) acorda o interior da boxe, é David de Gea que vai beneficiar dos protestos do Laranjeira, pois o selector faltoso foi arranjado. Gardner, que veio para a Europa dar cartas nos Campeonatos ingleses com aquela moto, explica: “Tem muita força, sob aceleração tenta levantar a frente, é muito divertida de pilotar… mas depois nas curvas tens de te mexer muito na moto para a colocar onde queres…”

Pronto, vou contar: Antes de preparar as Suzuki, a que o seu nome ficaria intimamente ligado na América, “Pops” Yoshimura preparava Kawasaki. Preparava os motores, entenda-se, porque não era grande mago de chassis. Mas Steve McLaughlin, o seu piloto, era, já vinha com a experiência de transformar o relativo barco que era a BMW R90S numa vencedora de Daytona, e tinha afinado a Z1000 um brinquinho… rolamentos de agulha no veio do braço oscilante, amortecedores com maior curso, quadro e garfos reforçados… só que, na mesma altura, a Suzuki América faz uma daquelas propostas irrecusáveis a Yoshimura, para a parceria que ainda hoje dura, das motos vermelhas e negras. “Pops” tem de se livrar da Kawasaki, mas sem ofender ninguém, e oferece-a ao seu genro Mamoru Moriwaki, completa com as afinações de Steve… a moto só tem de levar uma pintura azul e amarela, o menos Yoshimura possível, e é um dragão vencedor. Criou-se uma lenda do dia para a noite, em Moriwaki, que na altura sabia tanto de preparação de chassis… bem, como eu! O motor, esse,começou por ser Yoshimura, antes de levar a preparaçao Moriwaki, que hoje é uma marca de pleno direito, tendo inclusivamente feito motos completas de competição!

Stevie Baker, o 32 dos óculos dentro do capacete, que sempre pensei ser Canadiano, é afinal americano: "Não, eu sou Americano, mas daquela zona tão perto da fronteira que era mais fácil arranjar sponsors canadianos... muita gente pensava que eu era Canadiano por causa disso!" 

Ainda conversei com Jurgen van den Goorbergh, o holandês de que ninguém se lembra, que andava na Suzuki RGV ex-Kenny Roberts, completa com o número 10, uma máquina recente, do último ano em que correram 2-tempos no mundial… “É algo difícil de pilotar, terrivelmente potente, nem quero saber aonde estão os limites, em poucas voltas estás estafado, da parabólica antes da reta da meta sai com uma velocidade impressionante!”

Durante dois dias, foi assim, um banho de nostalgia, conviver com pilotos, alguns meus conhecidos, outros nem tanto, em imersão próxima, a ver o entusiasmo do público ao reconhecer alguns dos seus heróis, agora mais velhos… “Olha, aquele é o Roche… e quem é o do boné?” “Phil Read”  respondo eu pela enésima vez. O banho fez-me bem. Venho refrescado, pronto a enfrentar de novo o mundo de Press Releases que falam dos controles de tração, telemetrias, anti-wheeling, shifters e embraiagens contra-deslizantes das motos de GP atuais…

andardemoto.pt @ 11-10-2018 00:03:36 - Paulo Araújo